O pente quente
Marcinha, a mãe pequena da casa, entrou no congá enquanto eu armava a mesa pra jogar pra uma dona poderosa do Alto de Pinheiros. Eu borrifava na peneira e nos búzios um perfume de alfazema com um pouquinho de levante, porque ela já tinha deixado um carrego de baixo nível nas outras vezes que jogou comigo.
“Mulher, eu não falei pra vigiar os meninos banhando as ferramentas?”, eu disse.
“Pois então, mãe. Acharam isso aqui escondido entre a bigorna de Ogum e o garfo do Seu Veludo”, Marcinha disse e estendeu a mão melada de dendê. Segurava o cabo de madeira de um pente de ferro com os dentes queimados.
Era o meu pente quente da adolescência. Marcinha tem o cabelo ralo, liso, fininho, e é loira quase verdadeira. Não tinha como saber que era um pente quente, nem que era o meu. Mas se fosse só pelo formato dos dentes eu já reconheceria, até se tapassem meu olhos, tirassem o pano de cabeça da minha cabeça e só encostassem o negócio no meu cabelo. E também li a inscrição que meu pai talhou no cabo de madeira, quando consegui meu primeiro emprego em casa de família: “dona bonitona”. Nem tive tempo de perguntar nada, porque entrou a dona poderosa.
“Mãe Márcia, podemos? Eu tenho hora”, a dona poderosa disse.
Só que os orixás não tem, pelo menos não a sua, eu quis dizer. Mas aí eu vi a Marcinha com aquela cara de que o dinheiro do jogo ia pagar o dendê pra banhar as ferramentas de novo no próximo mês e disse:
“Agora, minha filha”.
Peguei o pente da mão da Marcinha, que pediu licença e saiu. As ferramentas ficam na entrada da casa, logo depois da porta da rua, mas quando os meninos vão banhar, colocam elas na noite anterior no porão, que é gelado e mofado como o coração da dona poderosa. Fazia um frio lascado desde o mês anterior, na última vez que eu mesma banhei as ferramentas e não encontrei o pente lá. Encostei na parte de ferro e o pente estava quente, quase pelando. Guardei o negócio na gaveta embaixo da mesa, limpei o dendê da minha mão na toalhinha de pescoço, pus um copo d’água ao lado da peneira e peguei os búzios com as duas mãos. Olhei pros cabelos da dona poderosa e vi aquele frisadinho inconfundível de raiz crespa que o formol não conseguiu enterrar.
A quartinha de massapê
Guardei o pente quente no armário das tralhas que fica atrás da casinha da cigana, nos fundos da casa. Meu pai já dizia: “a gente só guarda o que cabe”. E aí achei a quartinha enorme de massapê, da época da minha feitura, que eu achei que tinha jogado fora exatamente porque não cabia mais. Tive que pegar com as duas mãos pra aguentar o peso, levei pro congá, dei banho de ervas, de água de cheiro, de sol e de lua. Sete diz depois, mandei a Marcinha pegar minha quartinha de louça e trocar pela de massapê.
“A senhora finalmente comprou a conversa do sumido, né”, Marcinha disse.
“Que sumido?”, eu disse. E cuidado com tua mão de couve, o negócio é pesado”.
“O Manezinho”, Marcinha disse.
“Sei, o Manoel. Que que tem?”.
“Não era ele que dizia que quartinha de louça era coisa de assinalado? Que o axé de verdade tava nas coisas antigas, no barro?”, Marcinha disse.
“Assimilado, mulher. E o axé não tá na matéria das coisas, como ele bem descobriu e tu bem sabe”, eu disse.
“Mesmo assim, era seu favorito, só escutava ele. Foi ele quem convenceu a senhora a parar de fazer chapinha, não foi?” Marcinha disse, olhou pra minha cara, abaixou os olhos e foi trocar as quartinhas em silêncio.
Aquele menino sabia um monte de coisa e achava que sabia outro monte. Mas isso do axé, eu não contei pra ninguém, claro, mas isso do axé ele acertou. Em uma semana com a quartinha de massapê, apareceu mais gente querendo jogo do que nos últimos quatro meses. E tudo gente do outro lado da ponte, tudo gente de quem eu podia cobrar. Daria pra consertar a goteira no teto do congá e pagar a filha da Jacira, que sempre corta meu cabelo de graça. Daria pra não ter que fazer faxina por um bom tempo.
Na semana seguinte, na sexta-feira, fui trocar a água da quartinha e colocar um alguidar com canjica nova. Marcinha entrou correndo no congá, mais branca do que sempre. Ela é loira quase verdadeira, mas é uma branca meio vermelha. E entrou mais branca do que vela, mais branca do que quartinha de louça.
