Cachorro catroca

por Américo Paim

Estacionei defronte à igreja. Ao contrário de muitos ex-colegas, nenhuma vontade de entrar ali. A lembrança mais recente, missa de sétimo dia de um amigo tão querido que partiu por vontade própria, não era agradável. O local continuava belo, mas com a imponência e certa ostentação tão caras aos templos católicos. Eu preferia a capelinha interna, no lado oposto ao corredor das salas de aula do meu último ano, mais de quarenta anos atrás. Nem sempre aberta fora dos horários de celebrações, era aconchegante, mais convidativa a rezar, conversar, tramar algo ou mesmo se esconder para filar aula. Até dava para uns amassos secretos, se você não acreditasse que poderia arder para sempre no fogo do inferno.

Antes de chegar à entrada principal, contemplei minha velha escola, o Colégio Antônio Vieira. Ainda impressionava, como da primeira vez. Eu vindo de uma escola pequena de bairro. Ansioso e com medo, achei ser como uma prisão, de onde eu jamais sairia. Segui. O grande portão metálico lateral, sobrevivente dos meus tempos, usado para entrada de suprimentos, estava aberto. Vi que o campinho agora era um estacionamento. Fim dos tempos. Colégio de padres cometendo sacrilégios! Logo ali onde fiz um dos meus gols mais bonitos? Os amigos falaram a semana toda e ela estava lá. Seu cabelo preto de princesa, preso em um rabo de cavalo, cinto fininho separando a calça jeans da camisa branca de gola azul do uniforme da escola, os olhos claros. E ela me beijou! Um selinho, não uma colada, admito, mas ninguém viu. Por que me lembrei de Luiza agora? Sei lá quanto tempo quando a vi pela última vez.

A portaria de entrada era a mesma, acho que a largura e altura preservados, só que não era mais cinza claro. As frestas verticais, por onde implorávamos que abrissem se chegávamos depois da hora, do contrário os pais receberiam notificação, foram mantidas também.  

Vinte anos sem vir? Acho que mais. Você se separa da mulher e acha que a contagem de anos reinicia, sei lá. Entrei. Ainda senti pertencimento. Passei pelo amplo corredor, os quadros de avisos, a entrada para a Diretoria à direita, o pequeno jardim com a fonte à esquerda. Ali jogamos o vice-diretor no último dia de aula do nosso ano final na escola. Ele, lerdo, entendeu como brincadeira. Pouco antes de descer os três degraus e rumar para o telheiro, vi um elevador! Padres e Irmãos cansaram da escadaria até seus aposentos, todos nos três pisos acima do nível onde eu estava, com acesso vetado para estudantes lá pelos anos 1970 e 1980. Tudo se falava sobre o que acontecia por lá. Lembrei do caso de um colega que foi à zona proibida, a convite, e voltou com histórias e umas revistas suecas.

Cheguei ao telheiro, à esquerda. Maurício ainda não estava lá. Fui a um dos velhos bancos de cimento, revestidos de cerâmica estilosa que não creio ser da minha época. Atrás de mim o campão, dos grandes jogos dos campeonatos internos e intercolegiais. Reduzido, para caberem mais carros! O tempo me atropelando impiedoso. O telheiro, área grande coberta sem paredes, pé direito alto, também mudou. Era ali que, diante de nós, sobre um pequeno praticável de madeira, o professor Jair, supervisor, baixinho, de bigode grosso, óculos com lentes idem e voz poderosa, organizava a bagunça dos alunos. Nos ordenava perfilarmos em ordem alfabética, por turma, para ouvir o hino nacional. Sempre cedo, às segundas-feiras, estendendo o braço ao comando “cobrir”. Mini soldadinhos da ditadura, doutrinados nas aulas de EMC e OSPB. Só os professores de História nos salvavam. Éramos poucos conscientes daquilo tudo nos primeiros anos. Depois melhorou. Os que tinham pais mais engajados, liam jornais da tímida oposição, assistiam aos poucos shows e peças onde rolasse uma panfletagem, tinham os pés mais no chão. 

  

Daquele antigo ponto de encontro obrigatório de todos os alunos, local do lanche do recreio, de paqueras, resenhas e porradas, pouco restou. Ali conheci amores, livros e discos. Agora havia mesas com bancos solidários. Antes era mais livre. Não acontecem mais as gincanas e os festivais de música, eventos em que rolava muito do proibido, biritas e uns cigarrinhos diferentes, quando cantávamos músicas de protesto diante de jurados sonolentos. Foi nesse lugar, em um festival, que rolou nosso primeiro beijo pra valer. Depois que eu desci do palco, por iniciativa dela. O violão pendurado entre nós. Luiza sempre foi especial. Após tanto tempo, ainda não entendo por que não deu certo.

Maurício queria fazer um show musical com a turma da época, uma festa flashback. Como seguia atrasado, fui direto para o antigo auditório, descendo a longa escadaria de cimento, ainda descoberta, estreita e sem corrimões.

Foi nostálgico entrar ali. Cadeiras novas, mas o espaço parecia menor e o piso era diferente. Não dava para pichar com pincel atômico como o antigo, de pedra cheia de retângulos desenhados, que revestia inclusive o palco, que agora tinha um tablado de madeira que dava gosto pisar. Deu vontade de voltar a tocar ali. Como seria a turma de hoje? É certo que não ouviríamos palavras de ordem contra a ditadura, como acontecia antes, em especial nos ensaios, quando nós compositores mostrávamos músicas que nunca sobreviveriam à censura velada dos padres ao escolherem as classificadas para os festivais. A pequena coxia agora tinha até camarim, com espelho iluminado. O velho piano não estava mais lá. Me vi sentado, com quatro ou cinco acordes, mostrando uma nova canção a Luiza, uma de amor que nem desconfiou ter sido para ela. Minha timidez não ajudou.

Maurício chegou. Não envelheceu. Rugas pouco evidentes, manteve a cabeleira, os olhos curiosos, a voz firme de tenor e a agitação das mãos ao falar, exagerando. O frontman da nossa banda parecia a minutos de entrar no palco, como nos bons dias. Disse que eu estava ótimo, sempre sarcástico: minha careca mal se notava, a barriga “excesso de fofura” e que eu continuava com meu “olhar pidão”. Falou sem parar sobre o show, decoração, homenagens, grupo de WhatsApp dos ex-alunos, roupas, convite – um flyer ao som de “Cachorro catroca”, nosso maior sucesso à época. Fingi animação, topei os ensaios, pulei fora da comissão organizadora. Meu horário chegou e deixei ele lá, repetindo tudo para o novo supervisor.

Subi a penosa escadaria. A mureta na qual os degraus altos encerravam e seguia por todo o caminho desde a entrada ao telheiro, ainda era a mesma. Era aparente para quem caminhava, mas a parte de trás era escondida com plantas, agora umas de cor vermelha. Sentei-me no pequeno muro a uns três metros do topo da escada e mexi nas plantas movido por uma tolice. Ainda estaria lá? O local devia ser aquele. Me senti idiota, aquilo devia ter sido pintado várias vezes, apesar de a parte protegida pelas plantas ficar sempre meia boca. Tateei, sujei a mão e encontrei, em baixo relevo, um coração tosco no reboco, com desgastadas letras P e L. A tinta branca vinha reta contornava o escavado e seguia. Algum pintor romântico o preservou. Achei ser um sinal de que ela iria ao show. Saí dali cantarolando “Cachorro catroca”.

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