Entendeu, fio?

por Américo Paim

– A gente precisa conversar.

Respondeu assim quando insinuei sobre morar junto. E desligou. Me arrependi de puxar o assunto pelo celular. É que eu e ela namorando há quase dois anos, se dando bem, achei que era um bom momento pra falar. Eu queria um test drive, uma chance para ver como seria debaixo do mesmo teto. Era um passo importante, claro. E uma prova de amor que Marlene não ia me negar. Depois que ela desligou, fiquei mal. Não esperava. Sonhei com muitas respostas, nunca aquela. Aí procurei Soriano. Precisava tomar uma e meu amigo não ia me faltar num aperto desses. Ele ia me dizer o que estava acontecendo, se eu fiz alguma coisa errada, me dar um conselho.

– Então foi isso, véi? É, tu se lascou…

– Porra é essa? Tô querendo ajuda, miséra.

– Hum, tá bom. Ela falou assim, na tora?

– Desse jeito, Sori. Ela não me ama mais. Fodeu tudo.

– Oxe, calma. E mermo que seja verdade, olhe que nem é tão ruim.

– Como não é?

– Tá cheio de mulé aí, papá. Vai atolar o carro na lama assim cedo?

– Porra, tu num tá me entendendo.

– Véi, na moral, quéquetuvê na criatura?

– Ela é linda, pô. Corpão, esperta, carinhosa. Tudo de bom.

– Me convenceu não. Tem um monte assim.

– Nada disso. Ela é única.

– Velhinho, na moral, tu num acha que demorô?

– Tá falando de quê?

– Ela deve tá com outro, fio, se ligue.

– Ela num é igual às que tu pega por aí, não.

– Falei nada demais. Ela abusou e agora quer vazar. Aí tu vem com “morar junto”? Na moral…

– A gente se gosta. É uma hora boa.

– Ah, véi. Acho que não. E tá na cara por quê.

– Tu tá sabendo de coisa que eu num sei?

– Ué, desde que lhe conheço.

– Desembucha.

– Tá bom, já falei isso: tu é feio, fio. Bozengo. Acostuma na bagaça e vai à luta…

– Oxe, se saia, véi. Ela me acha gato.

– Tá bebendo desde que hora?

– Vai se lascar. O que é que eu tenho de feio?

– Quanto tempo tu tem pra ouvir?

– Muito engraçado. Diga, diga.

– Tá bom: olho caído.

– Ela gosta. Disse que meu olhar é pidão e ela num resiste.

– Bafo.

– Negativo. Tava com uns dentes arregaçados. Já resolvi.

– Peido.

– Tá louco? Nunca na frente dela.

– Fala alto.

– Ela reclamou no começo mermo, mas já tá de boa com isso.

– Barba rala.

– Eu posso tirar.

– Cabelo ruim.

– O que foi que o cabelo lhe fez? Ache outra. Nunca chiou.

– Baixinho e gordo.

– Tô malhando. E sou mais alto que ela. Desista!

– Tá bom, você pediu…

– É o quê?

– Dumbo!

– Hein?

– Topo Giggio, Yoda.

– Entendi não.

– Porra, tu é um jegão, mermo. Orelhudo, fio. Tua orelha é um continente.

Ele gargalhou e eu ri junto, mas logo fiquei sério. Peguei nas minhas orelhas. Não senti nada de estranho. Ele tirou uma foto e me mostrou. Achei que elas eram bonitinhas, organizadas. Não comprometiam. Ele não aliviou. Disse que eu estava ficando velho e só piorava. Que no começo dava pra enganar, só que agora estava impossível: “É a primeira coisa que se vê”. Ele até comentou que outro dia que Tico, sobrinho dele, tava vendo um filme de “Harry Potter” e lembrou de mim porque viu Dobby. Me disse coisas que fizeram sentido. Eu tava muito tempo com a moça, aí fiquei meio esquecido e acreditei mesmo que era lindo. Aí a realidade vem, não tem perdão. Me lembrou de uns lances do tempo de menino, quando uns caras pegavam no meu pé, ou na minha orelha, mas eu achava que era só zoeira, que era todo mundo assim mesmo, de orelha maiorzinha. Na época eu não usava cabelo grande, achava feio. Depois que saí do Exército, deixei crescer e deu uma enganada. Demorei assim. Faz pouco tempo que cortei por causa do calor. Aí as criaturas abanadas ressurgiram. Só não via quem não queria mesmo.

– Ernestino, tu tá cego. Essa orelha é de abano. Parece uma asa delta, um planador.

– Tu é escroto, viu? Olhe na Internet: a minha nem é tão grande.

– Oxe… Sua orelha devia tá no mercado imobiliário! Dá pra alugar.

– Porra, vai se foder!

– Quer ver? – chamou o garçom.

– Como é seu nome, meu amigo?

– É Abelardo. O povo aqui me chama de Carretilha.

– Óia, deve ser porque tu gosta de pescar.

– É isso.

– Então se tu tivesse olho grande, ia ser como?

– Zoião?

– Tipo isso.

– Se tivesse perna fina?

