Por Susy Freitas
Com as chaves do carro em mãos, Renata caminha para o estacionamento. Seu Corolla Cross chama menos atenção pela sujeira, amenizada pela suave luz da lua, que pelos extensivos arranhões da lateral e para-choque arrebentado. Segundo um estudo do Departamento de Transporte do Reino Unido, há 92% de probabilidade de uma pessoa ir a óbito em um choque frontal a 96 km/h. Ela desafiou as estatísticas, mas a esperança é a última que morre.
Nenhum lugar seria tão bom para isso como a Avenida do Futuro. Antes de abrir a porta, Renata se agacha frente ao espelho do retrovisor rachado em mil pedacinhos que, sabe-se lá como, permanecem unidos. Tira da bolsa o batom vinho, cintilante, com ácido hialurônico e micro partículas de brilho, e passa na boca pela últimpensar é para idiotas. Você pode substituir altas expectativas por um limão inteiro espremido no copo, para tomar em jejum pela manhã. Utilize um canudo para proteger os dentes. Venha até nós.
Renata quase deixa a xícara cair do braço do sofá ao terminar de ler a última frase. As palavras giram em sua cabeça como se alguém misturasse uma colherzinha de açúcar dentro dela, e o tilintar da louça sobre o pires ressoa um alarme de imobilidade. Pequenino. Agudo: venha até nós. Alheio à frequência de um coração aceleradíssimo.
O rosto de Renata, jogado para a esquerda, encara a janela. Na janela, do lado de fora, um par de araras gigantescas rói a tubulação do split em desuso. Elas trazem certa escuridão à sala. São assustadoras em seu espelhamento, e intercalam a destruição da estrutura com o esfregar dos bicos uma da outra. Um beijo cinematográfico que nunca se concretiza.
A questão é: aquilo não era para estar ali. Porque não foi Renata que escreveu aquilo. Não tudo. Porque ninguém mais poderia. Porque no horário assinalado como última modificação no histórico do Google Docs, ela sequer estava acordada, então como poderia ter escrito?
É por isso que Renata não se move. Porque largar o celular é demarcar a ruptura das anotações para seu romance, ainda desgrenhado de fio condutor. Ainda uma sede, uma lágrima dentro do corpo que não atingiu o olho. Como a realidade. Venha até nós.
A questão, de fato, é: tanto faz Renata não se mover. Porque a tela rola sozinha, alheia aos dedos. Porque toda a extensão do arquivo de texto cabe dentro de seus olhos. Porque eles sobem e desaparecem nos limites das pálpebras.
Um salto de fé? Uma ejeção rumo à realidade? A realidade, ela se enche de luz quando as araras desistem de despejar o vermelho de suas asas e os sussurros ruminantes de sua conversa sobre a janela. Elas voam para longe, viram pontinhos dissolvidos no sol fumegante de meio-dia.
Renata escova os dentes. Toma banho. Escolhe a saia vermelha de couro sintético antes de prender os cabelos da mesma cor. Pega o ônibus. Mal pode esperar para o toque do tecido na pele suada irritar suas coxas e quadris. A sensação da epiderme rasgando-se da derme, de algo de dentro finalmente para fora, algo que só do calor pode nascer.
Renata sobe as escadas. Abre um só botão da blusa de seda. Prepara-se para o olhar furtivo da professora de Tópicos Especiais em Arte e Pós-modernidade. Suas coxas tatuadas, estrategicamente jogadas para o lado, de forma que o notebook na carteira da faculdade não atrapalhasse a vista. Qualquer coisa que espante o tédio das aulas. O batom vinho, cintilante, com ácido hialurônico e micro partículas de brilho, transforma os lábios em uma festa.
A professora se aproxima. Renata sorve a faísca daquele momento. Espera que ela a nutra, que force o calor da sala para fora de seu corpo e para longe do ar-condicionado inútil que jaz na parede. Espera que seu olhar passe a língua pelas flores em seus quadris. Pelas teias de aranha dos joelhos. Que lambuze a carta da Estrela nas cores originais do tarô de Marselha na panturrilha esquerda. Que passe a língua dos cílios na sola de seus oxfords pretos.
Mas o olhar passa direto. Duro. Esfarela a cola que fixa Renata na realidade. Irritada, ela gira o tronco na carteira. Abre uma nova aba no navegador. Com o arquivo do romance à vista, apaga os últimos dois parágrafos e começa uma nova versão. A força que Renata imprime ao digitar é tanta que a sala inteira ouve as teclas a ponto de se despedaçarem.
“Entre todos os métodos de suicídio examinados, as armas de fogo foram as mais letais, com mais de 75% dos atos suicidas resultando em morte. Os métodos menos letais foram cortantes, com menos de 5% dos atos suicidas sendo fatais”. Renata grifa a escrita incorreta do et all ao final da citação com uma mão e bate as cinzas do cigarro mentolado no cinzeiro com a outra.
Do alto do décimo segundo andar, a ponte sobre o Rio Negro cria tiras de luzes coloridas na água que parecem perto demais. O cenário é tentador, mas sua decisão é definitiva: ao final da defesa do mestrado, após Renata apontar as considerações finais após cruzar os dados sobre métodos de suicídio e perfil sócio-econômico de manauaras no período de 2020 a 2022, ela retirará seu revólver Taurus 410 do coldre e dará fim à própria vidO olho diz ao coração, mas antes de dizer a ele, o tino estala. É difícil para eles justamente por isso: porque perderam o tino. Mas por apenas R$13,00, você pode abrir as portas da percepção e acompanhar todas as nossas atualizações! Venha até nómmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
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Renata levanta a cabeça. Os cílios pesados embaçam a visão ainda sonolenta. Está na biblioteca, sentada em uma das mesas perto da janela. Fios de sol traçam diagonais nos corredores de livros do outro lado do vão. A delicadeza da luz a confunde, que horas são? 17h20, diz o relógio na tela de proteção do celular.
