Oi, papai! Tudo bem com você? Tá se comportando direitinho?
Tô escrevendo porque eu já sei escrever. Você já sabe que eu sei escrever, mas era só bilhete, umas frasinhas. Carta você não sabia que eu sabia escrever, né? Tô escrevendo pra agradecer a bonequinha que você fez pra mim. Ela é feia, mas o que vale é a intenção, né? E tô escrevendo carta porque o tio Valtinho disse que a gente não pode mais ligar. Eu perguntei se era por causa do sinal, mas ele disse que não era, ele disse que era porque aí tava molhado. Lembra quando eu deixei o seu celular vermelhinho cair na privada? Tomara que o seu celular de agora não tenha caído na privada. E tomara que agora você tenha privada, pra não precisar mais usar o penico. Quando você me disse que tinha que usar penico, você lembrou que eu nunca usei, fui direto da fralda pra privada. E aí você riu. Mas eu fiquei triste de saber que você tinha que usar penico. Me avisa se aí já tem privada. Se tiver, eu vou ficar feliz.
Aqui tá tudo bem. Só a comida que é ruim, muita abobrinha e muito agrião. Você sabe que eu odeio abobrinha e agrião. O tio Valtinho me faz comer essas coisas e diz pra eu fazer de conta que é bacon. Mas não é que ele me obrigou não, eu que pedi. Porque outro dia ele me perguntou o que eu não gostava de ser gorda. Ele achou que eu ia dizer que era o bullying, mas eu disse que era a dor de facão. Aí eu tive que explicar o que é dor de facão, porque o tio Valtinho só conhece como pontada no estômago. Ele disse que eu tenho de parar de falar que nem paraíba. Aí eu disse que isso não é falar que nem paraíba, é falar que nem a mamãe, e que eu gosto de falar que nem a mamãe pra lembrar da mamãe. Eu também disse que chamar de paraíba é que é fazer bullying. Aí o tio Valtinho pediu desculpas e disse que ia me ajudar a emagrecer.
Sempre que eu reclamo da abobrinha e do agrião o tio Valtinho diz que eu reclamo de boca cheia, que o seu sonho é poder comer abobrinha e agrião. Eu lembro que você não gostava de verdura, que nem eu. Mas também não gostava da língua de boi e dos miúdos de porco que a mamãe fazia, e eu gosto até hoje, mas aqui ninguém sabe fazer. O tio Valtinho disse que aí você tem que comer lavagem de porco. A sua comida aí também é molhada? Espero que não seja muito molhada, não seja muito ruim e tenha gosto de bacon. A comida daqui não é boa, mas o tio Valtinho faz com carinho. Bem que você avisou que ele era seu único amigo aqui. Ele me deu uma mochila nova pra ir pra escola e avisou todos os meninos da rua pra não fazer bullying comigo, se não ele mata.
Papai, isso que eu vou te contar é segredo, segredão. O tio Valtinho diz que mata, mas não mata nada. Quando aparece barata aqui, eu que tenho que matar. Grandão daquele tamanho e tem medo de barata. Eu tô rindo agora escondido e quando você ler, acho que vai ler na frente dele né, tenta não rir também, tá bom? Quando eu ri e disse que ele tinha medo de matar barata, ele ficou bravo. Acho que foi a única vez que ele ficou bravo. Começou a gritar e eu fiquei com medo. Gritou que quem mata é você. Aí eu comecei a chorar e a bravura dele passou. Aí ele me comprou um x-bacon, disse que eu já sou muito bonita e quando emagrecer vou ficar mais bonita que a mamãe. Aí eu sorri e parei de chorar. E agora eu me comporto direitinho sempre quase, obedeço o tio Valtinho sempre quase e faço a lição de casa sempre quase.
Você também tá se comportando direitinho, né? Se eu começar a me comportar direitinho sempre sempre, o tio Valtinho disse que me leva com ele pra te visitar. E se você se comportar direitinho sempre sempre, quase não vai faltar muito pra você poder vir me visitar e comprar uma barbie bem bonita pra mim. Então você não pode brigar aí dentro, tá bom? Eu não brigo aqui fora, como a abobrinha e o agrião e faço de conta que tem gosto de bacon. Você não briga aí dentro, come a lavagem de porco e faz de conta que tem gosto de bacon. E eu faço de conta que tudo aqui não tem gosto ruim. Faço de conta que não encontrei uma foto da mamãe na gaveta do tio Valtinho, toda manchada de uma gosma branca e com um coração desenhado atrás. Quando ele te entregar essa carta, você faz de conta que ele é seu amigo de verdade, dá um abraço e um sorriso, tá bom? E quando você sair daí, a gente mata ele e vai ser feliz sem fazer de conta.
Com amor de verdade verdadeira,
Laurinha.
