Um homem com uma dor, a depender da dor, de elegante não tem nada

Terça

Sonhei com Charles gemendo na água – tá doendo demais –  eu escutava da espreguiçadeira. Levantei, peguei ele por trás da cabeça, segurei o cabelo ralo e lixei-lhe a cara na pedra da borda da piscina. Uma semana de férias, um chalé pago em 12 vezes no cartão, veja bem, no meu cartão, eu dizia enquanto ele chorava. O cara nem pra segurar a onda de um canal. Ah, porque meu dentinho. Boca podre. E gritava pra Pousada Caminho Suave inteira ouvir: tira tudo de uma vez pra ver se baixa essa bola. Voltamos. O ABC chovendo tudo que não choveu em julho no dia que chegamos, só ódio no pensamento que saía escrito, em letra cursiva num balão de HQ. Acordei no susto. Na quarta, a cara lixada de Charles e eu empurrando carrinho no supermercado, a boca banguela de Charles e eu esfregando a mancha da toalha de mesa na área de serviço, o dente podre de Charles e eu preparando o almoço das meninas.

Quarta 

Sonhei que pari um bebê velho. Enrugado, não da umidade do útero, mas da secura da vida. Passou pelo canal vaginal quebrando os ossos ocos de osteoporose. O fêmur estalou de assustar a parteira. Quando saiu inteiro, tremendo de frio, não se ouviu choro. O geriatra, que lhe deu os tapinhas, ficou com o resmungar de um ai. Nasceu, disse sem alegria. O bebê era careca, mas só no topo da cabeça. As unhas amarelas e afiadas iguais às das senhoras das manicures de Higienópolis. Mãos de galinha, flácidas com cascos grossos, apontando pra dentro. Nasceu já cansado. O fastio lhe faz negar o peito, secar o peito, murchar o peito. Era Charles melado de mim. Morreu no meu colo. Falência múltipla de órgãos.

Quinta 

Sonhei que fali um banco. Acionistas incrédulos se perguntavam como consegui. O Itaú foi fundado em 45, tava indo tão bem, espantavam-se. O que ela fez com os dólares? Eu que dei a notícia numa coletiva de imprensa, não senti vergonha nem culpa. Mas no outro dia, acordada e bem dosmeticadazinha, lembrei de pagar o cartão. Era a sala de reunião de Succession. Logan, Kendall, Shive, Roman e até o Greg, todo mundo nervoso, fazendo conta, um falando por cima do outro e eu rindo. Eu de pijama descombinado, segurando um caderno de caligrafia, sem nem ter escovado os dentes e rindo. De dentro da sala de vidro, eu via a Natuza Nery, a Magê Flores e o Maurício Meirelles, os três com microfones da Xuxa na mão. Natuza era Natuza, mas a Magê e o Maurício eram a Flor, neta do Gil, e o Maurício de Souza da turma da Mônica. Eu olhava pra eles e provocava: e o kinder ovo? 

Sexta 

Sonhei que era uma galinha. Tomei oito litros de cajuína, eu repetia na emergência do Sabará que é um hospital infantil e, exatamente por isso, não podia me atender na emergência. Aí já era o que repetia a enfermeira. Minha barriga tão grande, tão inchada e borbulhante que não seria surpresa se nascesse um pintinho teresinense ali mesmo no chão colorido do P.S. E aí quero ver vocês não atenderem o menino. Senhora, isso não é maternidade. E eu ligava pra Unimed numa cabine telefônica daquelas inglesas. E tinha uma fila de turistas querendo tirar foto na cabine telefônica daquelas inglesas. Pagamos essa viagem em 12 vezes no seu cartão, eles gritavam. Eu demorava horas porque, veja, eu estava tentando resolver um problema com a Unimed. Vocês já tentaram resolver qualquer coisa com a Unimed? Cantávamos eu, a enfermeira, Caetano, Charles e o rei em coro, como se fosse um musical. “Vocês já tentaram resolver qualquer coisa com a Unimed?” As barrigas, de nós cinco, explodiam os portões da cabine e do Sabará, derrubavam tudo no chão, os dentes, as unhas podres, uma coroa, um milhão de dólares. Deu tempo de ir no banheiro de manhã. Mas foi quase. 

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