por Américo Paim
Um cachorro morreu.
Foi o que conectou as histórias de Hélio, o Caniço, e a bela Adriana. Ele com nove anos e ela doze. Moravam próximos, em um condomínio de casas. Ela na rua de cima e ele na de baixo. Ela tinha um amigo muito próximo, o Cristiano. Ele tinha dois amigos: Zé Bolo e Ensopado. Ele começando a andar de bicicleta. Ela tinha um cachorro. Ele veio sem controle, depois de uma ladeira. Ela esqueceu o portão aberto. Ele passou por cima de Brigadeiro.
Anos depois, ele com doze anos estava cansado do bullying que sofria. O achavam nerd. Ele queria ser popular. Na escola estava difícil. Em casa, uma chance: entrar para a turma da rua de cima, barra pesada, a dos caras mais velhos, fortes e escrotos. Por isso aquele encontro, fim de tarde na Rua dos Coqueiros. Ele nervoso. Quando o avistou a se aproximar, não tinha mais volta. Porra, ele veio. O que será que ele vai dizer? Entulho tinha quinze anos, nem magro nem gordo, de cabelos encaracolados, orelhas quase de abano. Vinha descalço, camisa vermelha e short que um dia foi branco. Tinha algo nas mãos. A rua quase deserta. Acho que ele tá calmo, deve ser bom sinal. Embaixo de uma amendoeira, Caniço, magro como uma tripa, os pés estropiados, pernas longas e finas, cabelo lambido para a esquerda, se balançava, coçava a cabeça.
– Cê se acha esperto, véi? – falou Entulho.
– Que foi que eu fiz?
– Seus amigos otários tavam lá na esquina.
– Quem?
– Zé Bolo e Ensopado. Falei você sozinho.
– Tô só, pô. Tá vendo alguém aqui? Nem conheço esses caras.
– Não sou idiota. Se lhe ajudarem, tu não entra e apanha, oreba. Vocês todos.
– E então? – disse Caniço, aflito.
– Vou lhe dar uma missão de três dias. Se cumprir, tá dentro.
– Certo.
– Se falhar em alguma etapa ou abrir o bico, perde e surra.
Trairia seus amigos pela popularidade. Queria ser respeitado no Condomínio das Árvores. Achava que valia o risco. Entulho lhe deu uma pequena caixa amarrada com barbante e riu discreto. O teste começava ali. A primeira tarefa em um papel dentro dela. Que cheiro da porra é esse? Sacanagem, né possível! Desatava o nó e a inhaca aumentando. Caniço entre cuspes e tosses. Abriu a caixa. Cheia de bosta. Entulho ria diante das caretas de nojo. Que merda é essa? Vou ter que passar por isso? Meteu a mão esquerda no cocô. Descobriu o papel grampeado, o que lhe obrigou a sujar a outra mão. Estava escrito: “1ª tarefa – passar a noite na casa da papeira. Se topa, passe as duas mãos na cara agora”.
– Aí é foda. É mal-assombrada, vou ficar doente!
Entulho gargalhou alto e avisou: seria naquela noite. Na manhã seguinte, a segunda tarefa. Que não tentasse enganar. Carnegão, da turma da rua de cima, morava de frente para a tal casa e iria vigiar. Porra, quéqueuvoufazer? Queéqueeuvou dizer a mainha pra dormir fora? A caminho de casa, se bateu com Zé Bolo, que não perdoou o fedôr e o encheu de perguntas. Desconversou grosseiro e o despachou. É por causa desse povo abestado que eu tô assim. Zé Bolo saiu puto e na sequência, contou tudo para Ensopado.
A casa da papeira foi batizada assim porque um menino encostou no muro para conversar com amigos. No dia seguinte pegou papeira. Como a casa era estranha, tinha uns rituais à luz de velas na garagem, ouviam-se cânticos desconhecidos vindo de lá e quase não se via moradores, tornou-se local enfeitiçado para a garotada. Seria prova de coragem passar a noite ali. Tomou banho, espalhou perfume no banheiro e inventou que ia passar a noite na casa de Ensopado. Meteu um sanduba no bolso e foi encontrar Entulho, que queria vê-lo entrar. É só pular o muro sem tocar nele. Fico ali atrás das árvores. Num tem cachorro e ninguém vai ver. Correu e pulou como nas competições de salto em altura. Comemorou alto. Se embrenhou atrás das graxeiras floridas. Entulho foi embora. Caniço tomou chuva, bicada de passarinho, susto com barulhos, mas pela manhã pulou de volta e gritou: “Eu sou foda!”. Entulho, do outro lado da rua, veio falar.
– OK, pirralho, vou considerar.
– Entrei para a turma?
– Oxe, tá leso? Vamos pra segunda tarefa.
Atravessaram a rua. De trás de uma lixeira, Entulho retirou uma garrafa de vidro, gorda e transparente, com tampa plástica roscada. Dentro, um monte de terra até a metade, com um formigueiro das pretas, miudinhas e mordedoras. Um papel com instruções estaria colado no fundo. Porra, lascou! Como vou tirar essa merda? Entulho avisou: se jogasse a terra no chão, perdia. Caniço sacudiu a garrafa e só animou as formigas. Taquiupariu, pra que me meti nisso? Vou é vazar daqui. Entulho colocou pressão:
– É pra hoje?
– Calma, tô me concentrando.
– 30 segundos, bora!
– Porréessa?
