(Ou os que nunca foram e, quem sabe, adorariam mesmo não ir)
Leticia Eboli
“Li que recebem muitas doações de lojas, produções de tv, teatro, mas o que chega de lugares mais inusitados?” – perguntou Giane.
“Ah, tem de tudo, por exemplo, aqui temos couro retirado de assentos de uma aeronave da United Airlines, que foi desativada” – respondeu Katie apontando para a caixa cheia de pedaços irregulares de tecido azuis. A moça era coordenadora de voluntários do Materials for the Arts (MFTA) e apresentava o espaço ao pequeno grupo de futuros voluntários.
“Esses couros podem ser usados pela indústria da moda em processos de upcycling ou por artistas em uma obra”.
Giane, que um dia sonhou em ser comissária, só pensava em quantas bundas tinham passado pelos retalhos. Imaginou a capacidade do avião, quantos voos faria por dia, quantos anos esteve voando. Desistiu. Assim como os demais, na terceira curva, as mãos acostumadas ao pegajoso metrô de NY, já estavam mais ocupadas do que a cabeça tocando alguma coisa nos corredores formados por estantes de metal, de mais de três metros de altura, recheadas de novelos de lã, fitas adesivas, linhas de costura, miçangas, botões pretos, botões coloridos, botões de tecido, botões de pressão, zíperes, brincos, colares. Cada um à sua maneira se perdia entre em seus próprios “gosto” “não gosto” | “novo” “velho” | “que lindo” “que cafona” enquanto faziam a visitação. Até o adolescente naturalmente blasé, que devia estar ali apenas para ganhar pontuação pra faculdade, saiu por alguns segundos do celular.
“O principal trabalho dos voluntários é ajudar a organizar. Em especial, depois dos dias de compras e de chegada de novos materiais a bagunça fica maior.”
“Figurino de Billions!” – gritou a moça de colete que ia quase até os pés e bota de cowboy alheia aos 100F ao ler a folha de A4 na lateral da arara de roupas. Presa no seu próprio deslumbramento, se desgarrou do grupo tentando relacionar personagem-figurino pesquisando no Pinterest da série.
Katie seguiu com o seu tour decorado, evitando olhar muito para aquelas pessoas. Sabia que qualquer alfinete ficava em média mais tempo estocado do que um voluntário em exercício. “A gente arruma o MFTA como se fosse uma loja de departamento, a ideia é deixar os produtos com a lógica que conhecemos e deixar tudo mais fácil e atrativo para os compradores.”
Na área de papelaria, os recém-casados se derretiam em baby talk brincando de trocar com biquinhos cartões de Valentines Day, gerando olhares de enjoo dos demais do grupo. Ousaria dizer que os próprios cartões – já acostumados a uma vida em branco – preferiam seguir não dando match no Tinder. “Melhor morrer sozinho” – pensou o que tinha uma laranja cortada desenhada e embaixo escrito “cara metade”.
Seguindo na interminável sessão “dos que nunca foram” havia também cartões de Dia das Mães, Thanksgiving e Natal. Todos nunca escritos. Papéis timbrados de contratos nunca assinados. Planners de anos nunca organizados. A segunda chance poderia vir na produção de um comercial, em trabalhos de alguma turma de ensino fundamental ou em pessoas cujo planejamento supere que 18 de agosto em 2012 tenha sido uma quinta e esse ano caia em uma quarta.
“Tudo aqui tem origens diferentes, mas um ponto em comum: acabaria no lixo. A missão do MFTA é interromper esse fluxo e mudar o curso, ajudando a reescrever histórias.” – Disse Katie com pálpebras coladas na testa processando as palavras decoradas.
O lugar incrivelmente cheirava a ventiladores, que trabalhavam barulhentos movimentando pás que tinham de diâmetro mais do que dois braços abertos. Giane que desde que chegou ao país atravessando a fronteira do México sempre julgou a obsessão americana por segurança, agora temia pelos cabelos azuis de Katie. Sugados pelas pás virariam perucas para bonecas ou penachos de colagens?
Antes que se distraísse de novo, a jovem mexicana relembrou do que a trouxe até aqui. Só de pensar em tudo que ela passou, a máquina de escrever desdentada esboçou um choro com as teclas que sobraram. “Snt Snt Snt”. Bastante politizada, lamentou que chorar com dignidade “Snift” era privilégio da elite. Os manequins de plástico esquartejados dentro de uma gigantesca caixa de papelão tentaram unir duas pernas esquerdas, um tronco e um antebraço e mão direita num abraço a jovem.
