por Américo Paim
Fim de tarde no Bar do Cabeça Quente. Uma mesa grande com oito amigos. Lodinho, assim chamado por seu pouco apreço pelas rotinas de higiene, já tinha tomado algumas. Seu cabelo lambido e meio seboso e a barba por fazer. A cara gordinha e salpicada de manchas não ajudava. Usava anéis nas duas mãos e camisa de botão aberta no peito. Junto a ele, seu primo Gongo, que não bebia. Estava visitando Pedra Velha. Morava na capital. Forte, com aspecto tosco, mas de fala equilibrada e bom trato. Sujeito por demais curioso. Não gostava do apelido, coisa do futebol, por ele ser preto e “cheio de perna”. Do outro lado de Lodinho estava seu fiel escudeiro, Feriado. Seco e mole, quase um desossado. Ria com frequência, aparecendo os dentes alternados, daí a alcunha. Tinha olho pocado e um tique de ficar dando peteleco em qualquer coisa. Eles contavam histórias da cidade ao visitante, que havia chegado há apenas três dias.
– Tem a pedra do asteroide. Diz que a cidade nasceu dali.
– Mesmo?
– Ah, não é nada demais.
– Quéisso, Lodinho. Ali já teve foi treta.
– Isso me interessa – falou Gongo.
– A pedra engole coisa viva!
– Para, Feriado! Ele vai pensar que aqui é tudo culhudeiro.
– Mas é verdade, véi. E o Quibungo, mermão, tu vai negá?
– O que é isso?
– Bicho comedor de gente, Gongo, monstro feio da porra.
– Você viu?
– Oxe, lógico que não. Eu ia tá aqui pra contar a história?
– E isso tudo é na Serra?
– Sim, sim!
– O povo daqui tem imaginação, num sabe? – disse Lodinho.
– Contem mais.
– A melhor é a do celular do demônio!
– Feriado, tu tá variando? Larga de história, véi.
– Deixa ele falar, primo.
– Ói, Gongo, ele fica leso assim quando bebe.
– Perdeu a noção, papá?
– Foi mermo assim outro dia. Pegou uma lindeza troncha, aqui no Cabeça.
– É o quê?
– Vou te quebrar, seu moleque!
– Se beijaro e se lambero tudo, pra quem quisesse ver.
– Olhe, conte mais…
– Ficou com ressaca feito dengue!
– Entendi não.
– Dói é o corpo todo, do remorso até os cabelo do…
– Pera, pera! Parou. Tá louco? – gritou Lodinho.
– Feriado, me fale do tal celular – retomou Gongo.
– Tu nem vai creditá! É só pra cabra corajoso.
– Não tenho medo de nada. Já cacei muito pelo interior brabo aí. E sozinho.
– Óia… É mermo? Repare que é história velha.
– Bora, rapaz, conta aí.
Feriado pediu outra cerveja e narrou. O povo falava de um homem misterioso que passou por Pedra Velha. Para variar, vinha não se sabe de onde, mas que era feio feito a fome, magro e descabelado, tinha umas roupas surradas, um monte de cicatriz e uma pochete sofrida. Como chegou de madrugada, só encontrou um grupo de três rapazes em uma praça. Pediu a eles água e comida, mas eles só debocharam do homem e tentaram lhe roubar. Meteram a mão na pochete e só encontraram um celular estranho, sem marca. Um deles tomou um choque grande ao tocar no aparelho. Devolveram. O homem gargalhou e eles não gostaram. Bateram nele, o colocaram no fundo do carro e levaram para a estrada, na beira da Serra. No outro dia, arrependidos, voltaram ao local e ele não estava lá. Seguiram seus rastros pela mata adentro. Só um deles voltou para contar a história e morreu semanas depois, sem falar coisa com coisa. Só repetia entre soluços e engasgos, “Não li… não li…”. Gongo quis saber mais.
– Parece história pra boi dormir.
– É verdade verdadeira – falou Feriado.
– Gongo, a palavra tem poder aqui – disse Lodinho.
– Eu quero saber é do celular.
– Queira não, é problema.
– Dizem que quem achar fica rico. Que ele é mágico – falou um dos caras à mesa.
– Porra niúma! Aquela merda é enfeitiçada – disse outro.
– E o homem? Nunca acharam?
– O celular engoliu o pobre! – gritou um outro.
– Quanta bobagem.
– Pense assim não…
– Pois eu vou entrar na Serra é amanhã.
– Eu fosse tu, ia não – disse uma velha senhora, no fundo do bar.
Todos se viraram. Sua voz chegava seca como a morte. Ela usava um vestido cinza escuro, óculos escuros, uma bengala toda entalhada e tinha a pele bem enrugada. Era conhecida como Véia Toda. Pouco se sabia dela. Diziam que acertava o futuro lendo a sobrancelha das pessoas, mas não ganhava a vida com isso. O grupo foi ao seu encontro e ela falou claro: o celular era um mistério maldoso, um feitiço destrambelhado. Quem foi até ele, nunca voltou. Quem falava muito dele atraía a ruindade. Se alguém achou, ninguém sabe, ninguém viu. Aconselhou mudarem o rumo da prosa. Perguntaram quem seria o tal forasteiro do celular e onde ele tinha ido parar. Ela disse que via futuro e não passado e alertou: isso é conversa pra defunto.
