Devia ter olhado por cima, seguido até o Café e guardado a cena para um registro escrito. Nada de fotografias. Tinha me prometido diminuir as postagens e, no entanto, apertei o botão da câmera com o mesmo prazer de passar o dedo na cobertura de um bolo e depois lamber. Acho que é por isso, pela sensação de desobediência a mim mesma, que a cena voltava viva como a vi sob a luz da manhã. Parecia um castigo. Voltava feito um fantasma, nem tanto para me lembrar que quebrei a promessa de moderar nos posts e sim, muito mais, pela figura triste da mulher presa na moldura fina e preta atrás do vidro rachado. Saí da rua onde me arrisquei para o melhor ângulo, voltei para a calçada e a foto da foto no quadro me perseguia. No Café, ela nadava na xícara do coado, na caminhada soprava minha nuca. Só em casa tive a coragem de encarar a imagem na tela.
A luz estava ótima. Tão clara que os detalhes todos ficaram nítidos. O quadro com vidro se apoiava num pedaço de compensado revestido por uma lâmina que um dia foi branca, talvez uma porta de um armário de cozinha. A porta estava sobre um garrafão sem água e uma lata de solvente para tintas. Fios, barbantes, um saco vazio de cimento, uma tira de moldura de gesso, restos de tijolos e reboco compunham o drama da imagem jogada.
A mulher chora uma dor que não foi posada. Está num quarto, sentada numa cama de casal com os lençóis e colchas revirados. O seio esquerdo salta pelo decote da camiseta sem mangas que deixa ver um pedaço de tatuagem no ombro, duas manchas pretas que podem ser tribais, mas não dá para dizer. Dá pra ver o sutiã cor de rosa jogado sobre o colchão. Foi arrancado ou ela arrancou. A cômoda preta no canto tem um ursinho escuro, um pote de vidro com uma espada de São Jorge, uma garrafa verde, um pincel grosso de maquiagem e uma embalagem de água oxigenada. A mão direita segura a cabeça, empurra os cachos castanhos e esconde o olho. O esquerdo está livre e mostra as lágrimas que correm para os lábios apertados. Ela soluça e há pouco gritou e grita agora para mim como se eu fosse a responsável não pela foto do quadro, mas pela história que pode ter começado no banheiro, na entrada da sala ou na cozinha da porta engordurada que descansa nos entulhos. A mulher se abre.
Teria morrido mais cedo se soubesse da minha dor exposta para o mundo, o país, o estado, a cidade, o bairro, a rua. Vou ficar bem visível até o caminhão recolher a caçamba e me jogar num terreno ilegal de descartes ou num lixão cadastrado. Nunca soube o destino dos entulhos, nem previa o meu quando me casei. Não era pra eu ter passado na frente do prédio. Que reforma é essa? Válter ganhou dinheiro e vai morrer no apartamento depois desta conquista. Deve ser isso. Conseguiu ganhar dinheiro. Morri no meu. Três meses depois da última prestação. A mulher exposta na caçamba não existe mais e a foto não mostra os tapas, as unhadas e os socos que vieram depois. Os roxos nos braços e nas canelas apareceram no dia seguinte. Ele podia ter feito uma outra . Eu de calça, blusa de manga longa e a echarpe no pescoço, escondendo as marcas. Ele preservou meus olhos. Teve um pouco de bom senso. Isso dá pra ver na foto. Não se vê a sua sombra, nem o gozo. O Válter gozava com meu choro
Ele é um merda! Teve o descaramento de buscar a câmera. Não. Nem precisou, ele andava pela casa com ela presa ao seu pescoço. Tão fácil de esganar com a tira larga de gorgurão. Não tive esta ideia. Que pena. A gente precisa se afastar para entender melhor. E como foi difícil implorar para me deixar ir. Ficar longe e pensar no que nunca deveria ter feito. Hoje me veio esta ideia de esganar com a tira da câmera. Uma ideia muito sofisticada. Bem melhor que as dele. O merda me fotografou e eu nem percebi. Por que não percebi e por que não tive a ideia da esganadura? Impossível pensar naquela hora. O meu coração acelerado, os dentes rangendo, a cara lanhada e os olhos inchados. Mal o via. Mal vi meu peito saindo da blusa alargada pelo puxão. O sutiã que ele arrancou. Não vi a câmera.
O fotógrafo sensível me registrou no drama, na dor de constatar a sua ou a minha estupidez, a sua de todo dia e a minha por morar com ele, pagar as contas, cuidar da sua filha e dos seus delírios de gênio dos projetos incríveis. Devo ter pago até esta foto, a revelação e a moldura. Os pregos de aço e o martelo já estavam na conta. A furadeira estava nos planos para pendurar uma rede. O Zito, o zelador tinha uma pra emprestar. A gente ia pendurar uma rede. Válter era bom de furos. Me feriu com a ponta do canivete suíço, o chaveiro, que ele pendurava no cós das calças, igual à câmera no pescoço. Um canivete é mais higiênico que a faca da cozinha. A média de cabo preto servia para o salaminho que ele espetava e levava à boca mastigando de olhos fechados entre os goles da cerveja. É isso. Depois que mandou fazer a moldura e me pendurou na sala, devia comer salaminho gozando com meu sofrimento e devia meter a mão direto nas fatias, sem a faca, para engordurar os dedos e depois se lambuzar.
Apertei os meus olhos na imagem e meus dedos abriram a tela. Ampliada, a mulher talvez me contasse mais. Ela se calou. A rachadura no vidro fazia um corte profundo e sem sangue no seu braço direito. Senti a dor, fechei a ferida e apaguei a foto. Quando voltei à caçamba, uma montanha de tijolos vermelhos escondia e abafava a mulher com moldura e os entulhos da manhã.