“Uou, imagina a festa que dava pra fazer com tudo isso aqui” – gritou animada a esposa do casal careta, enquanto eles esboçavam passos de uma dança a dois. Globo de luz, taças com marcas estampadas, jarras, pratos, boleiras, talheres de plástico. O adolescente chegou a quase dormir em pé, foi salvo por uma Herman Miller de rodinha quebrada perdida entre cadeiras de madeira. Um sonho de consumo para o futuro dormitório. Mal o bumbum se apegou ao formato anatômico e leu: “reservada”.
A dupla apaixonada e a deslumbrada de botas seguiam emitindo “amazings” e “awesomes” achando geniais as ideias de reutilização de materiais deixadas no espaço. “Como criar decoração pro Halloween usando cúpula de abajour” – fotografou a de botas. O adolescente e Giane permaneciam em seus universos esverdeados. O dele musgo desinteresse, o dela acinzentado, embora iluminado por seu estado de prontidão lutando para observar cada detalhe disfarçado na luz fria.
Mas os detalhes sempre venciam. Em um canto, miniaturas estilo soldado de chumbo de plástico – só que ao invés de soldados eram jogadores de futebol americano – abriam discretamente o saco de mini pinos de boliche e armavam times para jogar sob a mira dos glitters.
Antes de ir tinha revirado a internet em busca de imagens de referência de como eram os lençóis, cobertores, bandejas, cortinas das prisões. A parte que ela havia conhecido do sistema carcerário era limitada. No entanto, nada similar ao arquivo de pesquisa havia se apresentado.
“Chegamos ao fim da visita, quem seguir interessado, por favor, preencha a ficha com os horários de preferência, documentos e já podem começar na semana que vem”.
“Alguma dúvida?”
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Já era terça de novo. Dia de começar efetivamente como voluntária. Já tinham seis meses do episódio e ao se arrumar com camisa xadrez, saia de bolinha e tênis cano alto buscando parecer mais descolada do que seu imaginário lhe permitia se deparou com a matéria do “The Guardian” que colou com fita adesiva na porta do armário do quarto onde morava em troca de trabalho: “Vigiando os Guardas da Prisão: o Sistema Disciplinar em Crise do estado de Nova York”.
Faltavam ainda seis meses de pena para o Jose cumprir. Todos os sábados era fiel à visita. No último, logo após o incidente, se vestiu como de costume de perfume e batom, mas naquele dia visitou apenas a notícia “Jose teve um incidente e está em um hospital no Alabama para ser operado as pressas.” Ela já conhecia bem esse campo de incidentes, palavra usada quando existia uma merda que não podia ser dita. O resto seguia tão genérico quanto. “Não temos previsão de alta”. “Notícias adicionais serão dadas em breve” “O caso está sendo apurado”. Foram semanas tentando vencer políticas de confidencialidade. Até que três meses depois, a verdade veio à tona, conseguiram um advogado e evitaram que a história morresse encarcerada.
Era um dia como outro em Ulster Correctional Facility, em uma revista de rotina o oficial Miller achou que Jose estava conversando alto demais com um colega. Jose alegou nem saber que não era permitido falar. Miller chamou o detento e o levou sozinho para um local fechado e sem cobertura de câmeras de segurança. Mandou que ele ficasse novamente em posição de revista. Mãos para o alto, pernas abertas. O detento começou a sentir a perna do oficial passando entre as suas. E desmaiou de dor.
Meses depois, finalmente o oficial foi afastado do cargo e está em julgamento. O caso levantou a poeira sobre uma série de acontecimentos recentes da Prisão de Ulster, localizada no meio da reserva florestal de Catskill, há cerca de duas horas de Manhattan. Era o que a comunidade local precisava para reforçar o pleito para fechar aquele presídio, extremamente danoso à imagem da região, que vive do turismo ecológico. Mountain bikes, esqui cross country, escalada. No início do ano, um brasileiro que havia assassinado a esposa fugiu, levando a cidade a um lockdown. Resorts às moscas, ausência de SUVS, deixando até os ursos em depressão pela ausência de Nutella nos gramados.
