Júlio César tinha dez anos, nunca tinha lido o Ensaio sobre a cegueira e via tudo branco. Não é possível afirmar que via tudo branco como leite, branco como papel sulfite ou branco como o rosado de uma pele branca. É impossível negar, porém, que suas pupilas eram dois bilhões de um azul-esbranquiçado que nos dias claros se confundia com o branco da esclera. Como a visão dos olhos do menino tirava a atenção dos fiéis durante o culto, o pastor lhe deu um par de óculos escuros com uma tira elástica, para não pesar em suas orelhinhas. Elas eram realmente pequenas, mas captavam muita coisa, como por exemplo o nome “Tim Maia de óculos escuros”, com que os meninos da igreja o chamavam quando o pastor não estava olhando. Sua mãe lhe disse que era o nome de um cantor desviado e que os dois não eram nada parecidos. Sua mãe não lhe disse que o cantor também era gordo, também tinha a pele marrom clara, o nariz largo e um mullet de cachinhos na nuca. Sua mãe lhe disse que o único que os dois tinham em comum era uma voz muito bonita.
Por isso, quando o pastor lhe disse que sua mãe tinha morrido, com uma voz sem nenhuma expressão e que por isso era a voz mais feia do mundo, Júlio César pediu para cantar um louvor no velório. Todos que estavam de frente ao caixão choraram ao ouvir seu canto e ao ver suas lágrimas escorrerem dos óculos escuros. No fim do velório o pastor lhe disse, com uma voz cheia de pausas e a expressão de quem quer esconder alguma coisa, que um tal juiz mandou ele ir morar com uma tal tia avó, e que ele não ia poder continuar frequentando a igreja morando com tal tipo de gente.
“É, varãozinho, é, escuta”, o pastor disse. “Você vai pra um lugar onde não gostam de Jesus. Mas ele vai estar sempre contigo, ouviu? Lembra, se a gente não abandona o Senhor…”.
“O Senhor nunca abandona a gente”, Júlio César disse e recebeu o abraço solto do pastor, tão diferente do abraço apertado de sua mãe. O pastor logo o soltou do abraço, ele soltou mais algumas lágrimas pelos óculos escuros e pegou na mão de uma mulher com cheiro de alfazema queimada.
Márcia era uma velha que tinha uma voz de velha um pouco rouca e que chegava bem perto do ouvido dele. Era a tia de sua mãe, sua tia avó, e ele a chamava de tia Márcia – mas todos na casa a chamavam de mãe Márcia. Sua mãe dizia que eles não visitavam a tia Márcia porque ela era desviada. E na casa nova, tanto a tia como o monte de gente que vivia por ali ajudavam Júlio César a desviar dos buracos e dos degraus, do tronco da enorme gameleira¹, do cocô dos cachorros e dos tocos de vela espalhados pelo quintal. Marcinha, uma mulher com voz mais distante de seu ouvido e a quem os outros chamavam de mãe pequena², falava que ele precisava tomar banho de pipoca³. Tia Márcia respondia que o menino era mesmo da igreja e cochichava pra ele não ouvir que, se dependesse dela e não do pastor, ele poderia frequentar a igreja. Enquanto do andar de baixo da casa, perto do quintal, vinham sons de tambor e um monte de vozes catando melodias parecidas com as dos louvores, Júlio César ficava no andar de cima e orava para o Senhor ajudá-lo a não se desviar. Numa dessas vezes, no meio da oração, ele deixou de ver tudo branco. Sua visão escureceu e um vulto passou na sua frente. Pela primeira vez na vida, ele fechou os olhos com vontade e orou para o Senhor lhe devolver a brancura das vistas.
