Um só não, dois!

por Américo Paim

A história começou assim: recebi convocação da delegacia. O que queriam comigo? Me acontece é coisa, viu? Tem quem me ache estranho, eu sei, só que num dô moral. Oxe, sou um cara comum, de boa. Seco, é verdade, mas direitinho, organizado, com quase todos os dente, barba rala, olho de peixe frito, como dizem por aí, pele meio sofrida, mas sem risco nem buraco. O cabelo já é pouco, deixaqueto. Vivo em Pedra Velha desde sempre, não devo nada. Talvez só uns goró no Cabeça ou no Zé Tripa. Será que é por causa do nariz? Sou direito, nunca buli com mulher duzôto. Porque tem uns cara aqui que pega pesado, eu não. Trabalho no mercadinho de Cirinho e nunca fiz bobagem, pode perguntar. Acho que é o nariz. Eu faço coleção de selo de São João, de tampinha de garrafa de cachaça, de santinho de falecido, que eu cato nos velório e de foto de papagaio. Então, só pode ser o nariz. Ou será porque eu tenho medo de viuvinha? Tenho mermo. Coisa de menino. Agora, o nariz? Só porque tem uma venta a mais, deitada e de outra cor. Chama um pouco a atenção e tal e coisa. Sou estranho porcasodisso? Logo eu, que tenho nome fino. O povo me botou apelido e nem feio eu sou.

Cheguei na hora. O soldado me levou numa sala pequena. Parede tudo comida de mofo, o lugar quase gotejando, é sério. Me dero uma cadeira véia, sem almofada, com um pedaço de prego podre assim saliente. Sentei de ladinho praquelaporra não me furar. Do outro lado da mesa, na cadeira melhorzinha, Dr. Leite, o delegado, troncudo, roliço, mais fácil pulá que arrudiá. Dois meganha saíro e ficamo eu e ele, que acendeu uma luz de pé na minha cara, apagou o resto da sala. Ficou aquela clareza e um calor da mulesta. Não via mais nada, só escutei a voz do home, dura, seca, feito trovoada que vai lhe matá dando é risada.

– Seo Celino das Virgens. Isso lá é nome? Diz que o povo lhe chama de Bozengo.

– Num é justo, dotô.

– Onde cê arranjou um nariz desse? Foi queda, atropelo, que diabo?

– Nada disso não, sinhô. Foi praga, num sabe?

– Tá mangando de mim, palhaço?

– Tô não. Apois, meu pai fez fio na sobrinha do vizinho.

– E daí?

– O home descobriu, fez ela tirá a criança e rogou que meu pai ia ter um fio assim como eu tô.

– Que maluquice é essa?

– Diz que ele tem parte aí com o cramulhão…

– Chega de conversa. Eu quero saber do paradeiro do seu amigo Cernival Sobreira, vulgo Bueiro.

– Ah, é isso?

– E também como é ontem na praça cê tava de nariz bonzinho, conversando com ele.

Eu num queria coisa com isso. Só falei porque Pedra Velha inteira ia dizê que foi culpa minha. E num foi. Encontrei Bueiro no banco daquela praça do coreto marrom, pertinho do Zé Tripa. Ele tava chorando, treta com dinheiro, todo borrado que num sabia mais o que ia ser da vida. Recebeu a grana, ia fazer uns conserto na casa, mas foi assaltado e os home levaro tudo. Achei mentira, que era tudo dívida de jogo e puteiro. Ele arrodeou um tantinho e entregou: tava devendo pro povo de Serafim.

Quando falei o nome do demônio, vi Dr. Leite se ajeitá todo na cadeira. Puxou um cigarro e acendeu assim na tora, na minha cara. Falei com respeito e tudo, que era proibido e ele me mandou foi tomar no cu. Então voltei pra história. Escutei o leriado todo de Bueiro e ele pediu ajuda. Falei que num tinha nenhum ali. Como eu queria sabê mais, levei ele pro Bar de Caniço, menos movimento e tal. Tomamo uma. Disse que era caso difícil, que ele devia partir logo pra ajuda de gente forte.

– Explique isso aí – disse o delegado.

– Falei pra procurar Madame Silveirinha.

– Bozengo, tá tirando onda comigo?

– Dr. Leite, eu juro. Pela saúde de meus fio.

– Cê lá tem filho, animal?

– Mas vô tê.

– Tô ficando cansado, viu? Fala o que aconteceu ou chamo meu pessoal de volta.

– Os meganha não, pelamordedeus!

– Desembucha!

– Eu tô lhe dizendo: a véia vê tudo, bota carta, lê no café, toda boa. Fumo lá.

Eu num queria ser visto com Bueiro. Tava com medo, e aí marquei direto lá no endereço da bruxa. Cheguei primeiro, esperei e nada dele. Aí um cabra alto, devia ter uns quatro metro, forte como que, mandou eu entrá. Fiquei de frente pra ela, com uma mesa de toalha branca entre nós. A véia era um cambito, preta, toda enrrugadinha e dentuça, A sala de escura, fria feito a morte, cheia de imagem espalhada de santo e outras coisa, me deu um medo da desgraça. Ela olhou e perguntou o que eu queria. Falei do meu amigo e tal. Ela cortô que só com ele mermo. Eu já ia levantar e ela falou.

– Tu já home feito, tem vergonha de ter medo de viuvinha, não?

– Óia, mas que conversa é essa, dona? – me assustei.

– E esse nariz aí, fio? Foi tiro, né?

– Não, senhora – aí expliquei a praga pra ela.