Prisão fechada. O terreno viraria um hotel.
Giane se apressou certa de que iria encontrar naquele dia o que procurava. Ritual perfume e batom de porta de cadeia. Era seu tapinha de boa sorte.
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Katie estava ocupada recebendo um grupo de trintas funcionários da Bloomberg. Homens basicamente. Nenhuma surpresa. “Eles são novos na empresa e fazemos uma integração através do voluntariado.” – falou a senhora que a recebeu. Giane sentia uma preguiça danada daquela gente corporativa.
“Hoje tivemos empurra empurra durante as compras, tivemos que apartar confusão de gente arrancando tag de “reservado”. Caos. Você pode organizar por favor as araras de roupas e acessórios? Vou te pedir para hoje não ficar pelos outros departamentos por conta dos voluntários da Bloomberg.”
E Giane fez que sim com a cabeça. Nas próximas duas horas viu funcionários voluntários numa falsa diversão arrumando enquanto escutavam música pop e tiravam selfies. Ela ficou encarregada de dar conta de três araras de roupa tentando algum tipo de política de boa vizinhança mergulhadas entre sutiãs de avó, roupa de Papai Noel, vestidos de festa, pijamas, fantasias de chef, coletes brilhosos. Umas calças de moletom cinza furadas, nada que se parecesse com o laranja Ulster.
Antes de finalizar deu o retoque final voltando aos cabides com roupas íntimas. Elegeu a cueca de dublê (ou seria de fetiche?) como abre alas tímido como que tenta em vão se esconder no metal que sustenta a arara, fazendo charme para o entorno. Dançou se divertindo por não ter aqueles colegas de trabalho.

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Na semana seguinte, Katie entrou de novo pela galeria já sem fazer nenhuma questão de ser fashion. Ao passar pelo corredor estreito, que desembocava no galpão, reparou em uma exposição de arte de artistas residentes loais. Umas fotos bonitas do Long Island, lugares que já tinha passado mil vezes na sua vida recente e nunca enxergado nada daquilo. Nem se lembra quando foi a última vez que deixou morar nela uma caixinha vazia que pudesse ser identificada pela etiqueta “prazer”.
Temeu que antes que recebesse uma caixa pronta para ser esvaziada tinha que aproveitar Katie ali para perguntar.
“Oi, tudo bem, pode tirar uma dúvida, como vocês fazem o controle de materiais? Tipo o que entra, o que sai?”
“Existem livros na área de triagem onde a gente cataloga manualmente as entradas e saídas, mas a cada seis meses isso tudo é passado para um arquivo digital.”
A moça comemorou. Em teoria, o material vindo da prisão teria chegado a dois meses. Não parecia impossível.
“Katie, será que algum voluntário pode me ajudar?” – Giane gelou ao escutar a conversa. “Cadê aquele povo da Bloomberg? Aposto que não volta.” – pensou.
“To organizando os livros porque vamos hoje disparar um email marketing para os professores aproveitando a volta às aulas” – continuou gritando a moça vestida de Staff
“Giane, né? Será que poderia nos dar uma mãozinha aqui?”
Estava no lugar errado, na hora errada. Pelo menos havia pescado uma informação. Lá foi ela mergulhar na parte do MFTA que parecia um sebo. Pediram que ajudasse a deixar todas as prateleiras de uma estante dividida em duas sessões: “Pais e Mães” e “Professores” mais instagramáveis. Em uma olhada rápida identificou títulos como “1001 brincadeiras para fazer com seu filho”; “Como ser uma boa mãe”’ “Dicas para uma sala de aula em harmonia”. Alérgica aos manuais e à maternidade, recuperou o gás ao desengavetar um comentário de Jose de que na prisão havia uma sala de leitura.
Tudo bem que o que buscava dificilmente estaria em um livro, a não ser que fossem aquelas bíblias falsas, bem gordas, com um furo no meio. “Meu pai foi preso. E agora?” – catou com interesse o exemplar. Na contracapa o carimbo da “Biblioteca de Ulster”.
Ficou com receio de perguntar se poderia levar o livro. Porque ela se interessaria pelo livro? Se certificou de que ninguém olhava e tirou uma foto, depois guardou o exemplar no fundo da estante como quem esconde uma blusinha na loja pra que esteja lá depois quando voltar no horário de mais movimento para furtá-la.