Ela observa o carimbo disforme de seu batom sobre o braço. Os poros transformados em uma constelação de microbrilhos. Destrava o celular e vai direto acessar o romance no Google Docs. Não tem certeza do que realmente escreveu, se é que escreveu algo. Como esperado, o trecho começa como imaginara, e o final lhe era desconhecido até então.
Tudo de novo. O scroll, o texto surgindo da pálpebra inferior e desaparecendo sob a pálpebra superior. Nada de mais. Ao terminar a leitura, Renata sente um incômodo. Larga o celular na mão. Está sendo observada. Olha ao redor e não vê nada além de duas osgas idênticas que a encaram de forma inquisitiva.
A dupla tem uma pele morena sem viço, e manchas que lembram cicatrizes em cortes irregulares. Encaram-na em tamanha imobilidade que Renata consegue ver rajas cor de mel em seus olhos. Ficam assim paradas, as três, num pacto de silêncio involuntário. Passados minutos, com a luz do sol rapidamente se dissolvendo no horizonte, o som estridente das osgas interrompe o transe. É um som gigantesco. Agudo. Apesar de lembrar o estalo de um beijo amoroso lançado no ar, é repugnante.
Renata pisca e as osgas desaparecem. Uma delas deixou o rabo na mesa. Ela tira uma foto, ativa o Google Lens no celular. Busca no padrão de cores alguma pista sobre a identidade dos animais, se é que eram reais. A busca resulta em nada, até que ela simplesmente digita “beijinho de osga” no Google e clica no primeiro resultado:
Outra característica curiosa que a lagartixa da espécie Lepidodactylus lugubris apresenta é a forma de reprodução. Segundo Igor Kaefer, doutor em ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), elas não precisam de machos para procriar, a espécie gera “clones” dela mesma. “Os indivíduos são todos fêmeas e se reproduzem por partenogênese. Ou seja, as fêmeas não precisam de machos para reproduzir, gerando filhotes clones idênticos. Manaus pode estar vivendo uma ‘invasão’ dos clones de lagartixas”, destaca Kaefer.
Venha até nós. Só existe uma coisa a fazer.
E Renata levanta. Recolhe suas coisas na mochila e corre para alcançar o 125 já quase zarpando da parada de ônibus. Posiciona-se na direção do ar-condicionado, que exala um bafo quente, acumulado do dia inteiro. Ela apenas fecha os olhos e lança um largo sorriso borrado de vermelho.
Desce no T1. Atravessa para a Silva Ramos. É sua rua favorita porque tudo parece morto. O Hotel Mônaco em frangalhos. Os pixos arremessando feitiços nas paredes. As placas de aluga-se entre as grades enferrujadas das casas. Os guardiões da noite, Olhinho e Índio, grafitados num casarão prestes a desmoronar. Garagem – não estacione – dia e noite – sujeito a guincho. E o carro estacionado na frente. E no fim do arco-íris, o pote de ouro: Renata chega ao Basquiat.
Ela sabe o que fazer. Sabe onde se sentar. Elas a aguardam ali, em uma das entradas, debaixo da colagem que diz Deus ajuda quem cedo obedece. Casa cheia, Nine Inch Nails tocando na caixa de som, e elas acenam, apontando a cadeira vaga. Renata se senta de frente para as duas Tukano. Seus brincos de pena vermelha, os vestidos de Courtney Love, os braços cobertos de linhas que lembram cortes, os olhos meio vesgos, cor de mel, molhados como a garrafa de Antártica. Em tudo idênticas, exceto o cabelo: em uma, ele chega até a cintura; na outra, até a mandíbula.
Os homens nos olham. O conjunto chama a atenção. Quando uma delas bota um cigarro na boca, de pronto um braço surge com um isqueiro acesso para servi-la. Ela sequer olha nos olhos do rapazinho com camiseta do Slipknot, limitando-se a um gesto de quem diz “xô” quando o cigarro brilha o fogo dentro.
Ela abre a bolsa. Tira uma pílula de dentro. Passa para a mão da outra. A outra se aproxima da boca de Renata, abre-a, coloca a pílula em sua língua com uma mão e bate as cinzas do cigarro mentolado no cinzeiro com a outra. Oferece um gole de sua cerveja, para fazer descer a pílula. Renata obedece cada passo do rito.
Elas beijam-se apaixonadamente, as duas. Para alegria do garçom que passa levando uma caipirinha para a mesa ao lado. Renata tem uma expressão de puro terror. De alguma forma, sabe o que vem em seguida.
É assim que a história termina, elas dizem em uníssono.
O sorriso do garçom congela no tempo. As calabresas do tiragosto não chiam mais na frigideira. No banheiro, o pó paira entre a unha e o nariz de um adicto. Na Ferreira Pena, a luz imóvel dos faróis de um Celta criam um trilho no ar. No posto Shell do outro lado da rua, um frentista enxota indefinidamente um cachorro para longe das bombas de gasolina. Apenas a voz de Trent Reznor ressoa cada vez mais alta. A copy of a copy of a……
Renata tenta fugir. Com muita resistência, consegue ir contra a cola que fixa tudo no tempo. Mas a cada centímetro que ela consegue se mover para longe da cadeira de plástico do bar, seu movimento desfaz um pouco de sua pele. Cria nela um traçado preto e branco. Como se ela fosse uma página sendo chacoalhada numa fotocopiadora. Uma faixa de luz gigantesca, entre o branco e o verde, passa por seus olhos. É assim que a história termina.
