As bochechas Camargo

(Leticia Eboli)

Trago esta rosa (para te dar)

Trago esta rosa (para te dar)

Trago esta rosa (para te dar)

“Mãe, eu não gosto desse Bozo” 

Tinha uns três quando fui batizada tardiamente para os padrões até então da minha família. A idade avançada me trouxe sabedoria suficiente para verbalizar o pavor com o padre ao compará-lo ao palhaço, sucesso nos anos 80. Hoje, a primeira explicação me parece vir da semelhança entre a gola larga e a roupa solta do Bozo com a batina. 

Estudei em escola católica a vida todinha, mas a desatenção ao tema e a falta de memória extraviaram numa mala de mão a minha singela bagagem religiosa. Embora já tenha escutado pra lá de mil vezes sobre o meu batizado, só sei dele por meio de terceiros. O primeiro acontecimento na Igreja do qual me lembro foi a primeira comunhão do meu irmão. A procissão da escola até a igreja, crianças em modalidades de branco cantando, a velha guarda da família reunida e o meu irmão carregando um buquê de flores, que aparece com ele na foto. Deve ter sido a única vez que ganhou rosas vermelhas e a última em que usou uma camisa polo fechada até a gola. Fiquei com um olho comprido no buquê. O sonho virou realidade cerca de quatro anos depois. Também num sábado de sol. Tirei a roupa para vestir o maiô rumo ao clube quando gritei diante da poça na calcinha manchada. Implorei pelo silêncio da minha mãe, não podia conceber esse evento compartilhado. Meia hora depois entrava o meu pai em casa com rosas vermelhas e um cartão “Parabéns para a Letícia agora mocinha”. Abandonei o buquê no corredor em frente ao banheiro com cólicas de raiva. 

Não tenho ideia de quem deu as flores pro meu irmão. Apesar da tia Helena ser declaradamente encantada por ele “o Pedrinho é o meu sobrinho-neto favorito”, me recordo de seus presentes funcionais cuecas-e-meias. Tia Helena me chamava atenção pelos óculos que cabiam cinco olhos de cada lado, coerente com suas observações sem papas na língua, gesticulando com seus dedos arqueados. Sofria de uma artrose severa, que por alguns anos nutri a imaginação de que caíam como uma luva para o ofício de telefonar nos aparelhos de disco. 

Tia Helena e suas irmãs de bochechas fartas da família Camargo (eterno receio genético da minha mãe) carregavam nomes iniciados pela letra H, moravam em Copacabana e passeavam com suas bolsas tiracolo: porta-níquel, pente fino, fichas telefônicas, espelhinho, pó de arroz e batom. Esse último, virava souvenir na bochecha das crianças. Eu vivia a fugir do meu pai que tentava limpar a marca do beijo com os dedos molhados de cuspe. Colecionavam moedas, xícaras, caixinhas, paninhos e tudo mais que pudesse ser falado no diminutivo. “Não querem um bolinho?”. O bolo sabor bolo era tão bom que fazia meu pai caçar migalhas na mesa com os mesmos dedos de cuspe. 

Se tia Helena até o fim olhou pro mundo alerta, com cabelos longos e sobrancelhas desconfiadas, a minha avó Haydée, sua irmã, me recordo com penteado impecável e um doce olhar embaçado. A maior parte da vida que compartilhei com a minha avó paterna ela teve Alzheimer. A cada encontro, sua boca parecia mais cerrada, como se o batom virasse cola em lábios que no máximo lembravam antigas canções de uma apaixonada por música. A boca foi ficando tão obsoleta até o ponto de “filha, a vovó se esqueceu como se mastiga, por isso agora os alimentos vão por esses tubos”. 

Fico pensando no processo em que ela foi murchando até virar uma uva-passa. Quando isso teria começado? 

Só hoje me vem a faísca de que a vovó Dedê, apelido bem brasileiro de Haydée, viveu cercada de duas figuras masculinas brilhantes com alma de artista, que voaram a vida toda, enquanto ela quase sempre ficava. Seu pai, meu bisavô, Joracy Camargo, foi escritor, dramaturgo e um grande agitador cultural. Seu marido, meu avô, Oswaldo, mais conhecido como Vadeco, também viveu nessa efervescência. Dono das maiores sobrancelhas e orelhas que já conheci, o vô de quem acredito ter herdado a energia e humor irritadiço, embarcava em muitas temporadas pelos EUA e Europa. Se desdobrou em interesses e atividades atuando como publicitário, produtor, coreógrafo, músico, dançarino e um grande amigo de Carmem Miranda com quem trabalhou no Bando da Lua. No legado de muitas fotos, coleções de postais e moedas de uma vida fascinante, alguns presentes como um quadro do Bambi dedicado a ele em próprio punho pelo Walt Disney. Pesquiso seu nome em sites como IMDB e encontro filmes que produziu como “O Libertino”, com um poster do Costinha olhando as pernas de uma mulher tirando as meias. Esse é outro assunto (e não é ao mesmo tempo).

Oswaldo segue por perto também dando nome ao pinguim do desenho animado do Cartoon, criado e dirigido pelo meu irmão em sua homenagem. O Pedro desde pequeno queria trabalhar com animação e acho o máximo como sempre sustentou e segue com sucesso na carreira nada trivial. Meu pai, que embora tenha virado profissional do marketing, começou trabalhando com design e levou uma vida criativa, compondo músicas, pintando quadros e escrevendo. 

Observando a sequência de quatro gerações de homens artistas sou atravessada de modo diferente das mil vezes que escutei que eu era a “cria do ninho” com “inteligência emocional”. Que criança de dez anos escreveria numa redação sobre si que era sensata e que seu irmão mais velho era criativo? 

O jeito volumoso da tia Helena e o silêncio contido da avó Haydée, se antes habitavam em mim como universos opostos, na arqueologia do presente reconheço que têm pelo menos uma matéria prima importante em comum: pó de arroz. Intenso ou delicado, cada uma à sua maneira, em minhas fabulações pessoais me levam a colorir que aprenderam a esconder em camadas de poeira suas bochechas de desejos. 

Na primavera dos meus quarenta, diante da foto tenho um pequeno delírio. Com o consentimento do meu irmão – que ficaria satisfeito à beça -, pego as rosas vermelhas (para te dar), e convido tia Helena e vovó Dedê para nos sentarmos na escadaria da Igreja. Sob a luz do dia, eu entre as duas, anotaria uma lista dos nossos Bozos e gozos. Depois, caminharia com elas duas quadras até o Forte de Copacabana, e quem sabe, não esqueceríamos as flores por lá.

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