Achei estranho chegar de carro a um lugar onde sempre fui a pé. Não moro mais no bairro e o domingo de Páscoa deve ter afugentado o público . O pouco movimento do parque me permitiu fotografar sem muitas interferências, mas também me privou de rever a maioria dos conhecidos dos meus tempos de corrida. A visita foi rápida sem entrar no museu reformado porque, para o prédio, ia precisar de mais tempo.
Não foi só o museu que passou por reforma. A história contada lá dentro também e diz que tem gente que não gostou e preferia o mofo antigo das carruagens e liteiras junto à pintura famosa do Pedro Américo. O painel nacionalista mede mais ou menos sete por quatro metros e foi chumbado à parede sem possibilidade de ser removido. Por isso, o Dom Pedro heroico , montado a cavalo erguendo a espada diante de uma plateia de muitos soldados e poucos civis, passou os nove anos da reforma escondido por telas de proteção. É irônico pensar que a pintura, um louvor à monarquia, foi instalada quase às vésperas da Proclamação da República e só deve sair quando houver um terremoto em São Paulo ou um movimento iconoclasta qualquer.
A história de gente que preferia o museu antigo me seguiu na caminhada junto com ideias sobre o fim do mundo. Quem sabe as mudanças climáticas cheguem antes dos iconoclastas e uma enchente sem proporções arrebente o asfalto sobre todos os rios canalizados de São Paulo, atinja as margens plácidas do Ipiranga, dizime os seres humanos e as memórias dos museus.
Assim que entrei no parque, notei as pedras portuguesas trocadas. Todas pretas. Antes havia uma mistura com as brancas. Mais abaixo, nos jardins, os desenhos continuam. Lembrei de quando anunciaram o fechamento por problemas estruturais e de quando radicalizaram proibindo também de se ocuparem as escadarias de acesso ao museu. O ano era o incompreensível 2013 e foi frustrante perder meu assento nos degraus com vista livre até a Serra da Mantiqueira. Meu olhar contemplativo para as montanhas era quase uma meditação. E esta mesma vista ganhou agora um mirante de verdade no alto do prédio.
Segui para o caminho de terra que faz um semicírculo nos fundos do museu. Quem não conhecia, talvez não perceba as reformas . A pista para as caminhadas e corridas foi alargada e colocaram guaritas com seguranças. Na minha memória, a mata era mais fechada. A certeza é de que não existia a entrada lateral pela Avenida Nazaré e a academia democrática com pesos de cimento. Os fanáticos dos bíceps sarados continuam os de sempre e devem agradecer a iniciativa fitness de algum conselheiro do parque.
Não vi o professor de matemática ultramaratonista que disse já ter percorrido o equivalente a três voltas na Terra. Ele e o seu gritinho de uhu. Todo o bairro e as imediações conhecem o magro de cabelos brancos e longos. Foi melhor não ter visto. Se me reconhecesse, seria constrangedor se, como fez muitas vezes, gritasse meu nome depois do uhu.
Os gatos continuam e estes devem ser novos. Filhos dos filhos dos filhotes que conheci. Viviam escondidos e surgiam de todos os lados quando chegavam os cuidadores. Ganharam casas de madeira espalhadas sob as árvores. Duvido que durmam dentro, mas os idealizadores tiveram boa intenção.
Três atletas corredores me reconheceram. Uma delas me chamou de Mônica, erro que não me incomodou porque também esqueci como se chama. Lembro que tinha um apelido para um nome difícil, uma junção de duas sílabas ou coisa parecida que virava um epíteto simpático. O nome era dos antigos como esta palavra “epíteto”. Tatá para Anastácia, Gê para Eugênia, ou Lia para Auxiliadora. Nenhum destes. Não me lembrei do mesmo jeito que não me recordo agora. O importante é que nossa conversa foi amigável e pudemos nos dizer que estávamos iguaizinhas.
Os atletas corredores conservam as respirações profundas e postura de gente que gosta de histórias de superação. Devem continuar as mesmas conversas como aquela da meia anti bolhas em que eu me meti perguntando se poderia ter existido, em algum momento da história das meias, um fabricante que tivesse criado uma meia pró-bolhas. Quando não entenderam a piada, compreendi porque, às vezes , não me adaptava à panelinha das corridas. Meias, camisetas tecnológicas e tênis eram assunto que se dividia com as piadas machistas , misóginas e homofóbicas.
De volta à frente do museu, os mesmos grupos de turistas chineses fazem fotos em igual proporção com que fumam. As influencers e os influencers são novidade . Acompanhei uma moça que levava um buquê de balões lilases, montou um tripé e se sentou na ponta da escadaria para as selfies. Imagino que tenha uma página ou um canal com conselhos para se auto amar. Fotografei a moça e por conta destas fotos, consegui uma de que gostei: a imagem dos novos corrimãos nas escadas que ligam os jardins à área do museu. O bronze combinou com a luz de um dia cinza.
A passagem rápida durou o suficiente para rever como o lugar carrega parte da minha história de inadequação. Esqueci o incômodo das lembranças quando acompanhei no céu os balões lilases que escaparam das mãos da influencer.