Eu devia quebrar a garrafa na cabeça desse fidiputa e vazar do país. Caniço respirou fundo, abriu e meteu a mão. Muitas picadas depois, alcançou o bilhete, melado de mel, para piorar. Gritando de dor, abriu rápido e leu: “Descer a ladeira do juazeiro de bicicleta, direto até o campinho do sapo”. Olhou triunfante para Entulho e seu riso escroto de canto de boca. Porra, é inclinada pra caralho, mas tá mole. Esse otário tá pensando o quê? Aqui é Caniço, pai!
– Vai na bicicleta que vou lhe dar.
– Eu tenho uma!
– Tá surdo? Ou é burro? Duas horas lá na escola São João.
Caniço correu de volta para casa e encontrou Ensopado no portão.
– Quequecêtá aprontando, véi?
– Tá falando comigo?
– Cê se fodeu. Minha mãe encontrou a sua e disse que tu num dormiu lá.
– Eita, lascou tudo…
– Tavaonde?
– Num é da sua conta e tu num ia acreditar mermo.
– Sou seu amigo, mané.
– Por isso é que eu tô lascado. Olhe, me deixe, viu?
– Num vai abrir o que tá rolando?
– Minha cabeça. Chega de papo – ele foi sem olhar para trás.
Não demorou a sair outra vez. Queria evitar a mãe. Ela pegaria pesado com a mentira dele. Depois eu falo com ela, invento uma desculpa. Já tô fodido mermo…
Na hora marcada, chegou ao topo da ladeira. Entulho estava lá, mas não sozinho. Além da bicicleta, em uma coleira resistente, Agreste, o seu pastor belga, cão enorme e feroz, terror da vizinhança. Quéquesse diabo tá fazendo aqui? O cão latindo para ele. Entulho lhe deu a bicicleta e as regras. Descer direto até o campinho do sapo. Se reduzisse, parasse ou caísse, perdia tudo. Para garantir o cumprimento das regras, a bike não tinha freios! Caniço se tocou que eram três cruzamentos até o campinho. Era suicídio. O cara quer me matar!
– Tu tá louco, vou nessa porra não.
– Desiste? Tu é um frouxo!
– Não, não!
Pensou num zigue-zague para reduzir a velocidade. Entulho avisou que, para incentivar a corrida, iria soltar Agreste depois de 30 metros. Menino louco, véi! Pulou na magrela e acelerou. Entulho saiu atrás dele com o cachorro. Caniço, apavorado, logo estava à toda. No primeiro cruzamento, passou ileso. No segundo, atravessou e um fusca cruzou milésimos depois, cantando pneus, motorista a xingar. Perto do terceiro, uma senhora passava distraída. Ele desviou forte, equilibrando na habilidade e um ônibus atravessou segundos antes dele passar. Aí foi só esperar a pancada na calçada baixa à beira do campinho. Como um ás do guidão, levantou a frente da bicicleta, mas não evitou a pancada do pneu traseiro, rolando na terra batida até a marca do pênalti da outra área. Levantou-se meio grogue. Percebendo que não estava quebrado, comemorou gritando: “Eu sou foda!”. Minutos depois, Entulho chegou.
– Qual a próxima? Fale!
– Calma. Você arregaçou minha bike.
– Eu lhe disse que tinha uma.
– Você não fala aqui, só escuta.
A terceira tarefa seria na noite do outro dia: invadir a casa de Seo Pratinho e abrir uma caixa que estaria na varanda. Se fosse descoberto, perderia tudo. Caniço desconfiou. O que esse filho da puta tá armando? Será que vai ter gente em casa? Aquele véio é doido. O apelido dele foi colocado pelos meninos porque um deles almoçou lá um dia e contou que o velho era tão pão-duro que a comida vinha em prato de sobremesa. E ele era brabo e xingava fácil. Entulho avisou que estaria lá para vêlo entrar e sair.
Ele passou o dia seguinte quieto, massacrado por perguntas da mãe. Como não foi convincente, ganhou um castigo. Não poderia sair. Agora, além de mentir, teria que fugir para cumprir a tarefa.
Escapou pela janela do quarto e nove e meia estava lá. Subiu em um flamboyant que ficava em frente à casa. Viu os portões laterais fechados. A porra do cachorro tá preso. Passou para o muro e desceu no jardim, protegido pelo escuro e pelas plantas densas. A pequena varanda, iluminada, a quinze metros de distância do portão. Esperou cinco minutos e foi pelo canto do muro, até o limite da vegetação. Agora iria descoberto até a varanda. Uns cinco metros. Ficou de pé e andou devagar. Aí ouviu a gritaria do lado de fora: “tem boi na roça, tem boi na roça”. De um pulo, se jogou de volta nos arbustos. Seo Pratinho surgiu na varanda, de pijama, faca na mão: “Quem está aí?”. Caniço ouvia as risadas na rua. Entulho não tá sozinho. Desgraçado. Vou matar um por um. Lembrou até de seus amigos, já arrependido. O velho entrou. Eu devia me mandar. Mas agora, tão perto? E a caixa? A luz de dentro da casa apagou. Reuniu coragem e foi à varanda. A caixa era preta, sem barbante. Cheirou e sacudiu. Nada. Abriu debaixo da luz. Um brigadeiro, nenhum bilhete. Ainda tentava entender quando ouviu um clique. Pensou ser a porta. Era o portão. Virou-se e contemplou Monstro, o cão de Seo Pratinho. Ao soltar a correia do bicho, Entulho, ou melhor, Cristiano, sorriu cruel. Lá fora a turma da rua de cima ouviu, entre latidos: “Me fodi”.
Ninguém esqueceu o portão aberto.
Um cachorro matou.
