por Ale Kalko
Voltei pra casa com o que sobrou de você dentro de uma urna funerária de metal fosco. Um montinho de cinzas que se fossem esquecidos no saco plástico na lavanderia podia muito bem passar por areia de gato. Você tá rindo, diz que eu exagero. Foi bem essa a conversa que eu ouvi da moça no celular no ônibus. Mas a pessoa do outro lado da linha, desavisada, mexeu no saco e o gato já tinha cagado nas cinzas da mãe dela. Eu recusei a urna do plano, era de vidro transparente, podia escolher entre umas seis cores muito coloridas. Parecia uma suqueira sem a torneirinha. Daria pra ver as tuas cinzas no saquinho com cara de Tang pra dissolver. Que sabor você teria se alguém realmente achasse que era Tang?
Você no caixão até lembrava você. Assim como o susto que tomei quando me olhei no espelho e tudo que diziam que eu tinha puxado da mãe ficou em segundo plano e tudo que era teu gritava na minha cara. A sobrancelha dupla. O olho da esquerda mais caído que o da direita. O queixo com o furo no meio. Alguma coisa na largura da cabeça.
Mas o berro eu dei por dentro quando eu descobri que as nossas mãos eram iguaizinhas. Me incomodava olhar pra elas martelando o meu texto no teclado, cortando o meu pão, passando a minha manteiga. Nunca mais tirei o esmalte pra ter algo de meu nelas. Será que essas nossas mãos, a minha nervosa esmigalhando o lenço de papel assoado dentro do bolso do casaco e as tuas mortas entrelaçadas pelos dedos tinham puxado as mãos já evaporadas da vó ou do vô que eu não conheci? Nada do que eu tenho em mim é meu. O meu queixo furado já foi também do vô da vó. Essa forma de mão já moldou outras igualzinhas antes. A que plantou um repolho, a que forjou um ferro, a que matou um inimigo numa guerra, a que mediu a febre na testa de alguém querido.
Eu tenho 47 anos. A mesma idade que o vô tinha quando você nasceu. Quando a prima tinha 11 e o primo 16, o tio morreu. O primo morreu uns meses atrás, viveu mais que o tio. Mas deixou a filha de 11 e o filho de 16. A menina tem os olhos e o nariz dele e o menino, o nariz e o queixo. Foi bem estranho olhar a cara dele no caixão parada e dividida viva entre eles dois. Eu envesgava o olho na missa e tinha uma hora que eu conseguia juntar o primo numa cabeça só nos filhos abraçados
O homem que encerra a cerimônia do velório é mais novo que eu. Ele lê o mesmo discurso sempre, só troca o nome do morto. É um texto padrão, com algumas passagens bíblicas. Ele certeza já leu esse texto mais de 50 vezes só essa semana. Ele tenta personalizar com algumas pausas mas mesmo elas parecem forçadas. Ele encerra e avisa que vai fechar o caixão. Ele faz tudo tão automático, pensando na parcela do cartão sem prestar atenção se fechou todos os pininhos direitinho. Será que já no ônibus ele se sobressalta na dúvida a respeito do terceiro pino como quando saímos com sono de casa e não lembramos realmente desligamos fogão.
O pacote do plano funerário inclui uma chuva de pétalas vermelhas saindo do lustre no teto. Um ventinho e algum mecanismo interno faz com que elas caiam quase em câmera lenta mas aceleram em alguns momentos e flutuam até encontrar a tampa do caixão ou o piso de mármore branco. Tem algo de misterioso e cafona. Eu não esperava por isso e quase tive um acesso de riso. Não sei se achei bonito. As pétalas são artificiais. Eu ia levar uma pra casa de lembrança. Mas deu um ruim. Em quantos caixões essas pétalas já choveram?
