
, disse ela, rindo.
E como é isso?
Ah, funciona assim: eu fico ali sentada no precipício, aí você vem correndo rindo e me dá um empurrãozinho.”
O microconto acima, de Millôr Fernandes, escrito lá pelos anos 50 (cito de cabeça), se aplica à perfeição para definir o mood deste conto de George Saunders. Inventivo contador de histórias, o texano é dono de uma verve provocativa, irônica e quase sarcástica, porém contida por um texto enxuto, lacunar, sutil, que deixa com que as principais motivações do enredo fiquem subentendidas e escondidas. Neste “Carta de amor” (Dia da Libertação, Cia das Letras), um avô afetuoso se dirige ao neto, preocupado com a detenção ilegal de sua namorada, que protestava contra a crescente fascistização da sociedade e da vida pública estadunidense – que, mesmo sob Biden, como vemos, não diminuiu. A ironia se coloca pelo modo como o avô alude sutilmente à corrosão da democracia nos EUA sem mencionar diretamente os fatos – talvez para proteger o neto, ou para proteger a si próprio, uma vez que teme estar sendo vigiado. Nada é nomeado ou dito com todas as letras – mas o horror está ali, como pano de fundo. Uma prova de que Saunders entendeu direitinho a Teoria do Iceberg de Hemingway: o mais importante nunca se conta. E o bom contista conta simultaneamente duas histórias – uma visível e outra invisível.












PROPOSTA
Pois é isso mesmo o que você vai fazer. Vai escrever uma carta de amor que deixa entrever algum fato terrível sendo escondido.
Lembra da proposta “carta de amor num edifício em chamas“, em que o remetente conversava com o destinatário sobre o passado enquanto se desesperava com o presente e com o futuro próximo? Esta é a pegada da sua carta. (Releia a proposta para recordar.)
É uma carta de amor, então pode ser entre dois amantes, dois conjes, dois amigos, dois colegas de trabalho, dois rivais, dois irmãos, dois parentes, enfim, entre duas pessoas que tenham afeto uma pela outra.
Importante situar onde ambos estão, o que fazem, como vivem, o que os aproxima e o que os distancia.
Aconteceu alguma coisa terrível e o remetente quer avisar, proteger ou contar o que está ocorrendo ao destinatário, mas ele nunca cita diretamente o que está rolando. Você vai se divertir jogando com as entrelinhas. Afinal, algo ainda mais terrível pode acontecer.
Importante. Não fique só contando coisas que já se passaram. Não se esqueça: é uma carta, mas em ficção, a flecha do tempo corre para a frente, para o futuro, para o que virá. Sem isso, não há tensão.
A ideia é exercitar a musculatura da contação das duas histórias, a visível e invisível (releia a aula inicial para se lembrar).
Na primeira pessoa, obviamente, até uns 9 mil toques.
