Asa quebrada (carta)

Asa Quebrada (de Carolina Schettini)

Oi, Lola, tentei te agradecer várias vezes o presente que enviou pelo meu aniversário. Chegou direitinho, adorei a caixa, o cartão, o papel bolha. E, claro, as quatro borboletas para enfeitar meu apartamento branco e sem graça, como você mencionou no seu amável bilhete. Ligo na sua casa e ora você está pra um retiro, ora está não sei onde, ora não está a fim. Volto ao passado e te escrevo um e-mail. Pronto. Lê se quiser, mas não passo por má educação. Depois, você não vai falar com todo mundo que me deu um maravilhoso presente e eu nunca agradeci. Pois bem. Muito original enviar quatro borboletas diferentes. 

Pensei em pregar o prato com a borboleta pintada primeiro. É difícil colocar coisas na parede. Se não gosta, tem que deixar pra sempre ou tapar o buraco do prego com chiclete e pasta de dente. De todo jeito, não fica bom. Ao lado do prato da boa lembrança seria um bom lugar. O problema é que o prato da boa lembrança é um prato da má lembrança. A gente foi naquele restaurante chique, eu, a Cici e o Enzo. Pedimos Baiacu ou Pacu ou desses peixes esquisitos misturados com carne de sol. Eu tava morta de medo de morrer envenenada, mas a meta era levar o prato pra pendurar na parede da casa da Cici. A comida chegou tão salgada, como se o peixe tivesse vindo do mar direto pra mesa. E era peixe de rio. Devolver a salmoura estava fora de questão. Por causa do prato. A Cici quando coloca uma coisa na cabeça, tipo superbonder, sabe como é. No fim, quando chegou a conta, um assalto a mão armada. Não sabíamos se pagávamos com o rim ou com a córnea. O amor da Cici pelo Enzo pagou pelo prato. Discutiram tanto. O prato pintado à mão em cores duvidosas e desenho pior ainda, sobrou na minha mala. Por pouco, não precisei pagar excesso de peso.  O único enfeite da minha cozinha. Nunca mais vi a Cici e o Enzo juntos. Quando ela me visita, sempre fala que vai cuspir no prato que não comeu.

Não interessa o passado. O importante é o presente. A sua borboleta colorida do meio do prato branco era ok, bem mais bonita do que o boi com camarões no chifre,  só que resolvi puxá-la com a mão e ela ganhou corpo e começou a se mexer em 3D na frente do meu rosto. Deu um nervoso daquilo. Sabe como me sinto com coisas muito coloridas. Coisas coloridas sambando na minha frente então, tenho pavor. Foi puro reflexo. Bati uma palma e a borboleta desintegrou. Grãos de giz de cera espalharam pelo ar e pintaram meu chão. Vou tentar limpar, um dia. Ficou um chão salpicado de vela derretida. O prato enfeitado ficou branco, coloquei na pilha junto aos outros. Posso usar pra colocar docinhos. Vai ter mais utilidade até. Obrigada. 

De quatro borboletas, sobraram três e três é um bom número. Outra noite, estava assistindo uma série de videntes e um falso vidente mandou o outro falso vidente escolher um número. O segundo falso vidente escolheu o número três. O primeiro falso vidente disse: “você escolheu o número três”. O segundo falso vidente explicou que todo mundo escolhe o três. Explicou os motivos, procura lá o episódio se quiser detalhes.  Não sei se sou sugestionável, mas, a partir deste dia, só penso no número três. É três, três, três, pra todo o lado.

Das três borboletas que sobraram, a branca de porcelana era bastante problemática. Na hora que fui colar – preferi usar cola pra quadro em vez de prego – ela virou pedra. Tão dura e branca igual às pedrinhas que coloca na frente do quintal. Não dava mais pra colocar na parede. Não segurava. Só se comprasse cimento. Não tenho em casa. Então, coloquei no vaso em quem plantei umas lindas azaleias. Não sei o motivo, mas, de uma hora pra outra, desapareceu. Talvez, tenha voado, vá saber. 

