Os rumores são de que Sirilei sonhava com o filho diplomata ou algo que fosse bonito de dizer e viajasse para fora de Marialva. Se tudo desse errado, ao menos que tentasse carreira no exército, mas tinha medo que puxasse ao tio Nelson, seu irmão mais velho. O homem não durou três semanas no quartel. Tudo ia muito além do sonhado uniforme de milico, arrumar a cama e polichinelos. Era muito sim senhor, não senhor e na primeira dispensa não voltou.
Foi numas de mal entendido que Sirilei fez sua primeira viagem para buscar muamba no Paraguai. Ela, faxineira da universidade de Maringá, sempre muito avivada e afável, que dizia sim e sorria para tudo e todos, foi fácil convencer a turistar em Foz de Iguaçu com um grupo de idosas, em troca de carregar umas sacolas. “Gente velha não pode levar muito peso” dizia Márcio, um dos meninos que cursava belas artes e ia duas vezes ao mês até Ciudad del Este, comprar pendrives, pincéis, HDs, tintas para tatuagem e outras encomendas de colegas da faculdade.
Saíram no ônibus de quinta-feira à noite e na sexta pela manhã, ao invés de seguirem rumo às cataratas do Iguaçu, atravessaram a ponte da amizade. A fim de reformular o trajeto que tinha na cabeça, Sirilei aceitou, não perguntou, comentou, pensou alto ou mesmo indagou os porquês dele zanzar entre os shoppings e camelôs, fazendo dela de porta sacolas e a chamando de mãe. O jeito doce e corpulento dava um ar de proteção e bastava sorrir, encurvar um pouquinho, para atravessar a alfândega. Numa dessas pegou o gosto do transporte de velhacarias e não assentiu mais o mísero troco do contrabandista – pelas suas contas de mula, era óbvio que a troca não parecia justa. Voltou sem Márcio, no entanto rodou na alfândega. Sorte que era férias e tinha pouca encomenda, só alguns perfumes e cosméticos. Foram apreendidos seis frascos de Eau de Toilette Gabriela Sabatini e um saco de meia calças fumês. Voltou no zero a zero e com o filho atrás da orelha. Caiu em si, não é que revistavam Márcio, mas ela nunca. Sempre ele dizia: aquela ali é a minha mãe! Declarava algo num montante permitido, enquanto ela atravessava com o grosso. Na próxima voltou com seu menino, aí que entra Klebson, seu filho único.
Da última poltrona via um mar de cocurutos brancos se embolando em travesseiros, admirava como os fios reluziam nas lâmpadas de leitura, emoldurando rostos que vira e mexe se voltavam para ele sorrindo enquanto se escondia atrás do banco. Até os dez anos era permitido ser tímido e não dar por quê. Estava animado de entrar no ônibus com um monte de velha e viajar para o exterior. Ainda tinha a televisão e mijar se equilibrando com o veículo rodando sem molhar a tampa lhe apertava o riso.
Tal qual a mãe, aprendeu a não perguntar, apenas observava como todos se mexiam, ficava de olho nas listas de compras, seus desejos, como se vestiam, onde as mãos pousavam quando as sacolas eram descansadas no chão. Esperar e esperar. Ouvir lamúrias de pechincha, tomar Coca-Cola de garrafinha de vidro contando quantos meninos de cabelos espetados e moças com girassóis na cabeça, blusa ciganinha e tecidos leves e floridos via por ali.
Quase bonita, era assim que via a senhora que sentou na poltrona da fileira par, no corredor ao seu lado. Ia no trajeto de volta folheando uma revista Manchete, circulava a caneta todas as tendências de moda que via, conferindo na sacola ao lado se tinha comprado algo semelhante. Sapatos de dança para se usar com meias, elásticos de girassóis iguais aos da Babalú da novela das sete, gloss transparente, delineador de lábios em tons escuros, sem falar nos ares de galã do motorista de ônibus contando as passagens, encantaram Klebson que não demorou a perguntar se aquela televisão e o videocassete de quatro cabeças eram de enfeite.
Nem o barulho da mãe roncando junto ao chiado da tevê, nem a porta que vira e mexe se entreabria trazendo o mal cheiro do toilet, faziam o menino afastar os olhos do Meu Primeiro Amor. As cenas da madrasta da pequena Vada que chega para maquiar defuntos, o anel perdido que muda a cor de acordo o humor e Thomas J. Sennett, personagem de Macaulay Culkin, todo picado por abelhas, sem os óculos no caixão.
- Posso te maquiar quando você morrer?
- Estou tranquila, vou como tiver que ser! Seguiu contando as presilhas de girassóis
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Sigo de Londrina para Marialva sem conseguir dormir no ônibus. Certos aspectos da minha curiosidade não mudaram, dancinhas do Tik Tok não me pegam, flipo nos tutorias de maquiagem do mundo todo e me perco em design de sobrancelhas, delineados e esfumados de sombra. Saio das tendências para o caderno de notas, onde tinha preparado um discurso de despedida. Leio em voz baixa as palavras copiadas do Instagram da Raquel, troco por umas mais do meu jeito e o nome do filho dela por Sirilei. Não merecemos -declaro no fim do texto- não merecemos ser testemunha da morte de nossa mãe. Fico alguns minutos nesta frase, talvez porque não estava lá quando ela caiu da escada, ou porque esteja convencido que só funciona na dor da perda de um filho e não vice-versa. Talvez seja demais contar de nossas viagens ao Paraguai, não é sobre mim. Temo que eu mesmo morra e ninguém saiba de onde veio minha primeira maleta de maquiagem.
