A tela do celular piscou “NÚMERO NÃO IDENTIFICADO assim que Áurea saiu da sala de reuniões. Atendeu num impulso.
“Quem é?”
“Alô… dona Áurea? Aqui é Celeste, gestora do Hospital Israelita Albert Einstein.”
“Ok, Celeste, do que se trata? Estou na correria aqui.”
“Então, dona Áurea… Eu havia falado de realizarmos uma chamada de vídeo para tratar de um assunto delicado.”
“Sim. E eu pedi para minha secretária te enviar algumas possibilidades conforme meus compromissos agendados. E com certeza não havia agenda para hoje, confere?”
“S-sim… Mas é que…”
“Vamos fazer o seguinte. Eu tenho exatos sete minutos para tomar um café antes de entrar em outra reunião. Pode me chamar em três.”
Áurea entrou no banheiro. Tirou o casaco do tailleur cor de cinza e sorriu para própria silhueta malhada pelas aulas de spinning. Molhou o rosto de leve, repuxando arregalando os olhos para esticar as linhas que vincavam sua testa (pensou que estava na hora de retornar à dermato). Ainda retocou o batom e conferiu o resultado antes de sair.
Na salinha de café, acionou o botão da máquina. O cheiro do líquido espesso emanando do copinho de papel sempre a recolocava no estado de prontidão necessário. A reunião com a equipe tinha sido particularmente cansativa; a seguinte, com investidores de fundos de pensão espanhóis, não prometia ser menos tensa.
Deu a primeira bicada tentando imaginar a natureza do assunto que exigia a ligação de uma gestora de hospital. Notícias ruins são transmitidas por médicos. Posicionou o celular na bancada do micro-ondas e clicou na tela piscante.
“Bom dia novamente, dona Áurea”. Na tela, a gestora Celeste exibia um sorriso profissional, em evidente contradição com a voz baixa demais.
“Celeste, não estou te ouvindo direito. É algum problema com minhas biópsias?”
“N-não… quer dizer, sim… e não.”
“Explique melhor, menina. Tenho três minutos.”
“Primeiro quero introduzir o doutor Tiago na nossa conversa. Ele está analisando os resultados, mas quero adiantar que está tudo bem com a senhora.”
“Se estivesse tudo bem, eu não estaria falando com vocês agora, mas sim com o meu médico.”
“O doutor Siqueira já foi informado e…”
“Mas ele ainda não me ligou.”
À direita da cara branca e redonda da funcionária, iluminou-se outro quadradinho, exibindo o rosto de um rapaz magro, bronzeado, com barba aparada a esquadro e sem costeletas. Usava um jaleco azul e uma bandana da mesma cor.
Celeste retomou seu relato: “Bom, o exame no útero extirpado deu negativo, o que é muito bom! As demais peças também não apresentaram sinal de malignidade e…”
“Desculpe interromper, mas me tira uma dúvida. Notei que você separou o útero dos outros órgãos que seriam retirados. O ovário e as trompas também foram tirados, certo?”
“Certo, dona Áurea, todos as peças foram extraídas mas…”
“Bom, já vi que deu problema. A gestora Celeste permite que eu conduza esta conversa? Sabe como é, no mercado financeiro, quando dá cagada – peço que perdoe minha linguagem – quando dá cagada, eu ia dizendo, e são umas duas ou três por dia, nós fazemos perguntas para descobrir onde foi o erro e quem errou, para então sanar logo o prejuízo e evitar novas… complicações, digamos assim.
“Claro, dona Áurea, fique à vontade para fazer perguntas. Estamos aqui para resp…”
“E outra coisa: é doutora Áurea. Tenho dois pê-agá-dês que me dão esse direito. E vocês?”
“Eu sou doutor em medicina”, respondeu o rapaz.
“Fez curso de pós-graduação stricto sensu, a nível de doutorado?”
“N-não ainda, mas…”
“Então é que nem meu filho, que está na segunda residência: graduado em medicina. Bom, vamos adiante. Dona Celeste, o que é que a senhora tanto chama de peças?”
“São os órgãos ressecados.”
“Ressecados?”
“Extraídos… extirpados… retirados.”
