– Trouxe pra ti – Bianca colocou alguma coisa no bolso de trás da minha calça no abraço de chegada.
– Não, Bibi. Guenta aí, vai ter roda hoje.
Era um envelope pardo, sem “de” nem “para”, sem fita, sem cor e com uma pressa um tantinho indelicada. Não é assim que se dá presente.
– Como?
– Roda. Já já tu entende. Entra, o povo tá na sala.
Não sei se na infância de vocês era assim. Mas na minha, toda festa de aniversário tinha roda de presente. Antes do bolo, os convidados se sentavam em círculo com o aniversariante no meio e, um a um, falavam do dono da festa. Entregavam as caixinhas embrulhadas e a gente saía amarrando os laços de fita no braço. Todas as fotos de parabéns cheias de dentes e com uma pulseira de laço até depois do cotovelo. No meu aniversário de 10, ela chega quase no ombro. Era feito um amigo secreto, só que todo mundo tinha te sorteado e todo mundo tinha um monte coisa linda pra dizer. Hoje eu faço 30, hoje vai ter roda de presente.
Bianca chegou às 23h30, eu tinha marcado pra começar às 20h, só faltava ela. Foi o tempo de pendurar o casaco, encher um copo e sentar com os outros. Eu fiz de raivinha mesmo.
– Começamos deixa eu ver… com a Bibi
Expliquei o esquema. Ela quis me convencer a pular a parte dos presentes.
– Bora só falar da aniversariante?
– Nan-nan-nin-nan-não.
Aí Bibi limpou a garganta em ranrans e começou o discurso.
– Amarílis foi minha primeira amiga de São Paulo. No dia 1 de escritório, eu sentindo a solidão dos novatos, ela me convidou pra almoçar, e pro café e pro cigarro e pro café e pro cigarro.
O povo riu. Tava todo mundo contente que só. Seguiu dizendo que o tanto de café que tomamos juntas nos estreitou. Não, “deixou seus vestígios” foi bem assim, deixou seus vestígios. E aí me chamou com a mão cheia de anéis e me entregou o envelope do mesmo jeito que fez na entrada, enfiando o presente no meu bolso. A única coisa que tinha pra botar no braço era um pedaço de fita durex transparente, colei. E tirei de dentro da não embalagem uma folha de papel.
– Depois tu abre, amiga.
Mas era a roda de presente, tem que abrir na hora. Puxei um abre, abre, abre. O povo cantou junto. A primeira dobra revelou o logo da Ortoestética Perdizes e a segunda, em bold, espaçamento entre letras péssimo, aliás, um “Vale procedimento”. Dessa vez ninguém riu. E pode ser que eu tenha visto um, três, ou até 15 fazendo que sim com a cabeça. Dei um abracinho desses de lado e resumi meu comentário a um “nossa, obrigada”. Uma cara de presente repassado. E eu pensando que era dinheiro.
– Bora Clara? – e puxei de novo Clara, Clara, Clara.
Acompanharam. Escolhi Clara porque ela tinha uma caixa embrulhada até meio grande na mão – e com laço de fita. Clara lembrou do dia que a gente se conheceu na sala de espera da nossa gineco, eu amo essa história. E ela é danada pra pôr charme numa coisa que podia caber em um parágrafo curto, floreia, faz voz, cria diálogos que nem existiram. Fica tão bom. Teve uma hora que vi Cândido rindo com a cabeça pra trás, Jasmim me ajudando a dar nó no cetim em volta do pulso, Pérola segurando o gin dentro da boca pra não cuspir no meio da gargalhada. Às vezes eu acho que sei dar festa, sei juntar gente, um povo que gosta de mim, que me enche de apelido querido. Talvez eu seja massa mesmo. Clara terminou a fala dela, jogou beijo de onde tava e sussurrou um “eu te amo, minha carambola”. Clara me chama de carambola. Rasguei o papel numa alegria infantil. Foi a mesma coisa que senti quando vi o que tinha dentro. Um vibrador, preto, bonito, mas por que tão fininho? Bem, tinha cara de coisa boa.
– Aê, Clara!
Chamei Pérola que precisou levantar pra pegar o presente na bolsa. Enquanto ela não vinha, aproveitei pra olhar mais de perto, oxe, é pra oral e pra bi o negócio, como assim? Eu sou muito mirim, minha gente. Oral Bi9, Black Onyx, isso deve ser uma loucura. Pérola chegou também com uma caixinha. Foi logo falando do presente anterior, disse que tinha visto essa – chamou o vibrador de essa, Pérola feministona – quis comprar também mas não tinha a mesma grana da Clara.
– Sabe quanto custa essa, galera? R$1800. – Ela quase gritou apontando pro Black Onyx. Depois me imitou num Clara, Clara, Clara.
A caixinha dela era leve, não como o envelope de Bianca, mas leve. Tinha cartão. “De Pérola. Para Amarílis, mousse de maracujá”. O embrulho era listrado de amarelo e branco. Dentro, um papel de seda e outra caixa, tava lá no hot stamping prateado: Whiteness perfect, kit clareador com 16% de FGM e um par de moldeiras. Foi quando me dei conta da Oral-b. Dali em diante a noite seguiu nas cores da caixinha, um pouco como eles me viam e outro pouco como queriam que eu ficasse. Meu sorriso que começou mostrando até o terceiro molar foi ficando estreito, murcho. Os laços do braço, uma coisa meio ridícula. Eu só queria cantar parabéns pra todo mundo ir embora.
Só faltava Cândido. Quinze presentes depois, pelo menos ele fugiu do tema, me trouxe uma garrafa de vinho rosé. Mas não deixou de mencionar seu desejo de que eu me apartasse dos tintos, pelo menos por um tempo, ele disse. E do shoyu, e do molho de tomate e desse tanto de corante artificial, completou. Mas a essa altura eu não tava mais nem prestando atenção não. Só passava uma coisa pela minha cabeça. Eu pensei que me chamavam de inglesa por causa do estilo, da Dr. Martens, de carambola porque sou uma estrela e de mousse de maracujá porque eu sou gostosa.

