O telefone tocou novamente – fui atender e não era o meu amor. Não era ninguém que eu conhecia e não era pra mim. Mas era pra alguém que eu conhecia. Comprei a linha que tenho hoje quando comprei meu primeiro celular; tinha quinze anos e fui contratado como office boy num escritório de advocacia na Presidente Vargas. Mudei de aparelho muitas vezes, mudei de chip muitas vezes, mudei de trabalho e de cidade, mas a linha é a mesma. E desde os quinze anos, quando atendi a primeira ligação pensando se tratar de alguém do escritório de advocacia na Presidente Vargas onde eu trabalhava como office boy, recebo ligações de cobrança para um tal de Carlos Valdemar.
O telefone tocou, não era a Sara dizendo, eu te perdoo, Manoel, meu amor. Ela ainda está muito zangada comigo, que pena, coisa e tal. Também não era o Piva dizendo, Manoel, meu querido, me arrependo muito do que fiz contigo, falei com o Schwarcz e a Companhia vai te publicar, me perdoa, coisa e tal. Que pena – pra mim, claro, pro Schwarcz tanto faz. Também não era a mãe Márcia dizendo, Manoel, meu filho, meu pai Oxóssi te abençoe, eu te perdoo, os orixás também, coisa e tal. Não sei se é uma pena e, pros orixás, isso nem faz nem deixa de fazer. Mas não era nenhuma dessas pessoas: era uma menina do telemarketing das Casas Bahia.
“Entendi, senhor. Essa linha não é dele. Mas o senhor conhece algum Carlos Valdemar?”, a menina do telemarketing perguntou.
Não, mas conheço o som do nome dele como a palma do meu tímpano. Já me peguei muitas vezes pegando todas as sílabas na ponta da língua, car-los-val-de-mar, pensando que tinha jeito de nome de político que é pego com dinheiro na cueca, jeito de nome de cantor de brega tocando um tecladinho peguento e pegado, jeito de nome de quem faz calote pra pegar mané. Ligação do setor de cobrança da Leader Magazine, da Magazine Luiza, do Banco Safra, da Casa e Construção. E eu sempre respondia, “não, nunca ouvi falar nesse sujeito, meu nome é Manoel”. Mas naquele momento, talvez por estar criando o personagem da minha vida, resolvi largar mão da sinceridade do que sou e pegar na mão da sinceridade do que eu queria ser.
“Conheço, claro, desde menino”, eu disse.
A menina do telemarketing segurou a respiração e ouvi um estalo abafado, como se ela estivesse tentando bater uma palma em silêncio.
“O motivo da minha ligação é referente a um débito de mil reais no nosso cartão fidelidade. O senhor poderia estar passando o contato dele pra regularizarmos a situação?”.
“Que estranho, Carlinhos é tão correto, deve ter acontecido alguma coisa”, eu disse. “Mas moça, essa dívida é de quê?”.
Ela não podia dizer, regras da empresa, confidencialidade, coisa e tal. Mas falar comigo foi o mais perto que alguém do setor de cobrança das Casas Bahia chegou de falar com ele. Então ela contou: mil reais em lâmpada led. Eu pedi desculpas em nome do meu amigo querido, me comprometi pessoalmente a ajudá-lo a pagar a dívida nem que tivesse que pagar do meu bolso, tal e coisa. A menina me agradeceu pensando na sua bonificação no fim do mês, desliguei e bloqueei o número.
Carlos Valdemar, o caloteiro iluminado, pensei. Daria um bom título de livro. Mentira, daria o título de um livro de merda e uma adaptação pra cinema pior ainda. Mas era engraçado, eu descobrir que ele gastou mil reais em lâmpada de led justo no momento que eu estava terminando de escrever o Na Berma do Breu. O caloteiro iluminado seria um título ruim, mas o do meu livro por acabar era bom demais, sem nenhuma falsa modéstia, porque ghost writers não precisam disso. Na verdade, eu quase sempre começo uma história pelo título. Alguém disse que escritor de verdade só pensa no título depois de terminar o texto, acho que foi o Hemingway, sei lá. Pode ser, mas eles está morto e eu estou vivo. Nunca me senti mais vivo, pra ser exato, do que agora, criando um escritor que não existe. Fico à vontade pra tocar o foda-se em todas as paranoias que eu tive antes com às oponiões dos autores clássicos, dos cânones, dos canions que me separam deles. E isso tem me dado um tesão inédito na vida, na escrita, e algo me toca bem dentro de mim e me diz que eu estou escrevendo o próximo clássico da literatura brasileira. Atraso minha preocupação com meu coração e com meu ori, atraso mais uma refeição, fumo mais dez cigarros e toco o romance em frente.
E aí o telefone toca novamente. Apareceu na tela o número 3333-3333, sem ddd.
“Alô”.
“Que história é essa de você usar meu nome?”, perguntou uma voz de homem bem baixa e cheia de chiado.
“Quem é?”, eu disse.
“Você sabe muito bem”, a voz disse e suspirou e o chiado chiou mais forte.
