Eu não vou lhe mentir

por Américo Paim

Minha querida Dalvinha.

Muita saudade, minha preta, mulher mais maravilhosa que sarapatel com pimenta! Uma namorada dessa é Deus me mostrando que eu sou sortudo! Ainda tá zangadinha por que eu não dei notícia desde que vazei daí? Repare que é injusto. Liguei na segunda semana, lembra? Lhe expliquei do roubo do celular numa daquelas paradinhas do buzão na estrada. Arrumei outro, só que tá grampeado. Aí resolvi mandar essa carta, aproveitando o portador aí pra capital. Pelo Correio não dá. Calma que eu explico tudo, fia.

Já vai pra dois meses que tô aqui em Pedra Velha, numa solidão que só. Sinto muita falta de você, minha absoluta. Lembre disso, viu? E que eu tô aqui pelo nosso futuro, de grana e coisa boa. O pessoal aqui é legal, mas tem uns esquisitos. Tô me acostumando. É quase o tempo todo sol, como tu gosta. De vez em quando vem um vento frio assim do nada. Uns dizem que é da parte do cão, outros que é sinal que vai ter coisa. O povo diz que aqui acontece de tudo, até o que ninguém imagina. Acho crendice, mas sei que tu acredita.

Olhe só, já tô encaminhando o negócio que eu lhe disse. Coisa boa, vou me dar bem. Assim que ficar tudo certo, eu vou lhe buscar. O escritório do trabalho é lá no Morro do Coentro e eu tô na pensão de Dona Fervorosa. É boa gente. Me lembra Tia Duzinha, que foi largada no altar. Como o quarto tava caro, arrumei um sujeito pra dividir. O nome dele é Raimundo e só chamam de Ralo de Pia. Fiquei sem jeito de perguntar por quê. É caladão, não incomoda, só que sai muito à noite e volta já de manhã. Nem é guarda-noturno. Acha que eu devia perguntar? Cê me dá conselho bom. Ah, ele tem um trezoitão, que eu já vi.

Mas eu queria era falar de nós dois, iluminada. Tu já me perdoou? Sacou que era tudo mentira aquilo que eu tava pegando Soraia? Olhe que de primeiro foi a fofoca com Telinha. Foi só um beijo, porque eu tinha bebido demais. Passei mal e a moça me ajudou. Lembra? Foi na época que tu viajou pra ver sua vó, que tava nas últimas. Eu saí com o pessoal, aniversário de Porco Espinho, aquele do cabelinho. Teve o baba de tarde, emendou cerveja e boate. Tudo junto assim, o sujeito não dá conta, né? Disseram que ela apareceu desde cedo. Eu não lembro de jeito nenhum. Sabe quando apaga tudo? Tô escrevendo aqui o que meus amigos me disseram. Cê sabe que eu não minto e lhe conto tudo. Não faço ideia porque acharam de lhe dizer que me encontraram pelado com a moça no quarto do pai dela. Covardia! Se aproveitaram de uma bebedeira. Isso nunca que teve. Fiquei feliz que tu entendeu minha explicação e que tá de boa. É sempre assim, né, minha delícia? E eu fiz tudo que tu queria, não foi? Me afastei dos traíras, fui com tu na igreja de domingo, passear no parque, lhe ajudei a cuidar de sua sobrinha, a levar suas costuras prontas nas casas das clientes. Sou companheiro, tu sabe. Aí me diga: tem lógica espalharem que eu comi Soraia, justo a filha de Dona Crista, sua melhor freguesa? Tá vendo que é mentira? Eu tava foi na igreja, me confessando. Essas coisas só aconteciam quando tu viajava. É má fé do povo invejoso aí do bairro, porque sabe que eu fico muito triste porque tu não tá e não aguenta que minha namorada é mais a bonita. Tu é linda, Dalvinha! Te amo, minha perfeita!

Olhe que eu já conheci foi gente aqui, mas a saudade de tu é tão grande que eu resisto. Tô muito sozinho, uma sofrência que Deus sabe. E tem mulher mais bonita que tu? É nada… E que faça comida gostosa como tu? Oxe, tá doido? Ainda mais que tu me emprestou esse dinheiro. Agora, tu sabe que eu falo mesmo: sei que teu pai diz que eu nunca tive um real, que sugo teu sangue e vivo na putaria com meus amigos. Olhe que isso me dói. Ele nunca gostou de mim, essa é a verdade. Ciúme da filha única! Sua mãe sim, me entende. Mesmo ali na cadeira de roda, com o alzaime dela, tá ali, junto comigo, firme. Eu sou um namorado bom, lhe dou flores e tudo. E ele dizer que eu pegava no cemitério… Minha preciosa, isso nunca que ia fazer diferença, né? Se ali tá tudo morto? Mas foi demais da conta seu pai encher sua cabeça que eu saí da capital fugido. Onde já se viu acreditar naquela história?  Dizer que eu devia dinheiro a Roliço, dívida de jogo? Oxe, o cara é minha pedra, amigo desde pivete. Ainda mais que ele morreu dias depois da conversa com seu pai, naquele acidente horrível, caindo no poço do elevador. Eu tava perto por acaso e fui o primeiro a chegar. Nem respeitou meus sentimentos. E não esqueci que ele envenenou você, dizendo que eu era amante de Flavinha. Não teve consideração nem com a companheira do falecido. Desculpe falar essas coisas de novo, foi só um desabafo. Saí rápido por causa da oportunidade aqui em Pedra Velha. Dalvinha, minha querida, cê é tudo. Se não fosse por tu, nem sei o que eu fazia. E eu tô aqui pra fazer dinheiro e lhe tirar dessa vida de costurar e cozinhar pra fora.

