Cor de burro quando fica – Yan

Para Carla Akotirene

Escrevi, um ano atrás, um poema no qual digo que sou um farrapo russo por dentro. Começo o poema com a lenda da velha chinesa que descobriu a seda enquanto tomava chá sob uma cerejeira, um casulo caiu no chá e se abriu nas fibras finas do tecido mais valioso do mundo. Depois menciono que mulheres encostaram em mim e disseram que tenho a pele muito macia. E depois digo que sou um farrapo russo por dentro. Numa revisão posterior, percebi o erro: eu queria dizer ruço – que quer dizer pardacento, desbotado, ou ainda, como diz minha avó, áspero e puído. Percebi o erro há cerca de um mês e, quando estava a ponto de corrigi-lo, lembrei de outra coisa que minha avó sempre quis dizer e diz desde que me entendo por gente: nós temos um ancestral russo. O sujeito se chamava Leopoldo Simon e deixou a Rússia no final do século XIX, fugindo do alistamento obrigatório de alguma guerra do Czar Romanov. Fugiu primeiro para a Boêmia, na Alemanha, e depois para o Rio Grande do Sul. Casou com a filha de um estancieiro, perdeu o dote por ser imigrante e os dois foram parar em Vila Isabel, o bairro boêmio do Rio de Janeiro onde cresci.

O russo era avô da minha avó, meu tataravô. Nunca gostei de vodka, sempre amei estrogonofe e demorei anos para entender de onde veio a minha cor, tão destoante da de minha avó e de toda a minha família. Mas, desde que me entendo por gente, eu sei que tenho um tataravô russo. Inclusive, tenho uma foto em preto-e-branco dele (branco igual papel branco) que a minha mãe guardava, com a data de 18-e-bolinha e alguma coisa escrita em cirílico. Minha mãe sempre gostou de guardar fotos velhas da família e, sobretudo, de mostrá-las. Graças a esse hábito eu conheci a cara do pai da minha mãe, meu avô, que morreu antes do meu nascimento e tinha a mesma cor e o mesmo nariz que eu. Quando comecei a dizer que nós dois éramos pardos, minha avó disse que eu era cor-de-burro-quando-foge. E demonstrou seu amor pelo falecido esposo dizendo apenas:

“Ele era branco do Maranhão, meu filho”.

Eu também gostava de mostrar a foto de meu avô pardo por aí quando conheci o movimento negro no curso de Ciências Sociais. Era o meu certificado de pertença racial e falava por mim: “olha só, não sou só moreno de sol, não sou branco mesmo”. A foto do meu avô pardo foi minha grande descoberta, no mesmo momento em que descobri Casa-grande e senzala e o mito da democracia racial, no mesmo momento em que descobri o preconceito de marca brasileiro e a one drop rule estadunidense. Negando a branquitude que me foi imposta desde que me entendo por gente, eu estaria assumindo um compromisso revolucionário de desenterrar a minha própria ancestralidade e a ancestralidade do Brasil. Acontece, porém, que o buraco era muito mais embaixo.

Minhas crises de identidade, minha resistência em me declarar preto mesmo ouvindo que pardo é só cor de papel e a lacradora onda de debates raciais que se abriu na década de 2010 acabaram por comprometer meu compromisso. Se de dia todo gato passou a querer virar pardo, eu resolvi virar para dentro e fiquei na minha: já que raça é uma grande cagação de regra, cagando para a problemática brasileira talvez eu pudesse ser um pouco feliz. E neste ano em que completo 30 anos, 10 anos depois de meu primeiro contato com o movimento negro, fui mexer nas fotos que minha mãe guardou da família e fiquei triste.

Fui mexer nas fotos porque era o aniversário de quatro anos da morte da minha mãe e eu queria postar um poema que fiz para ela no Instagram. Escolhi uma foto dela de permanente, com o cabelo bem volumoso, e bem queimada de sol. Minha mãe estava linda na foto, o poema era bonitinho, o post ganhou várias curtidas (de pena ou não, tanto faz) e eu nem tive vontade de chorar. Mas, entre os álbuns da minha infância e da juventude de minha mãe, apareceram as fotos antigas em preto e branco. Vi a foto do tataravô russo, que eu já conhecia. Vi a foto do meu avô pardo, que eu já conhecia. E vi a foto de minha avó, suas irmãs e uma menina preta retinta com instrumentos musicais nas mãos. Eu já tinha ouvido falar da menina preta retinta, mas nunca pude e nunca quis conhecê-la.

