Um ovo de costura

De manhã, os três únicos pares de meia sem furo estavam boiando no molho da máquina desligada. Antes de ir à escola, Bernadete calçou duas inteiras de cores diferentes e saiu de botas para comprar um ovo de costura. As botas escondiam o descombinado e, não fosse a mínima possibilidade de precisar se despir para um encontro casual ou a despirem num acidente de trânsito ou bala perdida, passaria todo o inverno saindo de casa com as botinhas pretas e qualquer meia em qualquer pé. Os alunos nem iam notar.

Ninguém mais remenda meias. Ela que lavasse com mais frequência ou comprasse outras ou sentisse menos culpa por não ser cuidadosa como as avós e sua mãe. A culpa se misturava às imagens de pilhas de roupas descartadas no Deserto do Atacama, mais uma das espécies de lixo no mundo.  Um ovo de costura e quem sabe também um dedal comporiam um kit de alívio à sua consciência com o meio ambiente, mesmo que ficasse sem uso como as linhas e agulhas de crochê e tricô na cesta que decora um canto da sua sala de estar.

Bernadete não encontrou o ovo em nenhuma das lojinhas de utilidade do bairro e não se convencia com a possibilidade de fazer os remendos usando os fundos de um frasco de perfume, do jeito que as colegas professoras tinham ensinado. Remendos em meias tinham que ser com os ovos de costura tradicionais. E, realizado o trabalho, poderia ainda ganhar uns likes postando o antes e o depois no Instagram. A peça em madeira envernizada entrou na lista dos seus sonhos de consumo. Coisa fácil. Uma busca pelos sites e Bernadete teria o ovo entregue por um motoboy na porta de sua casa já no dia seguinte. Ela até cogitou, mas sabia dos truques das vendas on line. Queria sentir, na palma das mãos, o peso e a textura da peça de madeira maciça. O fato de vir de uma árvore derrubada não entrava na sua lista de culpas.

No sábado, foi de ônibus ao centro de São Paulo, na região da 25 de Março onde ainda se encontram lojas de tecido e armarinhos. As  ruas estavam lotadas de compradores e ambulantes e Bernadete andava meio de lado agarrada à sua bolsa transversal.  Na porta das lojas, homens e mulheres gritavam marcas de roupas, produtos eletrônicos e utensílios de casa.  Alguns esticavam os braços oferecendo cartões e ela negou todos até sentir uma indisposição súbita, parar diante do degrau de uma loja de tecidos, subir e encontrar um pouco de silêncio entre rolos de seda, xantung e lurex.  O lugar sem apelos sonoros e visuais deixava boa parte da gritaria do lado de fora. Detrás do balcão de madeira, da cor dos ovos de costura, uma mulher bem mais velha, cerca de uns oitenta anos, cabelos armados e muito pretos de tinta perguntou:

 –  Posso ajudar, mocinha? – o som fechado do ô e o erre arrastado sugeriam que era uma senhora estrangeira. Antes de perguntar pelo ovo e o dedal, Bernadete agradeceu pelo mocinha e se viu aos dezoito, trinta anos antes, buscando tecidos com sua mãe na mesma rua. Na época, no primeiro ano de pedagogia, já tinha aderido às roupas prontas, mas sua mãe ainda costurava as de festa.

– Estou procurando um ovo de costura.

– Aqui não tem. Aqui só tecido fino para roupa de festa. Ovo é para remendo.

 As sedas balançaram com um brisa fria que veio da rua. A resposta ofensiva mostrou que ela estava no lugar errado.

– Procure nesta aqui – a mulher estendeu um cartão cor de laranja e ele estava tão fácil nas suas mãos que parecia um produto da loja.

Bernadete pegou o pedaço de papel e afastou dos olhos para enxergar as letras miúdas.  A loja ficava no subsolo de uns dos prédios na mesma rua.  B&T – Botões e Tecnologia. Junto ao nome,  um número de telefone fixo.

– Tem que ligar antes de ir.

– Marcar hora? – Bernadete perguntou.

– Não. Só avisar. Eles atendem pessoas resistentes, que gostam de coisas velhas.

Dessa vez, a professora não se sentiu ofendida. Pensou que a resposta direta da vendedora era só uma forma de tornar a conversa mais rápida e o coisas velhas poderia ser uma referência a objetos antigos de valor, mesmo os só sentimentais.

– Tem que ligar a cobrar de um Orelhão na rua. É a senha. Não pode ser diferente.

Bernadete procurou nos olhos miúdos da mulher um possível truque, mas encontrou só duas pálpebras caídas e borradas de sombra. A balconista passou a informação do mesmo modo natural com que marcava frisos para os cortes nos tecidos e ainda indicou a esquina onde ficava o telefone público. Foi fácil encontrar e ligar. A professora nem mais se dava conta de que estes aparelhos ainda existiam na cidade. Do outro lado, ela estranhou o atendimento eletrônico e o pedido do número do seu celular para receber um código de autorização para a entrada.

                O prédio ficava na próxima esquina depois do telefone público. Era igual a quase todos os da quadra: cinco andares, sem elevador, sem portaria, uma escada de granilite desgastado, um painel com letras de plástico indicando as lojas. No subsolo, só a B&T sem a informação do tipo de comércio. Bernadete desceu e tocou a campainha. Um jovem de cabelos raspados e fones de ouvido abriu a portinha com grades. Assim que ela mostrou o código no celular, ele se apresentou como Jonas, destravou a porta de ferro e a deixou entrar.

Ao colocar os pés na B&T, Bernadete sentiu a mesma indisposição que a tinha feito parar na rua e entrar na loja de tecidos. O lugar era uma sala com luzes e ventilação artificial. Jonas foi até o fundo, desceu umas escadas de onde vinham outros jovens parecidos com ele trazendo pacotes em papel pardo. As paredes lisas eram telas para a projeção de pessoas em trabalhos de costura, cozinha e plantação sem qualquer tecnologia. De todos os objetos, só o telefone fixo de disco destoava.  Numa bancada lateral, três homens e três mulheres sentados diante de monitores separados por baias. O chão era muito limpo e eles trabalhavam de meias. Bernadete lembrou das suas descombinadas e do ovo que a levou até ali.

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