por Américo Paim
Demorei tanto a me decidir sobre que molho colocar na massa que, quando me virei com a bandeja carregada, só havia uma mesa livre, em um canto desprezado da praça de alimentação do shopping. Sábado à tarde nunca foi o meu forte para ir a tais lugares, mas uma coisa e outra e acabei ali, no meio da confusão ruidosa de gente zanzando para lá para cá e o barulho de pratos, vidros e talheres, cadeiras arrastando e descargas de vapores. Estava bem cansado da semana e de ter batido muita perna atrás de um presente para o Dia das Mães. Poderia ter me mandado para casa logo depois de decidir, pelo quarto ou quinto ano seguido, comprar a colônia preferida dela, só que o carro estava muito longe e a fome falou mais alto.
Estava na terceira garfada, bebendo Coca zero e a vi meio perdida no mar de mesas, a procurar um lugar livre, que não havia. Meio no reflexo, a convidei a sentar-se na mesa em que eu estava. Não sei por que fiz isso, nem é muito meu jeito. Ela parecia ainda menos à vontade que eu, mas estava com mais fome pelo visto, pois veio e se acomodou de frente para mim. Parecia que estávamos em um encontro. Ela tinha a pele branca, marcada por manchas aleatórias e cabelos bem escuros. As sobrancelhas, feito um arco, porém, sem exagero, não estavam tão bem cuidadas. Seus olhos, de um verde bem claro, pareciam uma porta aberta onde se vê tudo através. O nariz meio arrebitado, não tenho certeza. Só vi seus dentes em um piscar de olhos, na hora que aceitou meu convite. Estavam amarelados, eu acho. Ela parecia assustada, desconfiando do momento desconfortável. Comia sem emitir sons, com gestos calculados e econômicos. Após cinco minutos de silêncio, arrisquei uma pergunta tola sobre o calor. Ela ainda muda. Eu suava e ela parecia saída de um frasco de perfume ou de um comercial de ar-condicionado. Evitei olhar direto para seu rosto, mas me pegava analisando a sua face em pequenos intervalos, entre uma mordida e outra. Achei que a conhecia de algum lugar. Não queria falar dessa maneira. Pareceria uma cantada bem básica. Ela não me olhava. A sensação crescendo. Eu a conhecia, sim. De onde?
Mudei a abordagem e falei do tempero sem graça da comida. Funcionou. Ela concordou e mencionou vários ingredientes e formas de preparo. Ficou claro que entendia muito. Nunca escolheria aquele lugar para comer, me disse. Era só por causa do preço. Perguntei e confirmou ser do ramo de gastronomia. Ela falava em frases curtas, intervaladas por desvio de olhares, e eu tentava montar o quebra-cabeças, ainda sem confirmar sua identidade. Estava pronto para perguntar seu nome quando um gesto dispensou a pergunta. Ela comeu um pedaço do seu filé, virou o rosto de um jeito suave para a esquerda olhando algo que chamou sua atenção e coçou o lado direito do nariz com três dedos juntos, indicador, médio e anelar. Ninguém fazia isso. Só ela. Só podia ser ela. Eu perdi alguns segundos me recuperando do choque. Aquela mulher de meia idade, com uma degradação física proporcional, mas ainda surpreendente, com aquele olhar triste e voz quase inaudível, com aquela blusa em verde escuro que merecia ser um pouco mais folgada e uma calça jeans que parecia ser sua companheira de longa data, era a mesma menina que eu conheci na recém-nascida adolescência, na escola. Eu não podia crer que minha crush, minha linda deusa de cartas que escrevi e abandonei, de fotos que roubei na secretaria da escola, de horas nos banheiros, estava ali, na minha frente.
– Desculpe, tenho que perguntar. Você é Tâmara?
– Sim. Eu lhe conheço? – disse um tanto desconfiada.
– Poxa vida! Olha só, nós fomos colegas.
– Não me lembro de você.
– Estudamos na Imaculada Conceição.
– Hum, foi minha escola mesmo. Bem, já faz muito tempo.
– Eu sou o Eliseu.
– Não me acendeu nada.
– Eu era do grupo dos não populares.
– Pois é. Como vou saber quem é?
– Bem, deixa pra lá. Quanto tempo. Você mora aqui?
– Repare… Eliseu, né?
– Isso.
– Obrigado pela cadeira na sua mesa. Melhor pedir a conta.
– Não, por favor. Vamos conversar só um pouco.
– Por quê?
