O descarte

Na minha família as pessoas sabiam o que sabiam, e só contavam o que queriam contar, do modo como podiam contar.”
Felipe Charbel

Dizem que a gente só consegue entender nossos pais quando chegamos à idade adulta. Bom, eu já passei muito disso e continuo sem atinar com algumas atitudes deles. Seu Rui tinha 51 e dona Lita 48 na foto que tirei na cozinha da velha casa onde morávamos em janeiro de 83. Parecem concentrados, minha mãe comprando do maço observada pelo meu pai, sentado à direita dela. Jogavam uma partida de buraco que, pela quantidade de cartas baixadas, já ia pela metade. Naquela mão, os parceiros estavam trocados, ela com o tio Tércio, ele com a tia Elvira.

Na imagem, o cenário típico de classe média-baixa inclui azulejos decorados, panelas no fogão, bule de alumínio com filtro, forma de gelo, uma garrafa de cachaça e outra de Campari, plantas mirradas no peitoril do basculante. Sobre o cobertor que protege a mesa de fórmica, copos, um cinzeiro e maços de cigarro que contribuíram ativamente para a aquisição e desenvolvimento das variadas doenças respiratórias que levaram os quatro para o túmulo dez anos mais cedo.

Meu pai e o tio Tércio eram primos distantes na linhagem familiar, mas foram criados fisicamente próximos. Aliás, na pequena comunidade da Freguesia do Ó em meados do século passado, quase todos eram parentes. Os Siqueira, Alves, Oliveira, Moraes que moravam no Largo da Matriz Nova, na Rua Coronel Tristão, Rua da Bica, Ladeira Velha. A camaradagem quando crianças deu lugar na juventude à convivência diária no CMTC 67, que demorava uma hora e meia para descarregar os dois no Largo do Paiçandu. Dali meu pai andava até a loja em que trabalhava como vendedor, e o tio até a repartição onde assinava o ponto.

O tempo me permite observar a fotografia com distanciamento. Resisto à tentação de fantasiar que a troca de casais na mesa de jogo tenha de alguma forma resvalado para outros cômodos da casa. Seria uma solução fácil para esta narrativa; nada como a sugestão de sexo para manter a atenção do leitor em alta rotação. A bem da sinceridade, devo admitir que se havia algo de sexual nesse relacionamento, isso estava dentro da cabeça de um personagem externo ao quarteto: eu mesmo.

Tia Elvira era do interior de São Paulo, e eu percebia o leve sotaque que ela conservara como um charme a mais em sua figura: alta, sorriso marcado por um diastema, sempre perfumada, a pele fresca e os traços delicados que certa corpulência não conseguia esconder. Eu a achava parecida com a cantora Maísa. Os mesmos olhos verdes, a mesma elegância, as mesmas coxas. A ela devo minha primeira visão da origem do mundo. Sentada à mesma mesa da foto, ela se curvou para apanhar uma caixa de fósforos no momento exato em que eu subia do quintal. O ângulo a partir do último lance da escada sugou meu olhar para um túnel de carne que convergia para a calcinha cor de creme.

Minha fixação pela tia Elvira não era a única, por óbvio, mas se revelou uma das mais seguras. Pelo menos, por não ser tia de verdade, aliviava minha cota de aves-marias que o padre confessor ordenava para compensar meus “maus pensamentos”. Ela e o marido vinham à nossa casa pelo menos uma vez por semana, quase sempre para jogar baralho. De vez em quando, íamos visitá-los na Pompeia, no amplo sobrado equipado com os equipamentos domésticos que só víamos nas séries de TV, como televisor embutido, banquetas de bar, batedeira de bolo e, o que mais me impressionava, um sistema de caixas de som que transmitia a programação da Rádio Eldorado para a casa toda. O carro do tio Tércio também chamava a atenção da meninada: um Chevrolet Impala amarelo-ovo em cuja janela traseira se acendiam os olhos de uma onça de pelúcia.

A diferença social parecia não prejudicar a convivência dos casais. Além das sessões de jogatina, costumavam passar os feriados prolongados na casa de praia dos Siqueira em Suarão ou na fazenda do cunhado da tia Elvira em Ribeirão Bonito. Meu pai, que passou a dirigir só depois dos 40, ia de copiloto, abastecendo o motorista de cigarros e cerveja. No banco de trás, as comadres fofocavam e contavam as façanhas dos filhos, que nessas ocasiões ficavam com os respectivos avós.

Até que, um dia, o pai anunciou que ia ensinar meu irmão e eu a jogar baralho. Passamos então, quase todas as noites de quarta-feira e tardes de domingo, a ocupar os lugares antes reservados aos nossos tios postiços. Quando perguntei à minha mãe o que havia acontecido, ela ergueu os olhos para o céu, sua característica mais marcante e, enxugando as mãos no avental, encerrou o assunto.

“Isso lá é cisma do seu pai”.

Não liguei muito para o caso. Nas minhas vigílias, as coxas da tia Elvira já tinham sido superadas pelos peitinhos nascentes das primas da mesma idade, estas sim parentes de sangue, que exigiam cotas extras de orações. Pelo menos até o momento em que reuni coragem suficiente para anunciar que não frequentaria mais a igreja.

Hoje me convenci que o rompimento só poderia ter partido do meu pai. Talvez tenha sido a primeira manifestação da fobia social que o levaria à velhice de quase ermitão, em que só relaxava quando junto seus cachorros e passarinhos. Imagino o ressentimento que lhe causava a figura do primo bem estabelecido na carreira pública, onde chegou a chefe da Mordomia do Palácio dos Bandeirantes. Tércio Siqueira era um homem grande, redondo por dentro e por fora, que domava os cachos com fartas doses de brilhantina e cultivava um bigodinho fino e reto, devidamente aparado na base do nariz. Fumava cigarros Carlton de caixinha com piteira de marfim e carregava no bolso da calça um estojinho de couro contendo escova de cabelo, pente e cortador de unha. Usava corrente e pulseira douradas e, em dias de sol, não dispensava o Ray-Ban de aviador. No velho bairro, era o centro de lendas que envolviam amantes indiscretas e filhos bastardinhos.

Não poderia haver contraste maior entre primos criados juntos. Todos têm certeza de que meu pai não teve namoradas nem antes nem depois de conhecer minha mãe. Foi um aluno nada brilhante e um funcionário medíocre. Basta dizer que se tornou um vendedor que não gostava de gente – sei isso agora. Não bastasse a longa carreira medindo cinturas e colarinhos a contragosto nas Lojas Garbo, resolveu no fim da carreira “fazer acordo” para investir a indenização em uma loja própria. E de automóveis, assunto de que nada entendia. Não era exatamente a fórmula do sucesso profissional.

Minha mãe, que com certeza não aprovava a ruptura das relações, nunca teve força para contrariar meu pai e sua cisma. Tenho convicção de que tanto ela como tia Elvira eram mais inteligentes e bem preparadas para lidar com os desafios da vida que seus maridos, mas que fazer se eles eram os provedores? E não é verdade que os homens se obrigavam a prover para que elas não se dedicassem a alguma atividade fora de casa? E que de fato uma foi proibida de manter um salão de cabelo, e a outra de continuar a carreira de secretária?

Hoje, distante no tempo e espaço, rumino a hipótese de que num relacionamento assimétrico, é a parte mais talentosa que sai perdendo. As mulheres resignadas a dar um passo atrás para destacar seus homens pagaram o preço por esse ato de renúncia. Em nome da família, com o tempo foram perdendo a força vital que espalhavam naturalmente à sua volta. Perderam a iniciativa, a sagacidade e a beleza. E, ah!, como eram belas.

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