Desliguei assustado e o cigarro caiu da minha mão, a brasa furou o sofá e se eu demoro mais um pouco ia ter uma fogueira em casa. O Na Berma do Breu tem uma passagem em que um homem é encontrado pelos assassinos que o perseguem por conta do cigarro aceso no meio da escuridão e acaba morto. Eu tinha acabado de escrever essa passagem, quando os assassinos veem a brasa no breu e dão o primeiro tiro. E chegava mais perto de acabar, bem perto.Assim que matasse o homem, acabava. Faltavam só duas páginas e eu ia passar o resto do dia com fumaça no peito e nada na barriga até desmaiar se fosse preciso, mas ia terminar o livro naquele momento.
Mas o telefone tocou novamente. Apareceu na tela o número 2222-2222
“Você está usando o meu nome, cara”, a voz disse e afinou, menos em ameaça e mais em mágoa.
“Eu não sei seu nome, porra”, eu disse
“Claro que sabe, você tá usando ele”, a voz engrossou e disse.
Eu ia acender mais um cigarro, risquei a pedra do isqueiro e alguma coisa fez um clique.
“Carlos Valdemar”, eu disse.
“O próprio” a voz disse sem orgulho ou vergonha.
“Mas eu disse pra mulher que ia dar um jeito de te fazer pagar”, eu disse. “Eu até te ajudei a enrolar os caras, pô”.
“Ajudou nada”, a voz me cortou. “Estou falando é do seu livrinho”.
Desliguei a ligação. Apaguei o cigarro, tirei o modem de internet da tomada e fiquei olhando pra tela do computador. Era vírus, era stalker, era encosto. Olhei pra imagem do Seu Tranca-Ruas em cima da minha prateleira de livros, o copo ao lado da imagem estava vazio. Minha boca estava seca, só um resto de gosma de saliva, achei que ia sufocar, fiquei tonto e caí deitado no sofá. Fechei os olhos e vi uma luz no meio do escuro, vi a capa de um sol nascente vermelho e preto, a capa do livro que eu ainda não tinha terminado de escrever. Então abri os olhos, me levantei com tonteira, peguei o copo ao lado da imagem, comi um pedaço de pão na cozinha, enchi o copo com água e o coloquei ao lado dos pés do Seu Tranca-Ruas. O telefone tocou novamente e apareceu na tela o número 1111-1111.
“É o seguinte, meu camarada”, eu disse, com as mãos tremendo. “Puxa a tua cadeia na moral e me deixa em paz”.
“Onde eu tô preso, não posso mandar ninguém ir te pegar”, a voz disse. “Mas vai dar ruim pra você de qualquer jeito, se usar meu nome. Estou avisando pela última vez”.
Olhei para a imagem do Seu Tranca-Ruas e prometi a mim mesmo comprar uma vela e acender assim que terminasse o livro. Olhei fundo nos olhos da imagem e minha mão parou de tremer.
“Tá de sacanagem? Tu usou meu nome por quinze anos, botou uma porrada de dívida no meu número”, eu disse. “E nem tô usando teu nome todo, só o sobrenome”.
“Carregar minhas dívidas é mole, é só desligar. Eu é que não quero o carrego de ter meu nome no teu livro, nem um pedacinho”, a voz disse e um chiado de chuva seca entrou pelo meu ouvido.
“Agora que eu vou botar mesmo, porra”, eu disse. Troquei o celular de lado e enfiei o dedo no ouvido encharcado de chiado de chuva seca.
“Vai ter carrego, e não vai ser pouco. É a última vez que aviso”, a voz disse e o chiado estancou.
“Vai se foder pra lá, Carlos Valdemar”, eu disse e desliguei.
Terminei de matar o personagem, escrevi as duas últimas páginas, terminei o livro. Fui para a primeira página e li, em voz alta, pra mim, pra imagem do Seu Tranca-Ruas e pra quem mais quisesse ouvir: “Na Berma do Breu, por Valdemar Matutino”. Passei um mês revisando e desrevisando o texto. Pesquisei vários números de editoras e passei mais um mês criando coragem pra ligar. Outros dois meses depois, sem receber notícias nem de Sara, nem da mãe Márcia, nem dos alunos particulares que me deviam dinheiro, o telefone tocou pela primeira vez. Não era o meu amor, não era minha mãe de santo, não era nenhuma editora. Era o setor de cobrança das Casas Bahia.
“Moça, pelo amor de deus, eu não aguento mais receber ligação de vocês. Eu não sou o Carlos Valdemar”, eu disse e ouvi a mulher do outro lado prender a respiração”.
“Senhor, eu sei, senhor”, a mulher disse com voz miúda. “Eu falei com o senhor há uns meses atrás, o senhor me disse que ele era seu amigo, lembra?”.
Merda, não adianta bloquear número de setor de cobrança, eles têm quinhentas linhas. Garoteei. E fiquei arrependido de gritar com a mulher, que na verdade era uma garota e tinha voz quase de choro.“Olha, moça, eu falei, juro que falei. Se ele não pagou, não posso fazer nada”, eu disse.
“Ué, não foi o senhor que pagou? Eu liguei pra agradecer. E também pra pedir desculpas por incomodar num momento tão difícil. Meus sentimentos, viu?”.
Carlos Valdemar pagou, isso era mais estranho que o resto da conversa, mais estranho que uma atendente ligar pra agradecer ou pedir desculpas.
“Que sentimento, moça?”.
“Senhor, nosso jurídico recebeu recentemente a certidão de óbito dele. É de um dia antes da última ligação que fiz pro senhor”.