Ignorando conselhos e pedidos, Gongo e os dois foram à Serra no dia seguinte. Saíram de Pedra Velha ainda com o sol frio e ele entrou sozinho no mato, como fazia caçando. Os outros o observaram até sumir no verde guloso. Esperariam notícias dele pelo celular, que ele levou todo carregado.
– Lodinho, você me ouve?
– Sim, home. Já tem uma meia hora. Cadê tu?
– Tudo certo. A trilha é fácil e não aconteceu nada, é claro.
– Oxe, ainda tá cedo não?
– Tem horário é?
– Eu fosse tu, já dava o pira daí mermo.
– Vocês são medrosos. Só vi planta e bicho.
– Cuidado com o Quibungo…
– Rará… Se eu achar um desses aqui, eu mudo de nome.
Mais trinta minutos e o sinal já ficou fraco. Encostou em uma pedra, bebeu água. Checou pela centésima vez o revólver. Pensou ter escutado um ruído, fraco e indefinido. Andou uns cem metros e se viu em uma vegetação diferente, de marrom e cinza predominantes. A brisa que aliviava do calor já estabelecido mudou para um vento frio, inadequado. Não se sentia na pele. Varria por dentro. Se incomodou. Veio uma sombra sobre ele. Sacou a arma e olhou para trás. Nada. Olhou para cima, atrás de nuvens. Nenhuma. A escuridão avançava, lenta, silenciosa. Sons de folhas, bichos, insetos, pararam. O frio cortava persistente. Ele não tinha como se proteger. Seus pelos eriçados em braços e pernas lhe mostravam que algo estava errado, mas não admitia o medo. Voltou a parar. Ouviu com atenção. Nada. Só o tal som fraco, num crescente, devagar. Pensou ter ouvido seu nome, galhos estalando, asas batendo. Nada era real. Sua mente lhe enganava. A calmaria cúmplice pesava seus pés, que hesitavam em caminhar. O brilho da manhã cessando, embora mal passasse das nove horas. A sombra aumentava. O frio e o medo lhe drenavam. Respirou fundo, ponderou ser uma alucinação. Havia um resto de sinal de celular. Sem querer entregar o medo ou ter que explicar o que acontecia, não ligou para os amigos. Torceu para que tudo voltasse ao normal, que fosse só um fenômeno meteorológico desconhecido. Parou outra vez. As sensações não diminuíam. Só serviu para ele escutar pela primeira vez. O som não deixou dúvidas. Qualquer criança reconheceria. Um toque de celular.
Como um reflexo, ou pelo instinto do caçador, destravou pernas e pés e andou, atento ao som que o guiava e que parecia vir de um só lugar. Ao perceber que aquilo se movia e rápido, o medo voltou. Na sua cabeça não era possível aquela velocidade na mão de uma pessoa. Talvez não fosse humano. Lembrou da Véia Toda, pronto a aceitar as histórias que ouviu. A situação estava inexplicável. O toque não parava. Aquilo não era normal. Andou mais cinco minutos, buscando. Escuridão agora quase como noite. Ninguém acreditaria. Não se perdoou por não estar com uma lanterna. Não queria gastar bateria do seu telefone. Conferiu o sinal. Ia ligar para Lodinho e algo lhe travou. O som do telefone havia parado. O silêncio agora era mortal. O frio piorava. Se sentia fraco, impotente. E o medo. Real. Um clarão captou sua atenção, metros à frente. Encheu-se de coragem e foi até lá, com a lanterna do seu aparelho. Era um descampado, como um cocuruto de um quase careca. Só cabiam ele e o objeto que emitia a luz. Estava diante do celular misterioso, um modelo que nunca viu, sem marca identificável. Luzia o tempo todo. Na tela uma mensagem. Curta e direta: “122 – não ligue”.
Excitado, esquecido do medo, Gongo se aproximou. O seu telefone ainda tinha bateria e sinal suficientes, só que nada funcionava, todo travado. Não conseguia mandar mensagem, tirar foto, filmar, nada. Diante daquilo, decidiu voltar e contar a história. Marcaria o caminho e posaria de grande descobridor. Ia sair e teve a ideia. Aquilo era um celular, afinal. Ligaria dele para os amigos. Pegou o aparelho e de imediato lhe apareceu um teclado. Tentou digitar o número de Lodinho, mas as teclas não obedeciam. Outro número e nada. E a mensagem lá “122 – não ligue”. Não resistindo à tentação, curioso que só, impulsionado como se algo o obrigasse, digitou o número.
Gongo nunca foi encontrado. Polícia, bombeiros, voluntários, ninguém conseguiu. Nada de pegadas, restos de roupas, resíduos. Nada. Meses depois do ocorrido, em um dia qualquer, Lodinho, Feriado e os amigos bebiam no Cabeça Quente quando um menino entrou correndo, gritando que tinha visto o celular na Serra.
– Menino, não se brinca com isso.
– Eu vi, moço, eu vi.
– Onde foi?
– Num sei, tava tudo escuro!
– Mas são duas da tarde, mentiroso.
– Eu juro, eu juro!
– Quem tava com ele?
– Ninguém não, senhor.
– Como era o celular?
– Era diferente, ficava aceso o tempo todo.
– Como assim?
– Tinha um troço escrito.
– Tu sabe ler?
– Eu sei, sim.
– Então fala, miséra. Tava escrito o quê?
– “123 – não ligue”.
