Sol de verão (de Carol Schettini)
Lembra, lembra, lembra. Catarina abre os olhos e nada vê. Está escuro. Muito escuro. Deitada, vestida com uma camiseta de malha, roda as pupilas de um lado para o outro para tentar se adaptar à escuridão. Em volta, um breu. Na sua cabeça, um branco. Virando o corpo de lado, estende o braço e encosta em alguém. É um homem. Está sem blusa e com a pele suada. Sua mão gruda. Ai, que nojo, que nojo, que nojo. O coração pulsa em ritmo de samba. Cega, volta à posição inicial. Respira, lembra, respira. Catarina puxa o ar para dentro e solta com força contando até dez. Um dois dez um dois dez. O homem mexe colocando o braço em cima do seu corpo frágil. Ela para a contagem e puxa o ar para dentro. O homem está próximo dela, bem próximo. O cheiro de cerveja e hálito velho ecoa no ar e entope seu nariz. Vou sufocar. Catarina esperneia de um lado para o outro, joga o braço do homem – que não acorda – para cima, ele vira para o outro lado num sono profundo. Lembra, lembra, lembra. Catarina senta na cama e segura na estrutura que parece um dossel sem pano algum. Madeira. Por certo escura, não aparece nada. Se fossem claras, talvez brilhassem. Catarina fica em pé e tonteia. Lembra, lembra, lembra. No silêncio do quarto, ao esbarrar na mesinha de cabeceira, promove um estrondo. O homem não acorda, Catarina, ele murmura e volta a roncar mais alto, rolando para o outro lado do colchão. Catarina anda com os braços para frente investigando o ambiente com as mãos e encontra uma parede. Degraus. No quarto havia degraus. Lembra. Se subir, pode encontrar a porta e sair dali. Eram quantos? Sobe um, sobe dois, sobe três e cai no quatro. No escuro, estatelada no chão frio de mármore. Vou morrer aqui. Consegue se levantar para procurar a porta. Trancada. Não é um hotel? É um hotel? Quem tranca a porta de hotel? Como tranca uma porta de hotel? Catarina mexe os braços em uma dança louca procurando pelo interruptor de luz. Lembra, lembra. O terceiro de cima para baixo acende a luz do banheiro. Por que não funciona? Merda! Preciso sair daqui. Catarina tropeça num monte de panos. Casacos. De lã? Deve estar frio lá fora. No escuro faz calor. Ou a pele esquenta quando não se sabe o que está acontecendo? No bolso do casaco, encontra um vidrinho lotado de pílulas. O conteúdo todo é derrubado quando ela abre e entorna na sua mão. Pílulas pequenas sem cheiro. Não é hora de tomar nada, Catarina. Vem pra cama. O homem enxerga no escuro? Catarina não se lembra porque o homem fala assim. Pausado. Com propriedade. O remédio? Os panos misturados às pílulas servem de almofada para ela sentar, com as pernas dobradas, sente o coração bater no funk da quebrada, cada vez mais alto. Culpa dos sopros que arrepiam sua nuca. Quem mais tá aqui dentro? Não tem como imaginar um ar condicionado no teto, sem luz, sem barulho. Em casa, o ventilador apita enquanto roda. No ambiente moderno, os donos do barulho são espíritos, monstros, alucinações. Vem deitar, Catarina, o homem balbucia. Um elfo. Como no poema. Os olhos de Catarina esticam para cima, a ponto das pálpebras desgrudarem do rosto. Vem logo, o homem insiste. Catarina desce os degraus sentada e se arrasta até a cama. O corpo em formato de tábua. Dura. Os músculos tremem. Quem é esse homem, meu Deus?! Se ele for mesmo o elfo? Os dedos abertos contorcem em crise de reumatismo. Tem certeza de que não são só seus poros que suam frio, seu sangue todo está frio. Preciso sair daqui antes que ele me pegue. Catarina rola para fora da cama, repete todos os movimentos mesinha parede interruptor. Não sobe os degraus, passa por eles andando com as pernas abertas de lado, uma dança de siri. Não posso cair, não posso cair. Um líquido escorre dos seus joelhos, se suas veias carregam sangue congelado não pode ser sangue, talvez, suor. Lembra, lembra, lembra. Não lembra. Preciso fugir. Pé ante pé, com os braços esticados à frente do corpo, chega ao outro lado do quarto. Seu coração marca o compasso na sinfonia de Schubert. Pano de veludo na parede. Uma cortina. Atrás de uma cortina sempre há um voal e uma janela e atrás da janela, ar. Catarina usa as mãos em forma de pinça para deslizar o pano morosamente com o mínimo de som para o homem não perceber sua manobra. Ao encostar em suas costas, viu sem ver o tamanho do homem: grande, maior do que ela, um gigante. E a voz? Voz de elfo. No poema, o elfo mata o menino. Ao terminar de puxar a cortina, pouca diferença faz no escuro do quarto, a janela de vidro está fechada e ainda há uma janela de madeira. As duas janelas são abertas de supetão por Catarina, encontrando uma noite sem lua. Um poste alaranjado lança sombra no fim de noite, clareando em degradê, nascendo para Catarina um sol de verão. Vou escapar.
Catarina, não!