Sobraram, então, duas borboletas. Um pas de deux. Bem diz o ditado: dois é bom, três é demais. Fiquei contente com as duas que sobraram. A borboleta de papel machê é de uma lindeza só. Lembrei quando o tio fez pra gente um mundo de balão. Só o tio mesmo. Pegou jornal, molhou, colocou cola branca, colocou em uma bola, depois tirou a bola (como ele tirou a bola?), pintou de azul, fez o mar, a terra, os países. Uma obra de arte! O mundo de mentira durou mais tempo do que a vida dele. Ótima lembrança. Chorei. Foi você quem criou essa escultura maravilhosa de borboleta? Não sabia que era prendada. O que duvido. Aposto que comprou em um retiro com nome chique, Ashram. Sei nem falar. 

Deixa te contar o que aconteceu aqui. Anteontem, de tarde, percebi que, ao entardecer, a borboleta de papel machê saia pra voar. Ontem, de novo. Logo me veio à memória o periquito de quando éramos adolescentes. Ele andava pela casa de um lado pro outro. Um dia, resolvemos amarrar uma cordinha na perna dele, pra ele poder alçar novos caminhos, ir na árvore, na grama, viver por aí. Estava eu estudando alguma fórmula abstrata e o periquito passeando pelo galho da árvore quando o gato da vizinha pula e abocanha o pescoço do bichinho. Na mesma hora, abri a janela para enxotar o gato e salvar o coitado. Só que aconteceu uma coisa engraçada. O periquito olhou pra mim e falou com os olhos. Olho no olho. Entrou na minha mente. Disse com-todas-as-letras que era melhor morrer a viver sem liberdade, amarrado por uma cordinha de fio dental. Fechei a janela, a cortina, o livro e, no dia seguinte, peguei uma pena verde lá embaixo e a linha que ficava amarrada na perna dele. Fiquei com uma antipatia dele ter chamado a linha de fio dental. Era uma linha de seda importada, peguei escondida, podia ter levado uma bronca daquelas. Que raiva! Não dá para fazer o bem aos outros. Ingratidão em todo lugar. Sei que guardei a linha de volta na caixa de costuras e a pena dentro de algum livro. Cuidado! Pode estar na sua casa. Você levou todos os livros antigos praí. Pode voltar e te assombrar. Você é toda esotérica. 

Por causa da lembrança, hoje, quando vi a borboleta voar, fechei todas as janelas pra ela não voltar. Melhor ela ser livre lá fora. Não quero empatar a felicidade de ninguém. Senti mal, sabe? Igual àquela vez que pensei em comprar o quadro de Porto Rico. Ia amar muito ter borboletas presas no acrílico. Podia escolher a cor e tudo. Quando eu soube que eles espetavam as coitadas vivas, não dei muita bola. O problema foi a falta de ar. Imagina ser presa por um prego no coração e ainda colada de frente para um acrílico! Já era demais. E o frete? Uma fortuna e nem tinha garantia que iriam chegar sem asas quebradas!

Como você deve ter percebido, no final, só sobrou uma e eu não gosto de nada sozinho, não é bom pra dar sorte, pode olhar nos estudos de feng shu. Peguei o martelo de bater em carne (sabia que iria servir pra alguma coisa pelo menos uma vez na vida) e dei com força na borboleta que sobrou. Como ela era de barro, fez um monte de caquinhos, melhor, virou um pozinho, meio areia, plantei num vaso. Pode ser que vire música, no pé que plantou a borboleta, nasceu uma roseira ou acontece algo romântico. 

Bem, é isso. Fico por aqui. Amei os presentes, obrigada, mas #ficaadica. Não é nada elegante dar enfeite pra casa dos outros. Um beijo. Lili

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