Depois de vacilações mil, Sirilei assumiu, tomou jeito de contrabandista e aprimorou suas técnicas. Comprava um microsystem daqueles tipo Sony, com módulo no centro para entrada de CD e duas fitas K-7 de cento e oitenta dólares -trinta acima do valor permitido. Passávamos pela alfândega, ela com aquele olhar furta-cor de mãe e eu todo mimoso abraçado ao aparelho de som, pezinhos pra dentro nos tênis falsificados da Nike. O plano era esse: levava o dinheiro contado, dobrado dentro do porta moedas bordado com uma imagem de Jesus Cristo de olhos azuis. Ela declarava o aparelho de som catando os dólares que faltavam em meu bolso, enquanto eu dizia estar feliz em ajudar com minha mesada. Atravessávamos a alfândega com mais de mil dólares em mercadorias escondidas dentro das caixas de som, que descobri como abrir, depois que ganhei uma chavinha de fenda que vinha de brinde, junto a uma revista do Instituto Padre Réus.
Soube por uma das senhoras que pegava o mesmo ônibus, que minha mãe escutava as minhas conversas nas madrugadas com as velhas e já tinha percebido que eu queria ser maquiador. Foi graças a minha ideia de desparafusar as caixinhas, que o negócio dela prosperou. “Me ajudou extraordinariamente!” dizia ela que adorava pegar para si expressões que achava soar inteligentes e sofisticadas, falava que ajudava a maquiar sua falta de estudo perante os clientes. Exorbitante, fazia de tudo para encaixar esta palavra em seu vocabulário. “Tudo no Paraná é exorbitante de caro!” completava. Mas a favorita era sorumbático. Gostava das pessoas achando que era algo haver com suruba ou sabático. Imagine só: “tal fulano vai tirar um sorumbático” ou “no interior o povo é de bem, mas adora fazer uma sorumba!”
Sirlei parcelava tudo, menos o meu sorriso. A minha vida é o que é, graças a ela, me lembro do dia em que distribuí cinquenta baquetas de bateria para as velhas do ônibus passarem na alfândega, na escusa que faziam parte de um grupo experimental de percussão da universidade. Quando cheguei na minha poltrona estava ela, de presente, uma maleta prateada que se abria em vários compartimentos, recheada dos melhores produtos da Avon. Penso que ali tudo prometeu o futuro e quem diria, vinte anos depois ganharia o prêmio Avon do talento do ano. Mas nada disso importa, o que importa hoje é que estou sorumbático, enlutado.
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Se demorar muito, defunto tem de ir pro formol. O sangue se desloca para as áreas mais próximas à terra. Livor mortis. Sirilei iria gostar desta palavra, são as manchas roxas que sinalizam o horário da morte. De qualquer maneira, sempre há opção de velar o caixão lacrado. No entanto, Klebson sem escutar opiniões, sabia que só ele podia dar um trato na situação. Se maquiava gente que não tinha o mínimo apreço, porque não dar o último tapa na mãe? Se me permitem contar, quem levou uma pitomba foi ele na hora que abriu o saco no necrotério. Seu DRT de maquiador permitia trabalhar a defunta desde que não praticasse suturas. No susto da queda, Sirilei paralisou o rosto. Os olhos estalados comiam as pálpebras e a boca de tão aberta, cabia um ovo. Uma vaga dor de cabeça, uma tontura se instalou no filho que de pronto pediu para que a mãe morta relaxasse, para a vestir com seu único conjunto de cetim.
- Vai mãe, amacia este braço, não vai me fazer passar vergonha no velório, a senhora tem que ir linda.
Massageou a cabeça, começou pela fossa temporal, desceu para a mandíbula, depois o pescoço, braços e finalmente as pernas, sempre conversando como se a mãe ainda estivesse viva. Sirilei tinha sempre a última palavra, desta vez foi com a expressão. No que Klebson vestia a meia-calça fumê, a sua preferida, quando voltou o olhar para o rosto viu que um pequeno sorriso se apresentava no cadáver.
Tal como nos filmes americanos, Klebson pediu para que fosse velada em casa. Encomendou coxinhas, croquetes e enroladinhos de salsicha, enfileirou as cadeiras e arrastou a mesa de jantar para fora. O caixão de pinus foi colocado no meio da sala em frente ao raque com a televisão de plasma -última coisa que trouxe do Paraguai- ligada no canal do YouTube do padre Fábio de Melo, recitando frases de auto ajuda. Foram à casa de Sirilei, além dos parentes, um micro-ônibus cheio de funcionários e ex-alunos da universidade de Maringá e algumas idosas que excursionaram juntas a Foz do Iguaçu. Até mesmo a cara severa de seu tio Nelson, mudou ao ver seu rosto maquiado para uma festa bem anos 80, sombra batom e blush exagerados à la Viúva Porcina -personagem que ela adorava. Sem estudo, mas esperta para os negócios. Klebson homenageou a mãe que nasceu Mina (a empregada da novela), mas sempre quis ser patroa.