– Nunca tive essa chance antes!
– Bom pra você, acredite.
– Posso pedir uma cerveja?
– A sede é sua.
– Para nós, claro.
– Como quiser, mas será só uma.
– Tudo bem.
Não deixei que ela mudasse de ideia. Comecei a beber devagar. Fiz elogios à sua aparência. Soaram tão falsos que ela apenas me olhou com reprovação muda. Mudei o foco para a carreira. Perguntei sobre que curso ela fez. Expliquei que nunca soube, pois ela tinha saído daquela escola três anos depois e perdi o contato, não acompanhei seu destino. Ela me olhava como se eu estivesse falando grego, mas contou que entrou para a faculdade de Direito. Estudou por dois anos e saiu. Quis avançar no assunto, ela tomou um longo gole e voltou ao silêncio. Aproveitei para falar que segui Administração, fiz pós, especialização, viajei, trabalhei em várias empresas. Me empolguei no discurso e a partir de um momento ela nem olhava mais para mim. Não estava ali. Pensava longe – era minha conclusão. A conversa se salvou no instante que contei sobre minhas três ex-mulheres. Ela se identificou de alguma forma e até mostrou que seus dentes não eram amarelos como pensei ter visto. Seu sorriso continuava lindo. Voltei no tempo e até perdi o começo da fala dela.
– … foi quando o relacionamento ficou mais sério.
– Sim, claro. E aí?
– Eu e Clóvis nos casamos.
– Esse Clóvis é o mesmo que estou pensando?
– Não sou adivinha.
– Um alto, fortão? Que tinha um sinal perto da boca?
– Sim. Você conhece da escola?
– Claro! Quem não lembra de Clóvis Boca Preta?
– Hum…
– Ele era meio burrinho, né? Mas se dava bem com a mulherada. Opa, desculpe…
– Tudo bem. A descrição bate. Você tem horas aí?
– São duas e cinco.
– É. Acho que é hora de ir.
– Não, espera! Por favor!
– Essa conversa já deu.
– É que eu queria pedir…
Aquilo foi complicado. Mesmo reconhecendo que ela não era a mesma de quando fiquei fascinado, tinha que reconhecer que eu queria realizar o que não aconteceu lá atrás. Ela não podia ir embora! Ia ter outra chance dessas? Nunca! Meio sem saída, ela já catando a bolsa e ensaiando sair, eu arrisquei.
– … cerveja!
– Como?
– Só essa, vá. A saideira.
– Você não tem o que fazer?
– Hoje é sábado. Seu marido está lhe esperando?
– Creio que não.
– Ele está no trabalho?
– Você é bem curioso.
– Só conversando, sem pressão.
– O que você quer com esse papo?
– Só saber da sua vida. É que…
– Nada de interessante. Perda de tempo.
– Duvido.
– Minha vida que não houve.
– Como?
– Esse seria um bom papo.
– Fale aí, ué.
– O que seria, se eu não tivesse desistido de tudo para me casar.
– Não é feliz?
– Estou recomeçando.
– Não sei se entendi.
Falei e olhei seu braço direito, que escondia parte de uma tatuagem, que ela, rápida, escondeu. Perguntei o que era. Disse ser mais um erro. Insisti e veio aquele olhar de repreensão de novo. Mostrei uma de peixe que tinha perto da batata da perna. Ela sorriu. Foi mais forte que ela. Me falou que era uma que sempre quis fazer. Antes que eu falasse, me disse que ele não deixou. Mais umas três perguntas e a verdade. Estavam separados há pouco tempo, havia uma medida protetiva e ela era só medo. Avançamos e a minha Tâmara foi voltando. Vieram outras cervejas e eu já me sentia outro. Não achava mais defeitos nela. Fosse a empolgação, as cervejas ou qualquer outra coisa, eu estava pronto a fazer acontecer o que se perdeu sem nunca começar.
– Bem, agora vou mesmo.
– Foi bom demais lhe ver. Será que…
– Lhe dei meu telefone.
– Certo. Vamos combinar.
– Até.
Nem um beijo de despedida. Ela coçou o nariz daquele jeito, me encarou uma última vez e saiu lenta, olhando para os lados, a bolsa apertada contra o peito. Fiquei ali de pé, até ela se misturar ao povo todo do shopping. Me veio uma gastura esquisita. Mas não era uma sensação de quem vai bater um pênalti. Era a de quem mandou uma na gaveta, longe do goleiro. De três dedos, claro.