– Eu posso lhe ajudar.

– Óia, eu quero muito.

– Tem pra pagar? – mostrou papel com o valor.

– Só tenho no banco.

– Faz o pix antecipado – passou o número e fiz foi na hora.

Contei ao delegado que ela foi até um armário e tirou uma caixa branca pequena, tipo essas de sapato. Abriu e veio um chêro forte, bom demais. Olhe que meu nariz já me fez cheirar foi coisa nessa vida, mas bom daquele jeito… Era uma manga grande, amarelona, dava água na boca e eu nem gosto de muito de fruta. Perfeita, sem mancha, sem amassado. O cheiro me deixou doido. Ela falou que eu podia ficar com a manga por cinco dias e me deu uma faca.

– Essa história tá lhe enrolando, seu safado…

– Dr. Leite, me escute.

– Não arrume sarna pra se coçar…

– Era uma faca de prata, linda. Só podia cortá a manga com ela, a véia falô.

– Hum…

– Repare, é sério. Ela buscou uma faca comum e me mostrou que num cortava!

– Tu mente demais – ele falou batendo na mesa.

– Eu juro. A véia sigurô meu braço com aquela mão gelada.

– Acelera, Bozengo…

– Doutor, ela me olhou no olho que eu travei tudo, num passava nem azeite quente.

– Bora!

– Disse pra cortá uma fatia e deixá na caixa. Meu nariz ia consertá na hora.

– Que culhuda é essa…

– No quinto dia, passava o efeito e eu tinha que devolvê, senão ia chovê encosto pra cima de mim.

– O que mais?

– Pra não cortá outra fatia., pois eu ia morrê de um jeito que nunca se viu.

Ele acendeu outro cigarro e eu continuei. Bueiro não foi, então saí dali direto pra casa. Abri a caixa na cozinha e cortei uma fatia boa. Num escorreu nem caldo, coisa de maluco! Demorô um tiquinho de nada e olhe meu nariz consertado… Foi uma dor filádaputa na hora, mas passou logo, corri pro espelho pra ver. Tudo no lugar certo! Eu tava como novo! Bruxaria boa da miséra.

 

Fiz o quê? Um monte de foto de tudo que é jeito, até de óculos escuro, fiz pôster. Fiz entrevista de emprego que só home bonito pega. Botei pierci e bigode de mentirinha. Experimentei perfume nas loja que o povo num me deixava entrá, com medo. Saí atrás das mulé, até das que me botaro pra rodá. Tá certo que teve uma que foi porque num me reconheceu. Mas foi bom que só. Inventei história sobre a bruxaria da véia, falando que nos cinco dias as que transasse comigo ia remoçá, ficá magra, prometi um monte de merda e o coro comendo. Nunca peguei tanta mulé. Só encontrei Bueiro quase no fim do quinto dia. Ele me contou que tava escondido, só que o home descobriu. Ali ele fugiu atrás de mim e me achô na merma praça de antes, no caminho pra Madame Silverinha.

– Quem descobriu? Doutor Serafim? – interrompeu o delegado.

– Ele mermo, o Sete Pele…

– Problema… Cê fez o quê?

– Comecei a contá tudo, mas ele parou, de olho foi no meu nariz.

– Nós vimos de longe de binóculo, que tava todo bom. E daí?

– Eu e meu pessoal seguimos o infeliz, a pedido de Dr. Serafim.

– E foi?

Contei que Bueiro pediu pra vê a manga. Abri a caixa e ele pocô os óio, impressionado com o cheiro e a beleza. Ficou besta que num tinha mais fatia cortada, a manga tava inteira! Eu juro.

– Termine, Bozengo.

– Ele ficou doido, tomô a caixa com tudo dentro e correu pro coreto. Eu fui atrás.

– E então?

– Ele sempre foi mais ligêro que eu. Sentou no chão, abriu a caixa e cortou uma fatia da manga.

– Por quê?

– Queria resolver o problema dele. Só que ainda tava nos meus cinco dias. Num era pra cortar.

– E deu no quê?

Contei, e o delegado tavaté creditando em mim. Bueiro começou a passar mal. Desceu os degrau tudo do coreto e caiu de joelho no chão. Subiu um fumacê com um cheiro de manga retado. Foi horrível, mas eu olhei até o fim. Começô nos dedo, encolhendo pra dentro das mão e dos pé! Depois os braço, as perna, a barriga, foi tudo reduzindo, entrando na cabeça, as oreia, o queixo, o nariz, até sobrar só um olho. Aí, quando pensa que não, o olho cresceu de novo, mudou de cor, secou e virou um caroço de manga com um restinho de fruta nele! Eu chega tremia.

– Nunca ouvi tamanho absurdo – falou Dr. Leite.

– Fiquei duro de medo, dotô.

– Cê acha que eu vou comer essa história? Cadê o tal caroço?

– O senhor num vai creditá. Na merma da hora, um cachorro enorme e feioso passou, pegou e levou.

– Essa mentira descarada cê vai repetir no detector.

– E o pior, o bicho saiu andando até um banco na praça, onde tava o dono dele.

– Quem?

– Ele, doutor, o diabo do Serafim. Dá tremedeira só de lembrar.

– Ele tava lá? Como nós não vimos? Tu mente demais.

– Juro! Deve tê sido a fumaça.

– E tava sentando fazendo o quê? Fala, filho duma égua!

– Tava foi chupando manga!

– Cê tá me gozando, infeliz?

– É não! Óia que coisa: no mermo lugar, dois cão chupando manga…

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