“Bom, a primeira conclusão é que os órgãos do meu aparelho reprodutivo foram retirados. Sou favorável a eliminar o mal pela raiz. Se alguma coisa que não tem mais serventia pode apodrecer, é melhor jogar fora, não é mesmo?”
“Doutora Áurea”, o médico de barba aparada tomou a palavra. “O importante é reforçar que a intervenção foi um absoluto sucesso.”
“Tá. Mas e depois da operação? O que foi feito das outras peças? Se não erro as contas, e eu vivo disso, eram três órgãos além do ovário. Confere, Tiago?”
“Confere. Todas as peças foram extirpadas como previsto.”
“E todas foram examinadas?”
“Bom, depois da histerectomia completa, houve um intercorrência que impediu o posterior exame de biópsia e da qual ainda não temos todos os elementos de confirmação.”
“Deixa eu ver se entendi: vocês tiraram meus órgãos, mas alguém se distraiu e jogou alguns deles na caçamba de lixo. É isso?”
“Não temos caçamba no centro cirúrgico, dona Áurea!” A gestora Celeste estremeceu com o olhar de fúria da paciente. Seu rosto adernou para o lado e sumiu da tela.
Logo o quadradinho foi preenchido por um homem de meia-idade. Sua gravata escura estava ligeiramente torta. Acima da máscara cirúrgica, o par de sobrancelhas se movia para cima e para baixo quando ele falava.
“Bom dia, senhora Áurea, meu nome é Weisman. Sou o diretor administrativo do hospital, ao seu serviço.”
“Bom, doutor, então me preste um serviço: se vocês perderam meus órgãos, como vou saber se não tenho câncer?”
“Não se preocupe, senhora Áurea. No momento da ablação, foi feito um exame visual das peças. Estavam todas saudáveis, fui devidamente informado a respeito.”
“Senhor Weisman, doutor Tiago, sinto dizer que meu tempo se esgotou. Para não prolongar mais esta conversa absurda, a partir de agora os senhores vão tratar deste assunto com meu advogado.
“Mas, senhora, não há necessidade disso”, atalhou o diretor. “Uma demanda seria penosa para todos os envolvidos. Além do mais, nossa instituição ganha a maioria das causas e, quando eventualmente perdemos, os valores da indenização são irrisórios.”
“Vou querer receber só um real.”
“Não entendi.”
“Vou pleitear um real para mim, fora os honorários do meu advogado. E saibam que ele é o melhor cível de São Paulo. Cobra muito, mas nunca perdeu um processo.”
“Mas…”
“Quer dizer, ao fim do litígio vocês vão acabar tendo de pagar uma fortuna para ele. Fora o prejuízo de imagem, porque esse caso é certeza que vai dar imprensa.”
Áurea fez uma pausa dramática para tomar o resto do segundo cafezinho.
“Se a senhora me permite, estou autorizado a lhe propor um acordo.”
“Agora, sim, diretor. Finalmente vejo que estamos negociando. E negociação é a minha praia.”
“Nós gostaríamos de compensar seu incômodo de alguma forma.”
“Incômodo não é bem a palavra, né não, seu Weisman?”
“Tem razão. Vejo que a senhor é uma mulher de ação.”
“Direto ao ponto, diretor!”
O homem levantou um papel: “Pois não. Aí vai a nossa oferta: a senhora pode realizar qualquer procedimento do cardápio de serviços do nosso complexo hospitalar, como forma de compensação por nossa, hã, falha.”
“Resumindo: eu tenho direito a pedir um procedimento de grátis?”
“Sim, absolutamente. Estamos abertos a oferecer por nossa conta qualquer exame clínico que a senhora ordenar. Ou um check-up, uma cirurgia plástica, serviços de imunização, de reabilitação…”
“Ok, negócio fechado. Quero encomendar então uma biópsia de próstata, daquelas feitas com um agulha bem pontuda.”
“Mas, senhora, exame de próstata é exclusivo para hom…”
“Estou informado, diretor. Eu não tenho próstata. E, graças aos senhores, já estou mesmo oca por dentro.”
Áurea sorriu para os dois homens que a encaravam da tela do celular. “O exame a que tenho direito não é para mim, mas para um de vocês dois. Podem decidir agora. Eu espero.”
