Era 25 de setembro. Na porta do quarto cor de rosa, a menina balançou a cabeça para cima e para baixo três vezes. Seus cabelos presos em dois pompons de maria-chiquinha balançaram também. Bateu com o nariz na testa careca do homem e riu, porque pensou que se ele não fosse careca os cabelos fariam cosquinha no seu nariz e ela iria rir. O homem não riu e chegou mais perto do rosto dela, a fez soltar a boneca e segurou suas mãos.
“Você entendeu, Adriele?”, o homem perguntou.
Adriele balançou a cabeça para cima e para baixo duas vezes.
“Entendeu o que vai acontecer se você não cumprir a promessa?”, o homem perguntou.
Adriele balançou a cabeça para cima e para baixo uma vez. Se parasse de balançar, talvez ele pararia de perguntar. O homem se levantou e esticou a mão para Adriele. Ela pegou na mão do homem do homem com uma mão, com a outra pegou a boneca e os dois passaram pela porta cor de rosa do quarto e andaram pelo corredor escuro.
A sala estava menos escura, porque o sol estava nascendo. Na sala, com cara de sono, estavam um menino gordinho de cabelos raspados na parte de baixo e cabelos para cima no resto da cabeça e uma menina muito alta de cabelos penteados para baixo. O menino gordinho dizia que os cabelos da menina muito alta pareciam de boi lambeu. Adriele sempre ria quando ouvia isso, pois pensava que o boi tinha lambido os cabelos do homem, mas como eram muito gostosos o boi não resistiu e comeu tudo.
O homem colocou Adriele ao lado do menino gordinho e soltou sua mão. O menino gordinho estava ao lado da menina muito alta. O homem foi até a estante da sala e pegou um livrão preto com letras douradas na capa, abriu, procurou uma página, tirou dinheiro do bolso, colocou na página e fechou o livrão. Depois parou em frente à menina alta.
“Se tiver alguma emergência, pode pegar lá”, o homem disse. “E também pode ler o salmo onde coloquei o dinheiro. Só se tiver emergência, ouviu?”.
A menina muito alta balançou a cabeça para cima e para baixo uma vez.
“Bença”, a menina muito alta disse e o abraçou.
“Deus abençoe”, o homem disse e se soltou do abraço. Olhou para Adriele e o menino gordinho. “Vocês obedeçam a Cloé. E nada de reclamação”.
Adriele e o menino gordinho balançaram a cabeça para cima e para baixo duas vezes.
“Juízo, viu, seu Abner”, o homem disse.
“Bença”, Abner disse e o abraçou.
“Deus abençoe”, o homem disse e se soltou do abraço. Parou em frente a Adriele, ficou na altura dos olhos dela e a abraçou.
“Não esquece da promessa. Confio em você”, o homem sussurrou no ouvido dela. Adriele balançou a cabeça para cima e para baixo três vezes e se soltou do abraço.
“Tchau, papai”, Adriele disse.
“E o que mais?”, o pai perguntou.
“Bença”, Adriele disse.
“Deus abençoe”, o pai disse e beijou a testa de Adriele, que achou aquilo tão molhado quanto lambida de boi e limpou o beijo com a mão. Ele se levantou, pegou uma mochila preta em cima do sofá e saiu pela porta. Adriele subiu no sofá e viu pela janela o pai entrar no caminhão, que acendeu umas luzes, fez vrum bem alto e se afastou até as luzes sumirem. Cloé deu pão com manteiga e café com leite para Adriele e Abner e arrumou suas mochilas. A mochila de Adriele era rosa com o desenho de um grande barco de madeira cheio de animais. A mochila de Abner era azul com o desenho de uma bola de futebol em chamas, como um cometa. A mochila de Cloé era preta. Ela lavou a louça, abriu a porta e saiu com os dois, um em cada mão. Quando o dia já estava quase nada escuro, pararam na porta da creche.
“Você vai trabalhar depois da escola?”, Adriele perguntou.
“Vou”, Cloé respondeu e deu um beijo na bochecha de Adriele. “E hoje vai ter miojo pro jantar”.
Adriele sorriu e não limpou o beijo; porque o beijo da Cloé não parecia lambida.
“E você direto pra casa, viu, Biné”, Adriele disse.
“Me erra, sua chata”, Abner disse para Adriele e lhe mostrou a língua.
De dentro do portão da creche, Adriele viu os dois se afastarem pela rua até sumirem.
Quando o dia começava a escurecer, Abner chegou na porta da creche para buscar Adriele. Assim que ela pegava na mão dele, Abner soltava.
“Você leu já leu a bíbia hoje?”, Adriele perguntou.
“Lê você, sabichona”, Abner respondeu.
Adriele ficou menos incomodada por não saber ler e mais por não ser levada a sério pelo irmão. Mas se ele não levava nem a igreja a sério, imagina ela. Na porta de casa ela viu, no final da rua, uns meninos jogando taco no meio do asfalto, sacudindo os pedaços de madeira e chamando Abner para brincar. Um menino de camisa branca e um colar azul se afastou do grupo e veio andando até eles. Adriele gritou que estava apertada para ir ao banheiro e empurrou Abner para dentro de casa. Pegou um banquinho rosa no quarto rosa e sentou na porta de casa, de olho em Abner até Cloé chegar.
