Clayton acordou ainda de madrugada. No teto, o vulto da luminária apagada parecia o umbigo apontando de uma mortalha. Esperou sem se mexer com a intenção de ouvir o ressonar que tanto o tranquilizava. Quando conseguia confirmar que a mulher estava dormindo, Clayton sabia que era possível rolar na cama, apoiando-se no ombro oposto, sem correr o perigo de acordá-la. Maria Flora tinha o sono cada vez mais pesado.
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“O senhor está bem, pai? Lembra que dia é hoje?” Clayton jurava que era sexta-feira, mas deixou que a filha continuasse. “Já passou um ano.” Ele fez cara de quem sabia do que se tratava. Com o tempo, tinha se acostumado a assumir a expressão que as pessoas em volta esperavam dele. Era mais fácil do que fazer um esforço para se lembrar de alguma coisa em particular, o que sempre gerava reações condescendentes e conversas que não levavam a nada. Fazendo seu jogo, as pessoas simplesmente cansavam de perguntar e o deixavam em paz. E ele só precisava de paz. A mulher que não era mais sua filha encostou o braço nele no movimento de apoiar alguma coisa na mesa. O esbarrão fez Clayton abandonar seus pensamentos. Esticou os braços para apanhar a colher e o copo de gemada.
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Ele permaneceu no banco de cimento na frente da casa até se certificar de que não havia gente por perto. Tentou aspirar o perfume das camélias que deviam estar bem perto dele. Esticou a mão na direção do arbusto de flores brancas plantado junto ao muro baixo da rua. Elas estavam lá, mas não o cheiro que fazia com que os vizinhos viessem perguntar qual era o segredo do jardineiro. Clayton começou o processo de se ajoelhar. Ainda bem que ninguém podia vê-lo naquele ângulo do jardim. As pessoas ficavam incomodadas com a lentidão de quem acumulou cálcio nas articulações. Os joelhos rangem, as costas doem. Ele suportava bem a dor, mas abominava a piedade.
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Num impulso, Clayton inclinou de leve a cabeça até o prato que lhe fora servido. Alguém que não o conhecesse poderia pensar que estava dando graças pela refeição. Mas não havia ninguém estranho à mesa. Como era impossível enganar a própria família sobre uma conversão religiosa àquela altura da vida, recuperou a postura ereta o mais que pôde e tentou identificar o cheiro que subia do prato. Presuntada, era isso. Toda segunda-feira, sua mãe preparava presuntada no almoço. Ele e os irmãos às vezes resmungavam ao verem a fatia avermelhada de consistência molenga e gosto indefinível. Quando o coro de reclamações ficava alto demais, ela se levantava da mesa bufando, passava farinha nas fatias e as torrava na frigideira. Aquela coisa à milanesa ficava mais palatável, mas ainda era aquela coisa. “Vô, não quer comer? Tem vitamina, vai fazer bem. E o senhor gostava tanto de salmão…”
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Clayton tirou a camisa do pijama e se olhou no espelho. Viu seu pai. O mesmo torso magro de costelas vincadas, os braços quase sem pelos. Espalhou espuma de barbear no rosto um pouco mais pontudo que o do velho e despido do bigode característico dele. As sobrancelhas, no entanto, exibiam os mesmos dois centímetros de largura. Ele só estranhava que os cabelos encaracolados de que se lembrava bem – “cabelo ruim”, dizia sua mãe – eram mais escuros que os seus. Como isso era possível? Pensou que dom Pedro pai também era mais jovem que dom Pedro filho.
A hora do banho sempre trazia lembranças para Clayton. Em criança, relutava entrar na tina de madeira. Fazia frio. A mãe esquentava a chaleira e despejava o jorro direto em sua cabeça, quase queimando o couro. Anos depois, quando a água vinha de um cano na parede, ele umedecia uma toalha para se limpar. Usava os dez minutos que eram só seus para atividade mais divertida. Mesmo com a instalação do chuveiro elétrico, deixava a água cair intacta no tapete de borracha. Sentava na louça para pensar na vida. O tempo entre as quatro paredes de azulejo eram o seu tempo. Maria Flora batia na porta, avisava que a comida ia esfriar.
Abriu o registro e acompanhou o caminho da água que redemoinhava nos ladrilhos azuis antes de desaparecer no ralo. Ouviu o clique da maçaneta se abrindo. Maria Flora pôs a cabeça para dentro. Clayton viu a camélia do jardim que ela havia entremeado nos vastos cabelos escuros e, como percebeu em seguida, perfumados. Ela entrou sem falar nada, o sorriso discreto de dentes salientes, um seio saltando fora da camisola. Clayton ficava impressionado como, passados tantos anos, sua epiderme permanecia firme nos lugares certos. Estendeu a mão para ajudá-la a entrar no box.
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“Vô, ainda não está pronto?” A neta mais velha, Cláudia ou Cleide, ele não conseguia se lembrar, entrou no quarto de beicinho, fingindo-se brava. “Já tá todo mundo no carro. E o cemitério fecha às seis.” A bronca falsa se desfez e ela se abaixou para ajudá-lo a calçar os sapatos pretos de verniz. Parou diante da porta da rua, virou-se para ele e desentortou sua gravata. Seu olhar era de afeto. “Ainda temos que passar na floricultura.” O que ela não sabia era que, naquela mesma tarde, Clayton já tinha colhido a camélia dos cabelos de Maria Flora.
