por Américo Paim
Me deu vontade de ver fotos antigas, de gente nascida na primeira metade do Século XX, depois de uma amiga me mostrar umas da mãe dela quando jovem. Ela devia ter a idade de minha mãe. Me impressionei. Com ela, que, então moça, tinha seus encantos, e com a preservação das fotos e sobre todo mundo parecer tão bem. Um photoshop das antigas, sei lá. Todos perfeitinhos, captados impecáveis pelas lentes. Algumas me pareceram bem artificiais, como pintura ou resultado de uma pose que durasse dias. Pouca sensação de movimento, de vida real, enfim. Porém, imagens, de qualidade. Tudo em preto e branco, é claro.
Futuquei, então, os álbuns da minha família, em um baú de madeira, escuro e não tão grande. Estava sozinho, sem ajuda para detalhes sobre as fotografias. Reconheci umas caras por se parecerem com as pessoas que depois estive frente a frente e fui ajudado porque se costumava escrever no verso da foto os nomes de quem aparecia, em que lugar, a data e até mesmo o motivo da foto. Hábito bom, encerrado pela era digital. Entre as conhecidas, minha avó materna, linda demais! Eu já a achava bonita bem idosa, talvez coisa de amor de neto, só que as fotos confirmaram. Meu avô… se deu foi muito bem, isso sim. Era um tipo mais comum, fisionomia sempre séria. O amor tem seus caminhos. Meus pais ainda crianças, lá pelos anos 1940! Também foi engraçado ver gente que só conheci de cabelo branco ou já sem cabelo, ali no papel em seus anos de plena juventude. Todos bonitos e intactos, mas o tempo é senhor.
Já perto de fechar o álbum, me apareceu a que me deixou muito curioso. Um homem sisudo e forte, sem olhar direto para a câmera, em uma pose meio militar, ou quase como um segurança, não relaxado, com bigode e lábios finos, cabelo curto e talvez com uns cinquenta anos. Ao seu lado, olhando de frente, uma mulher muito mais jovem, quem sabe a caminho dos trinta, com o que Alceu Valença talvez confirmasse ser um “olhar gateado”, sorriso franco, demostrando estar bem mais à vontade naquele momento, a mão direita atrás do corpo dele e a esquerda relaxada, blusa de botões com gola larga e saia longa, plissada. O relógio pequeno no antebraço combinando com anel e brinco bem discretos. A foto devia ser dos anos 1960, a julgar pelas roupas, mas poderia ser um pouco mais antiga. Como há um prédio alto ao fundo, fiquei com dúvida se estavam em Salvador ou Santo Amaro, onde viviam.
Ele, Francisco, apelidado Chiquito, era tio de minha mãe, irmão de meu avô. Ela, Maria Alice, sua segunda esposa, que era apenas três anos mais velha que minha mãe. Minhas lembranças sobre eles são do meu tempo de criança, lá pelos anos 1970. Algo me chamou a atenção: como mainha tinha uma tia tão jovem?
Poderia ter sido em uma quermesse, missa, ou em sala de espera de algum consultório médico. Acontece que eles se encontraram em uma festa, que não foi qualquer. Um show de Luiz Gonzaga, o próprio! Na praça defronte à igreja do Rosário, em Santo Amaro da Purificação. Era o final dos anos 1950 e o famoso artista começava um processo de queda de popularidade por causa da Bossa Nova e, na sequência, da Jovem Guarda. Só voltaria a ficar em alta nos anos 1970. Porém, naquela noite, para as duas pessoas da fotografia, esse contexto não fez a menor diferença. Como no sobrenome de Lua, foi um nascimento: a primeira vez que se aproximaram. Ela, com 24 anos. Ele, com 24 a mais.
A curiosidade sobre o retrato, como se dizia no passado, veio porque, na minha memória, aquele homem sempre tinha outra expressão. A de alegria, da risada ruidosa, da voz alta e grossa, que para os moleques, era contagiante. Para nós, ele era Tio Chiquito. Em Santo Amaro, a casa de meus avós ficava na Rua Direita, nº 60, já pertinho da Praça da Purificação. Chiquito e Alice moravam no Rosário, atrás da igreja, bem na direção oposta de onde ficávamos. Será que escolheram ali para ficar perto do local em que se conheceram? Seria romântico, mas eu não faço ideia. Enfim, com tal distância, meus pais não deixavam que eu e meu irmão mais novo, muito pequenos ainda, fôssemos sozinhos à casa dos tios. E por que esse interesse todo? Porque Tio Chiquito tinha um armazém, diante do Rio Subaé, muito perto de sua casa. E nos levava para lá, onde passávamos horas às vezes, até pai ou mãe aparecerem para encerrar a farra. Sim, era muito bom. Acompanhar o movimento de carros e caminhões descarregando mercadorias, subir na carroceria, um momento mágico, sentar-se no alto das pilhas de sacos de farinha, correr para o depósito, experimentar comidas e cheiros e o ponto alto do dia: receber balas e chocolates, que ficavam no nosso objeto preferido: o baleiro sobre o balcão. Tio Chiquito nos presenteava, falava algo engraçado e passava as mãos grossas e calejadas sobre nossas cabeças. Eu e meu irmão prontos a toda hora para repetir essa programação. Então, o rosto sério e impassível da foto me parecia deslocado, irreal. Aí, formulei minha própria teoria.
Antes de tia Alice, ele foi casado uma vez. Com uma mulher que ficou famosa por seu trabalho de pesquisa da história da cidade: Zilda Paim, que morreu há dez anos, foi educadora, folclorista, pintora, sendo autodidata em todas essas áreas. Ele não teve muita instrução, e claro que menos que ela. Conhecendo o perfil de meu avô e dos irmãos deles, teve criação bem conservadora sobre os papeis de marido e mulher em um casamento naquela época. É provável que Zilda fosse um espírito por demais livre para Chiquito e as coisas desandaram. É apenas uma teoria. Nenhum deles está por aqui para confirmar isso. Quando aconteceu o tal encontro no show de Gonzagão, ele já estava separado. Caiu de amor por tia Alice, por sua juventude, beleza e elegância. Ela, ao contrário dele, está na foto como sempre foi para mim. Um sorriso constante e acolhedor, olhos vivos e atentos, modos delicados e uma postura elegante que nunca se perdeu, inclusive na oportunidade mais recente que nos vimos, ela já beirando os 80 anos e impressionante com sua presença magnética. Não é difícil entender como Chiquito se sentiu naquela noite de forró.
A união foi complicada no início. Tia Alice, uma mulher discreta, além de religiosa, realizou a relação com um homem separado e bem mais velho, algo que a sociedade não tolerava como hoje. Quem a suportou foi a mãe! Havia espíritos livres também naquela família. Aquelas mulheres não eram tão submissas ao casamento clássico ou às regras de conduta vigentes. Tanto assim que apesar de Chiquito ser controlador, tradicional, ciumento, anos depois, já casados no cartório depois que o divórcio dele estava consolidado, concordou em tia Alice abrir uma butique, que ficava no andar térreo da casa em que moravam. Apesar de nunca ter cursado a faculdade, ela era mulher empreendedora, que gostava de beleza, vivia arrumada, como se falava. Comprava os itens para sua loja em São Paulo e Minas Gerais, mas só viajava se acompanhada de outra mulher, para que o coração inquieto de Chiquito ficasse sossegado.
Na foto há um prédio alto atrás, imponente como ele. Há um jardim, diverso e delicado como ela. As peças se ajeitaram no tabuleiro, elas se juntaram. Como os vincos daquela saia plissada ou as dobras do fole da sanfona de Luiz Gonzaga.

