
You´ve got to learn to leave the table
when love´s no longer being served
Charles Aznavour
Passo bem. É que em Recife, a manga rosa custa R$3,50 o quilo e eu estava em Recife. São Paulo nem pra ter manga rosa. Se tem, quase sempre, tá faltando. O mais perto que você vai conseguir chegar de uma manga rosa pernambucana aqui é comendo a palmer. Todo dia, eu como manga palmer na degustação do Mambo da Angélica, meu Recifinho paulistano. Ele descasca pra mim, corta e ainda põe pra gelar. Quando eu volto do nordeste, há anos é assim, desenlaço da vida sudestina. Passo uma semana achando tudo feio e frio, menos o Mambo da Angélica, e aí me agarro a qualquer calor, a qualquer gosto, qualquer nome próprio livre de artigo que me leve de volta pra casa. Depois passa, sigo amando São Paulo pra sempre e pronto.
Foi uma semana de hot yoga e manga palmer de manhã e de noite pra garantir calor e gosto. Sábado fui na primeira prática do dia, às 7h30, sem nem lembrar porque acordei tão cedo. Na volta, passei no Mambo da Angélica.

Só Paulo, que não é de Recife, mas é de Petrolina, que deixa as rosas pra gente e manda as palmers pra cá, entendeu como bateram em mim o potinho cheio de vento e de palitos usados. Paulo, parceiro desde 2016, com a testa brilhosa e a camisa amassada de calor de Pernambuco, murcharia esse sorriso se não estivesse preso em um cartaz. Eu também murchei, e também brilhava, mas não tão legitimamente quanto ele, eu brilhava suada de aquecedor, pagando pra respirar profundo e pingar artificial no inverno. Fiquei até com vergonha.
A manga palmer do Mambo custa R$6,99 na promoção, R$8,95 na vida real, porque Paulo, não é São Paulo, e o Mambo também tá longe de ser santo. Quase nove Reais alegando transporte. Como se a manga precisasse de tarifa gold, pra despachar mala e mudar horário de voo sem custos adicionais. Que plantem aqui, não compro. Como melão. Mas só se for de graça, até porque não gosto. É que melão também me lembra Recife e eu como apesar de não gostar. Talvez nem de Recife eu goste.

Semana que vem meu pai faz 75 anos. Vai comemorar no interior, do ladinho de Recife e me convidou pra ir junto. Me convidou pela primeira vez para uma viagem com a família nova. Meu pai e a família nova, parceiros desde 2016. Meu pai que me servia pedacinhos de melão gelado. Meu pai sempre com a camisa impecável, independente da temperatura. Meu pai que passou batido os meus 45 esse ano.
Eu disse que ia, ainda que a Latam e a Gol sejam malvadas que nem o Mambo. Eu disse que ia porque sei que só tem de verdade o que não tá faltando. Foi uma semana de Decolar.com de manhã e de noite pra garantir calor e gosto. Comprei na madrugada da sexta, mesmo sem promoção – custou uns 200kg de manga palmer – e mandei o PDF da passagem com um coração pulsante. Ele respondeu no sábado, bem cedo. “Venha mais não, querida. Fica pra próxima. Vamos pra Porto, só os daqui. Pousada charmosinha e pequena, cabe pouca gente. Reze pra Santa Clara que o tempo achou de ficar feio”. Feio e frio como a tarifa light que não dá direito a reembolso.
Hoje eu fui no Oba da Angélica, tinha degustação de kiwi gold e lichia. Pronto. Te amo, São Paulo. Pra sempre.