– Perna de cambito. Agora, lá no meu bairro tem um assim que o nome é Sabirila.

– Oxe e por quê?

– Tem perna de sabiá e corpo de gorila – a risada foi geral.

– Pois bem, Carretilha, desempate uma aposta aqui.

– Pode falar.

– Eu disse a meu amigo que a orelha dele é bem maior que a minha.

– Mermão, num leve a mal… Essa orelha aí é grande, vu? – falou pra mim.

– Viu, féla? – voltou Soriano.

– Carretilha, a minha é maior, mas é tudo isso não, né? – desafiei.

– Rapaz… – falou e saiu.

– Sua sorte é não balançar a pobre. Se agitar muito, sai voando – Sori voltou a falar.

– Marlene nunca me falou nada disso. Nenhuma queixa.

– Lembre aí. Ela num fica olhando pra você, assim, parada, perdida, sem rumo?

– Só se for de amor.

– Hum, tá difícil. Vou por outro caminho. Quando ela beija, pega no seu pescoço?

– Sei lá.

– Bora, lembre.

– Agora que tu tá falando, acho que não.

– Tá vendo? É medo. Ela nem deve fechar o olho, pensando que vai ser engolida.

– Puta que pariu.

– Tu num sabe o que ela tá fazendo. Tá lá de olho fechado, no trampo de língua, felizão.

– Duvido!

– Ah, tá. Me diga: já transaram?

– Tu sabe que não.

– E por quê?

– Já lhe disse: ela ainda não tá pronta pra isso.

– Tu que pensa. Ela se borra de medo! Mas de qualquer jeito, que azar, hein?

– Como assim.

– Era a forma certa de esquecer das orelhas. Ia conhecer o famoso “colhão de bode”.

– Já falei que num gosto desse apelido!

– Rapaz, pense. Na hora que ela desse de cara com esse saco de Papai Noel no meio das pernas…

– Porra, desde o quartel que ninguém me chama assim!

– Lembra que ninguém falava de tua orelha?

– Que saco…

– Exato! – emendou, rindo.

– Chega, desgraça!

– Tenho certeza que ela ia achar as orelhas pequenas que só.

– Tu é um escroto. Lhe chamei pra ajudar e fica nessa resenha aí! Que amigo da porra você…

– Rapaz, sai dessa. A mulher num quer mais. Parte pra outra.

– Nada disso. Ela gosta de mim. Só ficou surpresa com a conversa.

Saí dali puto. Horas depois, já em casa, olhei com mais detalhe. Minhas orelhas sempre foram meio salientes, admito, e estava ficando pior mesmo. Soriano estava certo. Me assustei quando fiz um teste. Parado, mexi o olho direito todo para o lado e achei que estava vendo minha orelha. Perdi o sono naquela noite. Eu precisava saber se era aquilo que estava entre mim e Marlene. No dia seguinte, logo cedo liguei para ela a marcamos no parque. Eu estava nervoso.

– Marlene, a gente precisa conversar.

– Ué, não foi o que eu disse?

– Então fale.

– Não, você primeiro, vá.

– É que achei que tu ia gostar da ideia de morar junto.

– Repare, não me entenda mal.

– Quer terminar? É isso?

– É que tô muito incomodada com uma coisa.

– Já sei, já sei. Não se preocupe, eu já tenho a solução.

– E tem?

– Num é esse problema que vai atrapalhar tudo.

– Ah é?

– Eu li que pode ser resolvido com cirurgia!

– Esse tipo de coisa? Eu nem sabia, juro.

– Pois é. Vou procurar o médico.

– Você me entende, então? É que sempre foi assim, mas tá piorando muito.

– Eu sei. Ontem mesmo eu fiz um teste e comprovei. Fiquei até sem dormir.

– Uau, deve ter sido brabo.

– Nem fale. Quando eu vi o tamanho, deu vontade até de morder.

– Eca, que nojo.

– Ah, também não é assim. Tava limpinha.

– Para, para. Como você pode falar isso? Que horror.

– Poxa, não sabia que a coisa tava nesse nível.

– Hein? Não existe como melhorar isso. É o tempo todo, Tino.

– Ué, não tem como não ser.

– Cê não disse que tem cura?

– Sim, mas até lá, tem que ser assim.

– Ah, é isso? Acho que não aguento mais.

– Só mais um pouco de paciência.

– Sabe o que me deu desespero? Pensar que podia ter um filho com isso assim.

– Tu pensou nisso? Então ainda me ama!

– Eu tô é com muita dúvida, isso sim.

– Oxe, nem é garantia que um filho seja desse jeito.

– A chance existe.

– Pura adivinhação…

– Já pensou? Meu filho na escola aguentando bullying o tempo todo?

– Eu sei bem o que é.

– Você sofria com isso desde pequeno? Sempre foi assim? Nunca me contou.

– Sim, claro. Quanto mais penso, mais lembro do que passei.

– Coitado. E como você fazia?

– Ah, eu brigava muito.

– Mas se você estava errado, por que brigava?

– Eu, errado? Isso é da natureza!
– