Retrato seis por seis

O cliente que gastasse acima de 300 reais na L. Lorran – cama, mesa e banho – levava de presente um porta-retratos em forma de cubo. Ganhei o meu depois de comprar um jogo de lençóis e dois travesseiros. A peça, em aço escovado e acrílico, era artigo de venda, mas virou brinde depois do declínio das fotos em papel. Na nova casa, o adorno vazio se juntou às canecas com frases, aos copos de requeijão, às velas, às lâmpadas e a uns mini craques da Copa de 2002. Tudo numa sacola de chita.

 No dia da mudança, o amontoado de coisas seguiu direto para a área de serviço e ficou lá por uns três meses. Não tinha fotos que servissem no tamanho seis por seis. Preencher a meia dúzia de lados do cubo, exigia retratos quadrados como os do Instagram ou as clássicas da Polaroid. As polaroides, na medida exata, eu tinha, mas o papel espesso não cabia no encaixe.

Dois meses depois da morte de meu pai, meus irmãos e eu tentamos fazer uma partilha de fotos. Os Zocchios, como quase todas as famílias de classe média formadas nos anos 1950, tinham em casa álbuns com capa dura e páginas de papel rígido protegidas por folhas de seda. Nestes álbuns, as fotografias eram presas por cantoneiras e tratadas como objetos raros. O cuidado foi mudando quando fotografar ficou mais fácil e as imagens ganharam cores. Em casa, as fotos foram se acumulando soltas nas caixas de sapato, depois nas de camisa até serem despejadas na embalagem do cobertor Parahyba de casal, a maior de todas as caixas.

Sobre a cama também de casal, onde se usava o cobertor Parahyba, começamos o trabalho de recordar , bem mais complicado que o de escolher.  Misturados aos Zocchios, achamos personagens estranhos surgidos do costume de oferecer fotos como lembrança de batizados, primeira comunhão e casamentos. Maria Inês lia as dedicatórias escritas na diagonal , reconhecia e nos contava quem eram algumas das pessoas. Comportamento esperado de uma irmã mais velha. Na mesma caixa, meus pais guardavam também os santinhos de falecidos. Sem dedicatória por motivos óbvios contavam com um retrato de frente do finado , as datas de nascimento e morte. João Alberto disse que aquelas pessoas todas davam quase uma quadra de cemitério. Comentário esperado de um irmão com humor sarcástico.

Separar e recordar era serviço para além de uma tarde . Com o tempo curto, cada irmão levou para casa um punhado de fotos sem critério, quase como nos sorteios de envelopes nos antigos programas de TV . Nem as menos soltas, de tamanho 9×12, dos álbuns plásticos das lojas de cine foto e som, ofereciam algum método de escolha. Apesar da pressa, observei a grande quantidade de fotos seis por seis , que caberiam no cubo porta-retratos e avancei mais sobre elas. Eram feitas com a Rolleiflex que entrou para a família em 1957 e é câmera cantada na “Desafinado” pelo João Gilberto.

  Neste ano, em janeiro, nasceu meu irmão e em maio meu pai embarcou, como funcionário da General Motors para um curso de sete meses nos Estados Unidos. Eram os anos do estabelecimento das fábricas de automóveis no Brasil e o Seu Álvaro, um profissional de nível técnico foi aprender como prevenir acidentes de trabalho. No país da GM, ele comprou a câmera e registrou o que pode. Daqui, o tio fotógrafo também registrava retratos de minha mãe , minha irmã e o crescimento do bebê. Fotos de lá, fotos de cá, mil novecentos e cinquenta e sete foi o ano das fotografias. Nasci mais tarde, quando a febre de imagens tinha arrefecido, e sou por isso, a filha menos fotografada.

                Dos álbuns e fotos que levei comigo, passei horas escolhendo meia dúzia para o porta-retratos.  Examinei todas as da Rolleiflex, revirei minha história em preto e branco e, para caber, quase recortei as coloridas de um tempo mais recente. Demorei até me decidir pelas que gostava e fariam algum sentido em cada lado do cubo. Separei três da família completa, uma com a Maria Inês e outra com o João Alberto . Por fim, me decidi pela que, mais tarde, ao girar o cubo como uma espécie de dado , por um lance do acaso, insistentemente me deparava:  os três irmãos juntos no Jardim Botânico de São Paulo.

                Estamos posicionados no caminho que antecede o lugar chamado Escadaria do Jardim Lineu, cujo nome homenageia o criador da taxinomia, a área das ciências biológicas responsável por identificar, nomear e classificar os seres vivos. O cientista devia ser pessoa sistemática, com fotos pessoais arquivadas por datas e identificação no verso . Pelo método de Carl Lineu, somos os Zocchios, espécie humana branca da ordem italiana imigrante, pertencente à classe média paulistana do gênero vulgar.

Os degraus da escadaria são ladeados por dois pilares corpulentos que fazem as vezes de um portal. Meu pai e minha mãe, de alguma forma, estão presentes. Impossível olhar a imagem e deixar de pensar nos dois olhando para os filho na posição de quem admira, enquadra e aperta o botão. Ele de camisa, calças largas e a câmera no pescoço. Minha mãe de vestido tubinho e os óculos de sol com aros brancos.  

   Na cena de um domingo está uma criança que saiu ao acaso no canto inferior direito : uma menina usando um vestido de alças sobreposto a uma blusa de mangas fofas, uns três anos mais nova que eu. Ela está no colo de uma pessoa de quem só vejo o braço, que pode ser do pai, da mãe ou de um parente.  A foto, que por conta do acaso, insiste em ficar virada pra mim se tornou a favorita do cubo. Ela estava num dos álbuns de capa dura que eu folheava com outro olhar quando criança.

A menina me causava inquietação porque era desconhecida e toda criança próxima, mesmo que na fotografia, tinha que ter um vínculo comigo. Na infância, gostava de visitar a imagem e a intrusa ficou tão familiar que quase a batizei como fazia com as bonecas.  Meu pai, que enquadrou mal a foto, chegou a comentar o erro, não gostou do resultado e teria feito outra nestes tempos das fotos digitais. É engraçado pensar que minha mãe nunca arriscou um clique. Leitora dos suplementos femininos, conhecia as donas de casa exemplares, mas desconhecia as fotógrafas . A foto, se feita por Dona Odila, ia valorizar o vestido reto da Maria Inês, as bermudas com a camisa do João Alberto e minha saia de pregas. Todas as roupas criadas e costuradas por ela.

                Suspeito que Seu Álvaro errou o enquadramento porque estava tentando me fazer olhar para a câmera. Suspeito também que às vezes, eu mesma não gostava de sair em fotos ou filmes como ficou registrado num almoço de Natal. Lembro do Tio Vainer, o fotógrafo e cinegrafista, das fotos de 1957, gastando cinco minutos de filme atrás do olhar que eu escondia com a cabeça baixa e o cabelo no rosto.  Cinco minutos é o meu cálculo superdimensionado. Talvez tenha levado os trinta segundos clássicos das propagandas. O incômodo de ser filmada era tanto que só consigo pensar a cena num tempo desmedido e infinito.

 No momento da foto nas escadarias, eu olhava para trás, para o escuro entre os pilares.  Não era uma fuga como no filme de Natal. Entre meus pais e irmãos não sentia o desconforto das reuniões com toda a família.  Vai ver foi um bicho, o vento, uma sombra ou um grito do menino à esquerda descendo as escadas, menino que só hoje reparei. É uma criança mais velha que a outra intrusa do canto inferior da foto. Penso até num espectro que se revelou com o tempo. Não é para ele que olho. Talvez para a materialização do seu grito no outro lado onde nada aparece.

    Aos cinco anos, só a menina do canto da foto me incomodava ou só a escadinha de irmãos me divertia. O olhar para trás era natural, nem me dava conta da postura errada para um retrato. A menina olhando para os degraus era eu mesma convivendo bem com os interesses dispersos e a falta de atenção.  A escada era só escada e o escuro, uma sombra do fim de tarde. Minha irmã, dezesseis anos, olha para a frente, meu irmão de nove também. Ambos miram a câmera ou os nossos pais e não sabem que esta foto está comigo. Se olharem de novo, talvez, como eu, repararem no escuro da escada e sintam a ausência concreta do Seu Álvaro e Dona Odila. Estamos num porta-retratos de brinde que é um cubo ou um dado com os lances de sorte. A escada é outra. O escuro mora no que já descemos e no que ainda nos falta subir.  

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