“Que foi, criatura”, eu disse. “Viu fantasma?”.
“Quase, mãe. Ouvi”, Marcinha disse, beijou a minha mão, eu beijei a dela de volta e foi como beijar a testa do meu pai no caixão. Me tremi toda, mandei ela ir na cozinha, beber água com açúcar e só voltar mais calma, pra não tirar o axé da minha tarefa. Ela voltou dez minutos depois, no momento em que estava levando a quartinha pro altar.
“Mãe, o Pirulito foi fazer uma entrega no centro e diz que viu”, Marcinha se tremeu e fez o sinal da cruz. Diz que ele viu o Manezinho”.
A quartinha de massapê caiu da minha mão. A goteira do teto do congá pingou uma gota gelada bem em cima do meu ori, apesar da juba sem corte. No mesmo dia, metade das pessoas que marcaram jogo ligaram pra desmarcar. Na semana seguinte, a outra metade faltou.
O quartinho
“Muito obrigado por aceitar passar a noite aqui, dona Márcia”, dona Mariana disse.
“Imagina, dona Mariana”, eu disse. “Ia ficar ruim mesmo de fazer a faxina hoje e voltar pra festa cedo amanhã”.
Coloquei a minha bolsa em cima da cama, que tinha um travesseiro daqueles que não afunda, igual ao dos astronautas, como os que o Manoel disse que ia comprar pra mim quando virasse um escritor famoso. Ele também disse que ia mudar pro mesmo bairro em que mora a dona Mariana e que ia me dar uma casa enorme pra morar. Tirei rápido a mão do travesseiro e olhei pro tal quartinho. Era maior que a casa do exú, maior que a casa da cigana, maior que todos os outros quartinhos em que já morei.
A dona Mariana quer que eu chame ela só de Mariana. E eu até toparia, mas com ela é só venha vós ao meu reino. Não quer me chamar só de Márcia.
“A senhora tem idade pra ser minha mãe, pelo amor de deus”, dona Mariana disse. “Olha, muito obrigado de novo por dormir aqui hoje. Eu sei que esses quartinhos são péssimos, tem uma coisa de senzala, né. Se eu tivesse feito a casa, não ia ter nada disso, a senhora pode ter certeza”.
“Eu tenho, minha filha. E fica tranquila, isso aqui é um palácio. Tem nada não”, eu disse.
Dona Mariana ficou feliz que eu disse minha filha. E eu fiquei feliz sabendo que o dinheiro ia dar pra fazer uma festa bonita de Cosme e Damião e até pra ajudar com uma cesta básica pros filhos de santo desempregados. No fim da noite, dona Mariana pediu pizza pelo telefone, botou a mesa e me fez comer com ela na sala de jantar. Eu prefiro arroz e feijão, mas disse que o pepperoni tava bom. Depois ela viu meus fios de contas, perguntou meus orixás, perguntou que orixás eu achava que ela tinha na cabeça. Eu quis dizer, isso não é horóscopo não, dona Mariana. Mas eu só disse:
“Só jogando os búzios, minha filha”.
Aí dona Mariana disse que tinha lido um livro maravilhoso com uma personagem mãe de santo e inventou que eu tinha que ler o negócio também. Ela teve que ler por causa do trabalho, porque estava entrevistando o homem que escreveu. Mas ela disse que o trabalho às vezes nos dá boas surpresas. Eu pensei que às vezes, bem às vezes, nos dá mesmo.
“Você vai adorar, dona Márcia”, dona Mariana disse. “Aliás, a personagem que falei parece com você”.
Deve ser tão parecida comigo como a Umbanda com o Candomblé, eu quis dizer. Mas eu disse:
“Tô cansada das vistas, mas se a senhora falou, leio sim”.Aí ela foi tomar banho e eu fui pro quartinho com o tal do livro na mão. Li o título e já não entendi nada, o que dirá o livro. Resolvi ler só a partezinha que conta a história do escritor e mostra a foto, gosto de ver a cara do escritor pra saber o que é cara de escritor. Mas não tinha foto. E a parte que explica a vida do escritor não explicava nada. Só dizia: “Valdemar Matutino é brasileiro e escreveu o romances tal, que ganhou o prêmio tal; o romance tal, que ganhou os prêmios tal e tal; e o romance tal, que ganhou os prêmios tal, tal, e tal qual”.
Aí o telefone tocou. Era a voz dele, falando da tal entrevista com a Dona Mariana. Era a voz do Manoel, tal e qual.
Desliguei e voltei pra casa aquela noite mesmo.