Parece que funcionou, porque na escola pública sem professores com treinamento para educação especial, no dia-a-dia na casa de tia Márcia e até nos seus sonhos, seguia vendo tudo branco. O problema só era quando as pessoas da casa se reuniam no andar de baixo, cantavam melodias parecidas com louvores e tocavam os tambores. Nessas horas a visão de Júlio César voltava a escurecer e, se não estivesse cheio de medo, chamaria alguém, tiraria os óculos escuros e pediria para a pessoa ver se suas pupilas ainda estavam completas do azul-esbranquiçado ou se estavam borradas de algum pedaço de castanho. Ele não sabia o que era castanho, nem o que era marrom, e fechava os olhos no andar de cima sempre que no andar de baixo se ouviam os cantos e os tambores. Mas um dia, por descuido ou curiosidade, abriu os olhos e viu tudo mais escuro, viu os olhos castanhos e a pele marrom clara de uma menina mais nova que ele. A menina vestia um vestido branco, sorria para ele e lhe estendia a mão. Júlio César, que nunca tinha visto nem cor nem menina nem sorriso nenhum, começou a gritar e a chorar e voltou a ver tudo branco. Alguém chegou, segurou sua mão e o ajudou a descer as escadas até o salão de onde vinham o som dos cantos e dos tambores.
Assim que ele pisou no salão, os cantos e tambores sumiram. Só apareciam algumas vozes de criança e, mesmo chorando e gritando, Júlio César percebeu que as vozes falavam como criança mas eram de adulto. Alguém lhe tirou os olhos escuros, ele tomou coragem e abriu os olhos. Não viu os óculos, não viu a mão que segurava a sua mão, não viu a sua mão, não viu nenhum adulto. Mas viu, no centro do salão, a menina de olhos castanhos, pele marrom clara e vestido branco. Também viu outras crianças menores que ele: um menino com uma cobra nos ombros; outro menino com chapéu de marinheiro; e duas meninas, uma de pele branca quase rosa e outra de pele preta quase azul, de mãos dadas. Todas as crianças bebiam guaraná, vestiam roupas brancas e comemoraram quando ele chegou.
“Ó, o amigo gandi segou”, a menina de vestido branco disse com a voz da tia Márcia.
Júlio César tremeu de medo e quis fechar os olhos, mas as crianças eram bonitas, as cores eram bonitas, a cobra, o chapéu de marinheiro e as garrafas de guaraná eram bonitas. Ele lembrou da tentações que o pastor tanto falava, lembrou dos desviados que a mãe tanto falava, lembrou que ele estava num lugar onde odiavam Jesus e pediu pra ir embora.
“A moxa gandi vai falar com voxê. Aí voxê vai”, a menina de vestido branco disse. Ela rodopiou três vezes e sumiu. Logo depois, rodopiando três vezes no sentido contrário, apareceu uma mulher muito alta, de pele marrom escura e cabelos escorridos.
“Êxe, Lume. Xê bem vindo a xua caja, quianxa.”, a mulher disse com a voz da tia Márcia.
Júlio César queria muito, mas não conseguia fechar os olhos, achava a mulher bonita, as crianças bonitas – achava que ver era uma coisa muito bonita. Também não parava de chorar e de orar pro Senhor lhe proteger.
“Xê xeu Manel, je toca pro pai de cabexa dexa quianxa”, a mulher disse. Júlio César não conseguiu ver o homem dono da voz bonita, que bateu leve no tambor e cantou:
“Ogum em seu cavalo corre
e a sua espada reluz
Ogum, Ogum Megê
Sua bandeira cobre os filhos de Jesus,
Ogunhê”.
Então Júlio César viu, em cima da cabeça da mulher e das crianças, bem perto do teto, sua mãe, um home de pele preta e armadura e um homem de cabelos compridos e pele de todas as cores. Alguma coisa nos seus olhos lhe disse que o homem de pele de todas as cores era Jesus, sua mãe era sua mãe e o homem de pele preta não era do mal. Os três lhe sorriam, ele sorriu de volta e, pela primeira vez na vida, não sentiu medo por não ver tudo branco.
- Árvore associada ao orixá Iroko, ou Tempo.
- Obaluaiê, orixá das chagas e da cura, usa banho de pipoca para tratar doenças.
- A mãe pequena ou pai pequeno é a segunda pessoa mais importante na hierarquia do terreiro.