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Nada enorme, três palmos por um, branca, de plástico mesmo, com bases, corretivos de hematomas, lenço umedecido, bisturi, blush, dissecador e agulha de sutura, era a mala de necromaquiador enviada pelo curso de formação. O primeiro online, o segundo presencial em Foz do Iguaçu quando finalmente pôde conhecer as cataratas, coisa que nunca se deram ao luxo de fazer nos tempos de muambeiros. Foi lá também onde aprendeu que o cheiro do necrochorume não saía de suas narinas, Asi es la muerte -diziam. As moscas detectam esse cheiro usando receptores especializados nas antenas, pousam no cadáver e depositam os ovos nos orifícios e feridas abertas. Cada mosca coloca ao redor de duzentos e cinquenta ovos que eclodem dentro de 24hs, dando origem a pequenas larvas. É assim que as larvas entram no caixão. Assim voltamos à terra mais rápido que o miolo de uma maçã na composteira.
Klebson aprendia no outro, toda a parafernália de órgãos complexos e tudo que resulta nas condições que se apresentam em um morto. Na carne de porco estudou como reconstruir tecidos, fazer suturas e nas aulas de maquiagem, tirava o brilho do professor pago que aprendia com ele como deixar perfeita a pele. Tocava no defunto, trazia vida. Por ser renomado na maquiagem social, foi fácil conseguir uma cartela de funerárias clientes e no primeiro mês reconstituiu uma família toda morta num acidente de carro, o prefeito de Rolândia, uma empresária de Apucarana e uns outros mais. Gostava de ouvir: “pena que tu não a maquiou viva, nunca a vi tão bonita!”
Já que morto não tem alergia, usava maquiagem vencida, mas só de marca top. Foi traduzindo o nome de um pó compacto que tirou a razão social de seu CNPJ: Kleebson – Maquiagem Para o Sempre. Acrescentou mais um “e” ao seu nome, achou chique, como nos lenços umedecidos Kleenex.
Não podia publicar fotos, mantinha em sua página no instagram os prints das mensagens dos familiares e amigos de seus clientes, agradecendo a impecabilidade do trabalho e o conforto que ameniza a dor da despedida. Encarar o falecido querido, é a imagem que fica e nos acompanha até o esquecimento. Klebson se orgulhava de seus mortos serem um sucesso. Iluminados, corados, no meio da palidez e cara de choro dos que o velam. Recomendava: “por favor não beijem o familiar, nem mesmo na testa!” Cobrava o dobro retoques e passava depois da base uma lata de fixador a prova d’água nas mãos. Sabia que tem gente que nunca mais dorme, se não tocar a mão do defunto. Outra marca de seu trabalho era a fidelidade ao estilo da pessoa. Antes da maquiagem pedia imagens, fotos do guarda-roupa do finado, fotos do dia em que os parentes se lembravam delas bem-apresentadas.
Um dos casos mais marcantes foi o de uma jovem blogueira, filha de um fazendeiro de Campo Mourão. Deu até no New York Times. Mandaram um helicóptero para ele chegar rápido no IML, local que o corpo se encontrava após voar de Fernando de Noronha, onde ela se afogou na tentativa de fazer um selfie com um golfinho. Klebson estudou as fotos da menina no perfil do Instagram e nada se parecia com a pessoa esticada a sua frente. Olhando para a situação, pediu quatro horas para preparar o corpo. Primeiro limpou bem o rosto, fez uma escova e um babyliss nos longos cabelos loiros. Ligou para a mãe dela e pediu que além do vestido Versace escolhido, mandasse o Ring Light da menina. Enquanto não chegava, fuçou nos stories da influenciadora buscando seu catálogo de filtros. As sedutoras mentiras inventadas pelo sistema estavam todas ali, era só tentar entender qual ela se identificava mais.
Colocou uma toalha branca embaixo de sua cabeça para não refletir a luz na mesa de inox, ajustou o Ring Light em seu rosto, limpou a câmera do telefone, baixou o filtro Cute Face by Sasha Soul Art em seu instagram e fez algumas fotos dela. O celular apoiado na mesa de instrumentos servia de guia, a foto filtrada era a referência da maquiagem. Trabalhou feito argila, trouxe as maçãs do rosto de volta com contornos altos, a pele lisa, sem aparecer nenhum poro, delineado trazendo olhos de gato, cílios postiços colados em pequenos tufos um por um, contorno de luzes para afinar o nariz, lápis de boca rosado e gloss com ácido hialurônico para aumentar os lábios, camada por camada, volume sobre volume, um rosto da moda em forma de coração.
Foi a primeira vez que os familiares e amigos viram a blogueira como se apresentava nas redes sociais. Terminou o serviço, disse para si em voz alta: quando morrer, quero caixão lacrado