A irmã deixou umas sacolas na pia da cozinha e a mochila preta em cima do sofá. Adriele tentou levantar a mochila, mas era muito pesada. Cloé desmanchou o penteado de maria-chiquinha de pompons da cabeça de Adriele e a levou para o banho. Antes de entrarem no banheiro, Adriele pediu para Cloé trancar a porta da rua e esconder a chave. De banho tomado, com o cabelo penteado e besuntado de creme, ela ficou de pé ao lado da mesa da cozinha. Abner a colocou de má vontade na cadeira, esbarrou na sua cabeça e limpou as mãos com nojo. Os três comeram miojo e Cloé colocou os irmãos na cama. Do quarto rosa, Adriele ouviu o som que vinha do celular de Cloé, na sala, até adormecer:
“Atenção no bizu, galera. A fórmula da aceleração é mais fácil que tirar doce de criança”.
No dia seguinte, Adriele seguiu de olho em Abner desde que chegou da creche. O menino de colar azul passou na janela carregando uma caixa de doces, chamou por Abner, que estava no banheiro, e perguntou se ela queria um doce. Adriele balançou a cabeça para a direita e para a esquerda três vezes. E disse que o irmão não podia comer doce, se não ia morrer.
“Ele não tá tão gordo assim”, o menino de colar azul disse, riu e foi embora carregando a caixa de doces.
Cloé chegou, deu banho e penteou os cabelos de Adriele, mandou Abner para o banho e depois serviu frango com molho de tomate e milho. Depois do jantar, Abner ficou assistindo a um desenho de luta, Cloé ficou escrevendo no caderno e Adriele ficou pedindo para ver “o vídeo da tia Ana”. Depois que Adriele chorou um pouquinho para Abner, tomou um empurrão dele e chorou mais um poucão, Cloé arrancou o controle do irmão. Pôs um vídeo do YouTube em que Ana Paula Valadão cantava cercada de crianças num fundo de tela multicolorido. Adriele dançou e cantou a música olhando para Abner:
“Quem pecar vai pagar
Quem pecar vai morrer
Mas Deus não iria deixar
Aqueles a quem ele ama
Sofrer sem parar…”
Depois de pular bastante, Adriele dormiu bem rápido, no sofá mesmo. Antes de adormecer, ainda conseguiu ouvir do celular de Cloé:
“Bora lá, galera. Bhaskara também é mais fácil que tirar doce de criança”.
Quando os três irmãos saíram de casa de manhã, já havia uma agitação na rua. Um carro parou na casa do menino de colar azul e pegou um monte de saquinhos de papel bem estufados. Adriele botou toda sua força nas perninhas e apertou o passo o mais que pôde. Na porta da creche, repetiu para Abner não ficar na rua e não demorar para buscá-la. No fim da tarde, voltando para casa da creche, Abner segurou a mão de Adriele durante todo o caminho. Um monte de crianças passavam correndo com saquinhos estufados na mão. A casa do menino de colar azul estava cheia de gente, com uma música muito alta e papéis coloridos pendurados do lado de fora. Na porta, tinha uma fila enorme de crianças para pegar um saquinho estufado. Adriele apertou forte a mão de Abner e o puxou para casa.
Abner foi na cozinha e pegou um biscoito com leite para Adriele, pegou seus lápis de cor que ele nunca emprestava e perguntou se ela queria desenhar. Adriele balançou a cabeça para a direita e para esquerda uma vez. Abner pegou suas revistinhas do Smilinguido que ele nunca emprestava e perguntou se ela queria ver. Adriele balançou a cabeça para a direita e para a esquerda duas vezes. Abner perguntou se Adriele queria ver o vídeo do 3 Palavrinhas no YouTube. Adriele não resistiu e balançou a cabeça para cima e para baixo três vezes.
“Você jura que não sai?”, Adriele perguntou.
“Juro juradinho”, Abner respondeu e ligou a TV. Pôs um vídeo de um desenho animado com de um homem, uma criança e uma mulher fugindo de uma cidadezinha no deserto. Adriele começou a pular e a cantar bem alto, acompanhando a música:
“Ouça agora essa história
De uma mulher que se deu mal
Só porque olhou pra trás
Virou uma estátua de sal!”
A mulher do desenho animado de repente fica toda branca e congela. Nessa hora, Adriele olhou para trás e não viu Abner. Ele tinha sumido. Correu para a janela e viu o irmão com um saquinho de papel quase murcho na mão e a cara toda lambuzada de açúcar. Quando Cloé chegou em casa, encontrou a menina chorando sem parar.
“O que foi, Dridri? Calma, o papai já vai chegar”, Cloé disse.
“Eu sei. E ele vai brigar comigo”, Adriele disse entre soluços e catarro.
“Mas o que foi que você fez?”.
“Eu me distraí, o Biné saiu e comeu o doce do demônio”, Adriele disse, puxou os cabelos com força e balançou a cabeça muitas vezes em todas as direções. “O Biné comeu o doce do demônio e agora ele vai morrer”.
