
Aeroporto, táxi e Viação Progresso, deu tudo errado. Comprou no Latam das 9h, que sai de Guarulhos. Três horinhas até Recife, uma horinha de táxi até a rodoviária, três horinhas até Garanhuns. Morgana, meio atrasada, digitou aeroporto e apertou no primeiro que apareceu no aplicativo. No cansaço da véspera maldormida, cochilou a testa vincada e os olhos fundos até Congonhas. Tomou Congonhas por Guarulhos e ainda se indignou com o QR code do celular que não abria a portinha do embarque por nada.
O plano era chegar em Garanhuns às 16h, 17h no máximo, pra pegar o chá da tarde. Ela veio com o vestido de ontem, que a essa altura já parecia um vestido de papel crepom. Pálida, e amassada do cabelo até a meia, exato como não podia estar no dia seguinte. Pro dia seguinte, trouxe só uma muda de roupa, blazer e macacão de alfaiataria, o sapato era pra ser o mesmo e, de acessório, o anel de formatura de pedra verde. Pelo preço da diária, achou que pijama, escova de dente, xampu, sabonete, hidratante e até desodorante a esperariam no quarto do hotel. Nada feito. A nécessaire de maquiagem, que nem teve tempo de abrir antes de pegar no sono, esqueceu logo no primeiro táxi. E talvez, só talvez, a caixinha com o anel também estivesse lá dentro. Morgana encostou o cartão na porta da suíte do Tavares Correia impregnada de ódio e ainda por cima, passava da uma da manhã.
Às 7h, ela fala no ConefNutri 2023. Açúcar – a peste branca do nosso tempo. Foi a publicação do doutorado de Morgana que garantiu o convite para a palestra de abertura. O serviço de quarto fecha às 22h. Devia ter dado os quase R$1000 no pão de queijo do aeroporto. Foi fechar a porta pra começar a ouvir o falatório. Tentou a recepção sem nem ler o cartãozinho do lado do telefone, é nove em tudo que é canto. Não atenderam. Pegou o papelzinho e afastou do olho pra conseguir enxergar o disque zero mais o número do apartamento. O dela era o dois. Zero um. Também não atenderam. Zero três. Do outro lado, um alô abafado por uma coleção de vozes. Desculpe senhora, claro, pode deixar e todas essas coisa. Telefone no gancho, dedo no interruptor, cabeça no travesseiro e lembrou que o café só começa a ser servido às 8h. Vai chegar no primeiro congresso de educação física e nutrição de Garanhuns, desnutrida.
Quando eu era pequena, a gente chamava o Tavares Correia de Tavares escorrego. É que tinha uma pracinha com casa na árvore, balanço e escorregador, que em Pernambuco é escorrego. Nunca fiquei hospedada lá, a gente morava a poucas quadras, mas fui almoçar, tomar chocolate quente e descer no escorrego mil vezes. Tinha cara de mofado desde aquele tempo. Painho me disse que agora tá lindo, renovadinho, retrofit, ele enche a boca. Mas painho gosta de qualquer coisa. Toma café Pilão, 4 colheres de sopa pra um litro de água, quatro de sobremesa de açúcar para uma xícara, e diz, também de boca cheia, que não tem nada melhor do que um brazilian coffee. A favor dele, a média do Booking é 8.6, sob a classificação de fabuloso.
Alberto e Camille de Brasília tão aqui dizendo que “o chá da tarde é de tirar o fôlego, tem de um tudo, inclusive piano ao vivo”, minha nossa senhora. Selma do Paraná disse que “não tem o que falar, o hotel é o mais antigo e o mais incrível de Garanhuns”. Acho tão engraçado não ter o que falar ser um elogio. A diária do único quarto disponível pra hoje é R$2500 e eu tenho muito o que falar sobre essa diária. Morgana me ligou pra saber se valia e eu repeti a história do escorrego.
– Faz mais de vinte anos que eu não vou em Garanhuns, Morgue.
– Teu pai não ficou lá no Festival de Inverno do ano passado?
– Deixa eu ligar pra ele, pera.
Foi aí que ele encheu a boca pra falar do retrofit, me agarrou por mais de vinte minutos no telefone, chegou a passar um brazilian coffee pra acompanhar a conversa, que tal? Editei a resposta pra um áudio de 17 segundos e ela reservou. Até porque a segunda melhor nota do Booking é a do Ibis e tem uma foto da academia que a esteira parece uma pessoa pedindo socorro.

Lá pelas vinte pras duas, o faladeiro recomeçou e agora tinha música. Zero três, tenho hora amanhã, vão pro inferno, vou chamar a polícia e essas coisas. A gente já é fichado, tem problema não, e riam de tossir. A asma de Morgana pela tampa. Telefone no gancho, dedo no interruptor, cabeça no travesseiro e lembrou que tinha esquecido o Aerolin. Vai chegar na primeira palestra da carreira de professora, no primeiro congresso de educação física e nutrição de Garanhuns, sem físico e sem educação.
Selma do Paraná sabe o que fala. O hotel é mesmo o mais antigo de Garanhuns. A inauguração é de 1927. Painho me disse e eu chequei no doutorado de Bruno Correia, que se brincar é o herdeiro. Pra Morgana tanto faz, coitada. Ligou um monte de vezes na segunda volta do relógio, a testa já mais vincada que o vestido; na terceira, o olho mais fundo do que o buracão de Garanhuns; na quarta, quase sem fôlego pra continuar a reclamação, pedindo pelo amor de deus pelo Aerolin. Na quinta acabou a esperança de fazer parar, ligava só pra a festa ficar chata mesmo. Teve vou mandar matar, teve de um tudo. Tenho nem o que dizer. Mas não teve choro nem vela. Ninguém calou. Isso até às 6h, quando o nove finalmente atendeu.
– Tá me tirando de louca agora?
– A senhora me desculpe, mas é como estou lhe dizendo. Hoje é segunda, o hotel tá quase vazio. E depois, os quartos um e três ficam fechados em respeito a nossa história.
– Ah, vá! Respeito a quê? E vocês lá sabem o que é respeito? Que história?
– A história do sanatório.
Pois sim, Morgana não precisava nem perguntar se tivesse olhado a página 55 do PDF da tese de Bruno. Tá lá, no primeiro parágrafo, antes de ser hotel, o escorrego era um sanatório. Não precisava, mas perguntou. Perguntou e seguiu a entrevista no grito.
– E era o quê esse quarto um?
– Era o arquivo, com as fichas dos pacientes. Seguem todas lá, sob sigilo ainda.
– Aham, e o dois?
– O que a senhora está, não é? Esse é o melhor quarto do hotel. O repouso dos médicos.
– Olha! – ela numa mini amansadinha de voz – O três era o quê?