Minha avó, Belkiss, teve duas irmãs, tia Yoracy e tia Norma. E teve uma irmã que morreu com quatro anos de idade, tia Icléia, a única que herdou os olhos azuis do russo. Minha avó sempre lamentou a perda desses olhos azuis e, de vez em quando, falava da filha da empregada que a bisa pegou para criar. Eu não me lembro do nome dela e vou ter que ligar para minha avó e perguntar. É claro que esquecer o nome da menina preta retinta que minha bisa pegou para criar não é o que me dá mais vergonha. Nem o fato de minha avó, com quase noventa anos, não se lembrar de muita coisa depois da morte da minha mãe e, provavelmente, tampouco do nome da menina preta retinta que a bisa pegou para criar. Eu recebi a glória de quase esquecer essa história, de nascer o mais escuro da família e poder performar que sempre estive do lado honrado e sério da história. Mas essa foto apareceu e eu me lembrei que vergonha pouca é bobagem. 

Na foto, minha avó aparece no canto esquerdo, sentada ao piano. Tia Yoracy, de pé, ao fundo, apoia um violino no pescoço e encosta o arco nas cordas. Tia Norma, sentada de pernas cruzadas, segura o violão com a mão direita em posição de dedilhado e a mão esquerda fazendo o acorde dó. As três devem ter entre quinze e vinte anos. No canto direito, sentada, a menina preta retinta segura um bandolim e faz com a mão esquerda um acorde que desconheço, porque nunca segurei um bandolim. Atrás delas, a enorme cristaleira que minha avó tem até hoje. Já ouvi que as fotos antigas, em preto e branco, eram péssimas para retratar pessoas negras, que apareciam com a pele estourada e as feições borradas. Mas nessa foto a menina preta retinta é a mais nítida. Seu rosto tem uma expressão de alerta, acordada, para não estragar a foto. Seus olhos gritam respeito por quem a pegou para criar por dó ou por outro som que não posso ouvir. Já minha avó, a mais clara de todas, está desbotada na foto, quase desaparecendo.

Liguei para minha avó. Moro no Andaraí, a 15 minutos a pé de sua casa em Vila Isabel, mas liguei. Sua voz está quase desaparecendo, seu aparelho apita quando ela encosta o gancho do telefone no ouvido e a casa dela é a única que conheço que ainda tem telefone fixo. Ouço sua voz, que está quase desaparecendo, e escuto coisas se mexendo dentro de mim: minha avó chamando o Skala, meu amigo de infância que morava no morro do Macaco, de “aquele pretinho simpático que parece um mico”; minha avó dizendo para eu não me casar com minha ex-esposa porque “baiana não é pra casar”; minha avó dizendo que a Nonata, empregada que trabalhou na casa dela na época em que aprendi a ler com Sítio do Pica-Pau Amarelo, era “filha da Tia Anastácia”.

Liguei para minha avó, ouvi sua voz quase desaparecendo e ela ainda tem memória. Lembrou o nome da menina preta retinta, Lúcia, a filha da empregada. As duas moravam no quarto de empregada da casa de Vila Isabel e a bisa criou a menina como se fosse sua filha porque era uma pessoa muito boa. Minha avó contou isso e repetiu a frase que eu já tinha ouvido na infância e que tentei esquecer: “Era uma pretinha que adorava roubar”. Era quase da família e, quando foi acusada de roubar alguma coisa que minha avó não lembra o que era, a expulsaram de casa. Aí eu lembrei – não que eu tenha, é claro – que se eu tivesse um primo branquinho que roubasse coisas da cristaleira para trocar por maconha na boca do Jacaré, minha avó não o expulsaria de casa.

Desligo o telefone, olho para Lúcia, a menina preta retinta da foto. Vejo as fotos da minha própria infância, quando eu tinha a pele clara, o cabelo mais liso e o nariz fino. Sou racializado na USP, onde estudei e onde tomei meu primeiro enquadro. Sou racializado em Porto Alegre, numa rua deserta à noite, no Leblon a qualquer hora do dia. Mas em Vila Isabel, na casa da minha avó, não. Nunca conheci a família do meu avô que veio do Maranhão e o que me liga a ele são pedaços de melanina, nariz e calvície. Mas me interessa criar alguma narrativa sobre ele do que olhar para a família da minha avó, para as empregadas que trabalharam na minha casa e que eram quase da família, para a tal da afroconveniência.

Quem quer mexer nos esqueletos do próprio armário? Eu é que não. Mexer naquelas fotos de família, ver a foto de Lúcia, ver a foto de minha avó e ver a mim mesmo no espelho foi me deixando um trapo áspero. Pelo visto, ter síndrome de impostor não me impede de, de fato, ser um impostor. Se eu fugir dessa história, terei para sempre uma cor não branca na superfície e isso me bastará. Porém, se eu fugir dessa história, serei para sempre um homem de pele parda, lisa e íntegra por fora – e um farrapo russo por dentro. Já se eu ficar e encarar essa história de frente, se mexer nos esqueletos do armário e desnudar a hipocrisia na qual cresci, talvez eu não aguente as consequências dessa suposta coragem e me sinta burro por me expor. Talvez eu me descubra alguém cor de burro quando fica.

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