Agora, vou lhe dizer: eu atraio essas coisas doidas, só pode ser. Veja bem, lá no morro tem uma moça. Dagmar, da contabilidade. Novinha, bonita e tal e coisa. Vou lhe contar a verdade, como sempre, porque você é minha deusa: ela se interessou por mim. Foi coisa de dar a mão a quem chega de fora. Lembra seu pai com o menino Osvaldo, que veio lá da roça de seu avô? Então, foi isso. Ela me deu dica de pousada, lugar pra comer e visitar. Toda gentil. Aí eu, pra retribuir, como cê sabe que eu sou, ia almoçar com ela. Daí foi pra um passeio na praça, um sorvete, uma volta de ônibus, coisa à toa, inocente, de amigo. Tu sabe que eu não ia te trair. Ninguém pode falar isso de mim. Só teve aquele caso com Nicinha, e foi ela que me agarrou, isso ficou provado. E que ninguém me fale de Josinete. Foi armação. Desligaram a energia e eu fiquei preso com ela no elevador. Cadê a câmera pra provar que eu fiz mal à moça? Ela aparece grávida e o pai sou eu? Eu até queria fazer o teste de DNA, só por sua causa, Dalvinha, minha dona. Mas a criatura sumiu, ninguém sabe, ninguém viu. Ainda teve alma ruim pra dizer que dei fim na pobre. Me faça uma garapa. Tu acredita em mim e é por isso que eu sou feliz, minha gostosa.

Pois veja só. O pessoal daqui do escritório e mais uns urubus por aí, começaram a maldar e dizer que eu tava pegando Dagmar. Fofoca me persegue, Dalvinha, que coisa! A gente nem ligava, mas começou a complicar porque eu recebi umas mensagens debaixo da porta do meu quarto. No começo, era só piada de mal gosto, daí virou xingamento e ameaça de morte. Eu juro. Fui futucar pra saber mais. Tive no Cabeça Quente, um bar famoso aqui, conversei com os garçons – esses caras escutam tudo, né? Não adiantou. Me mandaram procurar uma cartomante, rezadeira, uma coisa assim, chamada Silveirinha. Só que me contaram cada história da véia que fiquei com medo, não vou mentir. E aí, como tu sabe que sou temente a Deus, fui procurar ajuda na igreja. E não é que deu certo? Conversei muito com Padre Serrado. É jovem, tem uma fala boa – tu precisa ver. Me deu tanto conselho. Parecia tu. E eu encontrei com ele mais vezes. Ele me disse que Dagmar era sobrinha de um tal de Serafim, parente direto do cramulhão. Nessas conversas na sacristia fiquei descobri foi coisa. E tem mais. No Zé Tripa, outro bar daqui, me disseram que eu tava me arriscando porque o bruto era próximo da sobrinha e não ia gostar que eu tava de ozadia com ela. Quer dizer, que o povo falava, entendeu? Eu não tava fazendo nada, juro pela doença de sua mãe! Dagmar falou pra dar um tempo, que tava estranho. Topei não. Tu sabe que não levo desaforo pra casa.

Aí, Dalvinha, minha linda, tudo mudou. Vou lhe contar logo, antes que algum entiqueiro resolva lhe falar sobre o que aconteceu. Aqui é verdade. Anteontem, tava no caminho pra pensão, voltando do trabalho. Eu lhe juro que bateu o tal do vento gelado. Arrupiei todo. Já tava escuro. Assunte: dois caras me pegaram no beco e me desceram a porrada. Eu não tava esperando, foi de jeito. Falaram que era pra eu não me meter com mulher dos outros! Eu apanhando e perguntando quem era a santa. Era Dagmar! Acredite, Dalvinha. Eu todo inocente e a mulher era prometida pra Ralo de Pia, que tava sumido da pensão já tinha tempo, ainda bem. Disseram que tava num trabalho externo pro tal Serafim. E eles me picando a mão. Disseram que era o último aviso. Quando cansaram, me largaram no beco. Andei rápido e lhe digo com pureza, tavam me seguindo. Com medo de ir pra delegacia pra não apanhar mais ainda, despistei os caras e parei no bar. Tomei todas, saí troncho. Me senti sozinho de novo, triste. Aí fui pra igreja, cabeça cheia e certo que Padre Serrado ia me ajudar. Não deu outra. Me recebeu no meio da noite, me socorreu, me deu atenção, comida e água, cuidou das feridas, conversou. Aí, Dalvinha, minha santa, como sempre fui honesto com tu, não vou lhe mentir, vou lhe dizer que não teve jeito: vinho da missa, pãozinho, luz de vela, conversa vai e vem, eu numa saudade roxa de tu, da cor da roupa do moço que parecia uma saia… Eu comi o padre, pronto falei. Acho que foi o tal vento. Olhe que eu sei que isso é uma coisa que talvez tu não goste, mas eu tô tranquilo porque tu me disse sempre: “se for me trair que seja com homem, que vai lhe dar o que eu não tenho”.

Um beijo do seu Marcílio.

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