Queria ser como uma folha de papel dobrada em quatro pedacinhos. Dobrada em quatro pedacinhos e sem doer nenhuma articulação. Queria ser uma folha de papel protegida por um envelope de Canson com as nervuras em paralelo perfeito. As nervuras encostando em ¼ de mim. Embrulhei pra ti uma folha dessas, te escrevi nela. Começava tão mais bonito que esse e-mail. Levo comigo. Acredita que o correio aqui só abre às 9h? Voei do estacionamento pra agência agarrada no envelope e na mala. Segurei a carta com tanta força, tanta força, que quase fiz doer o corpo desarticulado da folha. Não dava pra esperar, mas tu precisava ver a velocidade, tive até uma dificuldadezinha de parar diante do portão fechado. Vazamento do fluido do freio, tu diria.
Queria ser como um carro estacionado. Ocupando uma vaga inteira, despreocupado do próprio freio, na certeza de que cedo ou tarde, alguém vem buscar. Queria ser como um carro que mesmo no estacionamento aberto de um aeroporto não sente frio nem medo. Tá fazendo um frio aqui na sala de embarque. Tô na mesma cadeira há horas, o voo que ia sair às 9h – e por isso a pressa pra entregar tua carta às sete e pouco – atrasou. Sem previsão na tevezinha. Me doem todas as articulações, não dou mais conta de ar condicionado nem de cadeira de plástico. As pontas dos dedos brancas de inverno artificial e listradas de Canson.
Enfim, era só pra te dizer que tô indo embora. Uma pena os Correios, fazia tanto sentido que a notícia chegasse por carta e com carimbo de Guarulhos. Tem alguma coisa de muito horrível sobre essa cidade. De qualquer forma, o e-mail chega daqui a cinco dias, programei, é o tempo que levaria a carta. Tu merece qualquer coisa de horrível. Guarulhos, o grande não lugar. Ninguém vai ou chega a Guarulhos, se vai ou se chega por Guarulhos. Fica pra ti então a dúvida. E-mail ou Guarulhos; tu não saber nem de onde nem pra onde. Aliás, peguei teu carro. Melhor, vir buscar. Tá no terminal 3, no descoberto. Traz RG, joguei fora o papelzinho. Chave reserva precisa não, lembrei de deixar no contato.
Domingo teve Conceição Evaristo no Sesc. Foi tão tocante. Esquecesse foi? Onde tu tava domingo? A uma certa altura, ela disse “benditas as mãos dos que tocam”. Se referia aos músicos, ainda assim tive vontade de gritar “malditas as mãos dos que não tocam”. Ela gritaria de volta “bravo!”. Queria ser como a Conceição Evaristo. Talvez seja tu a ter fluido de freio em excesso. Chega uma hora que vaza mesmo. Queria ser uma folha de papel na tua mão, pra tu tirar do envelope, desdobrar, estacionar na perna e ler, ler, ler, ler. Agora já foi. Demora não, visse, R$135 a diária do estacionamento.

