Esperando a sua hora chegar (de Carol Schettini)
— Faz uma pergunta fácil pra mim. Aí da apostila. — Pedi a meu tio Luciano que estudava para um concurso público.
— Se for dormir, prefere um cômodo todo escuro ou com alguma luzinha?
— Uma luzinha.
— Errou.
— Faz outra pergunta pra mim.
Eu, com seis anos, atrapalhava o estudo do meu tio na casa do bairro Jardim, em Cataguases, nas Minas Gerais. Onde moravam os operários da fábrica. Apesar das casas terem sido projetadas por arquiteto famoso, o local era considerado favela. Naquele tempo. Hoje em dia é caro morar lá.
Não sei porque meus avós se mudaram para a casa retângulo. O mais provável é meu avô ter se aposentado e precisou sair do Jardim direto para o concreto do centro. O novo imóvel geométrico começava com uma sala e quarto, seguia com um corredor e quarto, uma pia na copa, uma cozinha e um banheiro. Ali, os onze filhos – e família – se reuniam para o Natal. A fila do banheiro era grande e disputada, assim como o frango frito que não dava vazão no almoço de domingo. A vó fritava uma coxa e ela pulava direto na goela de alguém.
Soube que aqui no Goiás, casas retângulo são chamadas de barracão. Barracão, para mim, é a casa da escola de samba, se for grande e, se for pequeno, um quadrado de madeirite e telha de amianto. Enfim.
No encontro na casa retângulo, todos iam. Tem sempre o parente que a gente gosta bem mais e aquele que parece deslocado do restante. Não sei porque, mas o que a gente ama mais costuma morrer primeiro deixando espaço vazio que nenhum outro consegue ocupar.
No encontro de final do ano, havia o dia da pescaria. Os homens se reuniam para pescar. As mulheres ficavam em casa. Pode parecer injustiça. Mas, quando eles saíam, com certeza, muitas sentiam um alívio e o silêncio reinava um pouco em casa. Talvez, a vó pudesse sentar. As crianças eram despachadas para o quintal ou para a varanda da casa vizinha.
Como eu era criança, ia brigar na varanda da vizinha e não reparava na logística da época. Mesmo se fosse permitido, eu tampouco gostaria de ir com eles. Não gosto do cheiro de peixe e só de pensar em segurar o bicho aquoso, me dá um nervoso. Minha tia Iris é o contrário de mim. Fui visitá-la em maio. Ela mora no segundo andar de uma casa com vista. Dá mais ou menos cem metros da sua varanda ao leito do rio. Ela me contou que coloca um chumbo grosso na vara e arremessa. Senta sozinha na cadeira com um copo de cerveja e fica ali por horas esperando o peixe beliscar. Como se fosse nossa vida. A gente está sempre esperando algo nos beliscar. Se voltasse o tempo, ela podia ir junto com eles. Ou também preferisse descansar. Seu ex-marido está na foto.
Pois é, na saída para o passeio, os homens posavam para uma fotografia. Na foto antiga, meus tios: Nelsimar, Fernando, Zezé, Ninho (o ex-marido), Nelsinho, Luciano, o vô e, atrás, meu tio Alfredo que não pesca, usa as mãos para tocar lindas músicas nas teclas do piano. Os meninos e meu tio Ricardo, ficavam para trás. Não sei se aparecia qualquer coisa na volta dos pescadores. Peixe normalmente é limpo no tanque e o tanque de cimento vivia lotado de manga ubá. Na geladeira vermelha de gancho, só a leitoa descansava e dava terror nas crianças. Gritos eram ouvidos quando alguém abria a porta até o vô colocar um pano de prato em cima do defunto.
Os homens se separavam no comboio e iam. No carro de quem, com quem, é tudo invenção ou alguma aposta minha.
Eram muitos. Precisava de mais de um veículo. Meu pai, Nelmar, o fotógrafo, dirigia um opala marrom ou um chevette branco e meu avô ia com ele. Tenho certeza. Quando eu tinha uns sete anos, meu pai – junto com meu avô – levou eu e meu irmão do meio para pescar no Araguaia. Fomos de carro até certo ponto da estrada para embarcarmos em uma chalana que encalhou no meio do rio. Os homens desceram para empurrar o barco e meu avô subiu para a proa para pescar. Felicidade pura quando do belisco subiu um peixe. Um palmito, meu pai se lembra bem. Ficamos dias (!) acampados numa ilha sem qualquer estrutura, nadando num rio cheio de piranhas (o peixe). Assim que a pandemia deu trégua, foi a vez do meu pai levar meu filho – seu neto – Artur para pescar no Pantanal. Os dois já fazem planos de ir ao Xingu no ano que vem.
Dirigindo o outro carro, não estava meu tio Zezé. Ele não é bom motorista. Na volta de um casamento, esqueceu de parar num trevo e quase, bem quase, matou cinco de uma vez. O tio Zezé trabalhava numa fábrica no ABC e só há pouco tempo soube que ele saiu não porque quis, mas porque estava na lista da ditadura. Não sei como uma pessoa tão agradável pode ser considerada persona non grata para alguém. Sem dinheiro e sem ser político, o sindicalista ficou sem emprego. Deixou de ser operário e virou mecânico de carro importado. Ele ainda fala da época do sindicato e balança a cabeça um bocado de vezes.
O tio Nelsimar tinha carro. Chegou a levar Renata e eu a alguns bailes e ia nos buscar uma hora depois que acabasse. Segundo ele, a gente tinha que aproveitar até o final, mesmo se ficássemos sentadas no meio-fio e todas as luzes do clube fossem apagadas. Ele era o mais agitado e tinha uma voz alta e grave. Conversava aos gritos, com risadas, fumando, contando piadas, dando opiniões. Tio Nelsimar, de um tempo para cá, não fala mais com ninguém. Por certo, gastou todas as palavras na juventude. Sequer informa seu número de telefone. Sei bem disso porque pedi para sua filha e ela se negou a me dar. Quando ele, por um milagre, liga para o tio Zezé, o único com quem ainda tem contato, usa chamador não identificado. Pode ser o medo de jogarem seu número na loteria e roubarem sua sorte. Vá saber. Está de mal de todos. Simples assim. A tia Cecília disse que do nada ele apareceu na sua casa. Foi pescar sozinho por perto, caiu num barranco, ficou todo estropiado. Ela me contou que ele entrou na casa, comeu, saiu, não deu bom dia ou tchau.
Naquela pescaria no rio, os homens se espalhavam todos na mesma margem. Cada um pegava seu anzol, sua isca, sua vara e com seu silêncio esperava a sua hora chegar.
A hora do vô chegou primeiro e a da vó, logo depois. Ainda ontem, foi a vez do tio Luciano.
A fotografia colorida está perdida em alguma caixa de madeira no armário cheio de entulhos e livros que poderão ser relidos em alguma outra vida. Há bastante tempo toda família não se encontra. Todos ainda pescam. Cada um no seu silêncio, no seu próprio rio.

