Minha rua tem uma pequena elevação que só percebe quem acaba de correr 10k. De sob o boné, retirei a bandana encharcada e afrouxei a máscara de filtro de carbono. Eu voltava de uma hora apaziguado pelo silêncio das ruas desertas só quebrado pelo ritmo do meu tênis de trilha. Foi então que o flash vermelho me fez prender a respiração. Diante da portaria do condomínio antes do meu, vi a porta traseira de uma ambulância engolir a cabeça coberta de cabelos brancos que eu conhecia bem.
Foi no começo da pandemia. Ainda não havia aulas online. Cansado das telas da TV, computador e celular, passava aqueles dias compridos espiando os apartamentos à vista. Era uma espécie de ronda com horário determinado para cada sessão. Tinha a garota que sentava bem cedo na varanda do edifício em frente, as pernas apoiadas na grade. Em uma cobertura, à direita, uma mulher tomava seu banho matinal diante de uma enorme janela que permitia a quem olhasse na altura do sexto andar uma visão turva da parte superior de seu corpo. Mais tarde, quando o sol batia em cheio no prédio ao lado, eu ficava na ponta dos pés na área de serviço para observar a cabeça e parte das costas de uma senhorinha.
Comecei a acompanhar as rotinas das minhas vizinhas. A garota era uma mistura de pai oriental e mãe loira. Pele lisa, pernas de bailarina. Devia estar no ensino médio como eu e vivia brigando com a mãe, inclusive na sacada, para todo mundo ouvir. A mulher do banheiro fora de padrão, imagino que era enfermeira. A chuveirada no meio da manhã devia fazer parte de sua preparação para assumir o turno da tarde em algum dos três hospitais das redondezas. A senhorinha também tinha seu ritual. De minha posição mais alta, eu a observava em seu apartamento num terceiro andar. O prédio dela era mais antigo que o meu, com a parede externa de tijolos e esquadria cinzentas que delimitavam a enorme abertura horizontal da janela da sala. Eu a via por entre os galhos da árvore acima das casinhas da vila que nos separava. Nunca detectei outra pessoa no apartamento, onde a única atividade aparente era o banho de sol da mulher de cabelos brancos. Quando eu assumia meu posto, ela já estava na posição, a cabeça voltada para o interior escuro do apartamento. Ela jamais olhava para fora.
Apesar de não ver seu corpo inteiro, eu sabia que a senhorinha tomava sol nua. Encerrado o período de fotossíntese, enfiava uma camiseta por cima da cabeça. Assim, ao se levantar (do sofá? de um banco?), já estava composta, o torso à vista, de costas para a abertura da janela. Uma senhora de mais de sessenta consciente da possibilidade de estar sendo observada por algum adolescente espinhento, mas que não se deixava vencer pelas convenções burguesas, as quais combatia desde seus tempos de paz e amor. Eu devaneava um pouco, admito agora.
A ambulância partiu sem acionar a sirene, o que tomei como uma boa notícia. Diminuí o passo ao contornar o pequeno grupo na calçada. O porteiro, um taxista e dois moradores conversavam em voz mais alta do que o normal por causa da distância regulamentar. Ouvi, bem nítidos, os comentários “dona Cidinha”, “parafuso solto”, “coitada!” e “sossega-leão”.
No dia seguinte, saí bem cedo para meu rolê habitual de bicicleta. Não havia nenhuma Maria Aparecida internada no hospital mais próximo. No segundo, a recepcionista informou que o período de visita só começaria em uma hora. Em seguida, fez cara de espanto quando eu disse que era neto. “Mas a paciente só tem doze anos!” Expliquei para a mulher que eu era neto mas da nossa avó, que por sinal estava chegando para vermos a prima Cidinha. Esperei até que a mulher fosse ao banheiro e dei o fora.
“Maria Aparecida Romanini?” Confirmei e recebi um crachá. Sorte que o terceiro hospital era de alto padrão, não tinha restrição de horário para visitantes. Abri a porta do quarto com cuidado, pensando na desculpa que daria a um eventual acompanhante. Não havia ninguém além da paciente. A senhorinha estava deitada de olhos fechados, coberta por um lençol. Sentei no sofá e fiquei observando sua expressão serena, de quem experimenta sonhos agradáveis, os cabelos brancos presos por uma faixa de seda azul, a gola do pijama pontilhada de flores miúdas. Fiquei até a hora do almoço ouvindo dona Cida ressonar alto.
Na manhã seguinte, ao entrar no quarto, dei de cara com uma mulher que eu conhecia do bairro. Ela estava ao pé da cama conversando com dona Cida. Torcendo para que nenhuma das duas me reconhecesse de máscara, falei: “Ah, eu venho fazer a fisioterapia outra hora…” e fechei a porta antes de qualquer reação. Desci pela escada do lado oposto ao balcão da enfermagem. No outro dia, voltei só à tarde.
Quando entrei, dona Cida estava acordada. “Como está a senhora?”, arrisquei. Ela me examinou sem mostrar surpresa. “Está ouvindo?” “Ouvindo o quê, dona Cida?” “O japonês. Ó como canta bonito.” “Não estou ouvindo nada.” “Bonito…” Fechou os olhos. Atrás da cabeceira, em um quadro de avisos, alguém tinha anotado “RISCO DE QUEDA” com tinta azul. E abaixo, com letras vermelhas, “CONFUSÃO MENTAL”. Cheguei mais perto. Seus braços estavam amarrados no suporte da cama com faixas de gaze. Levantei o lençol e descobri que os pés também estavam imobilizados.
Ela parecia cochilar de tempos em tempos, depois abria olhos e me encarava. Em uma dessas vezes, mandou que eu abrisse a porta. “Não está ouvindo?” “Ouvindo quem, dona Cida” O menino! Abre que ele quer entrar!” Uma enfermeira segurando uma bandeja entrou apressada e passou a executar as atividades mecânicas que conferem ao doente o status de cobaia. Mediu a pressão e a temperatura, conferiu a torneirinha do soro, testou a firmeza das ataduras, anotou alguma coisa numa prancheta. Só então pareceu se dar conta da minha presença e deu boa-tarde. Como se fosse a coisa mais natural, a paciente despertou já entrando na conversa: “Esse é o José Carlos”. “O seu neto é muito educado, dona Cida.” “Neto? É o meu marido!” A enfermeira fez uma careta condescendente na minha direção e saiu. Permaneci vendo a senhorinha dormir e acordar até o sol se pôr.
Passei o dia seguinte fazendo um trabalho pra escola. Saí à noite avisando que ia caçar pokémons até bem tarde. No caminho para o hospital, ouvi trovões ao longe.
Recebi o crachá que me identificava como José Carlos de uma recepcionista que assistia à novela no celular. A lanchonete estava fechada e o elevador não tinha fila. No trajeto pelos corredores, cruzei com uma dupla de funcionários da limpeza que arrastava um carrinho e só uma auxiliar de enfermagem – nenhum médico, nenhum segurança.
Esperei sentado no sofá do quarto até dona Cida acordar de um sono agitado. “Zequinha, você veio!”, quase gritou ao me ver, com um sorriso inédito para mim. Cheguei perto dela e levantei sua cabeça com cuidado, liberando os cabelos que se espalharam pelo travesseiro. Desamarrei-lhe as mãos e os pés. Libertada das faixas, dona Cida moveu o corpo com uma agilidade que me surpreendeu. Não fez menção de levantar, como temi a princípio. Em vez disso, postou-se de perfil sobre o lado esquerdo e afastou o lençol com a mão direita. Vestia uma camisola de algodão sem estampas. Me deitei no espaço descoberto, de costas para ela. Seu braço magro se acomodou sobre meu ombro. O zumbido permanente do quarto de hospital, que sempre me deixava num estado de torpor, se misturou ao rumor débil das primeiras gotas de chuva na janela.
Acordei na mesma posição, encarando a luz baça que coava pelo vidro. O braço não estava mais sobre mim. Calcei os tênis e saí em silêncio sem olhar para o corpo na cama. Abaixei a marcha da mountain bike na última subida antes do meu prédio, na altura do antigo ponto de táxi, desativado pela inexistência de clientes. Do basculante da minha área de serviço, vi que não dava mais para enxergar o terceiro andar do prédio vizinho por causa de um galho que se quebrou com a tempestade. Um dia, vasculhando os bolsos à procura de uma máscara, encontrei uma faixa de seda azul.
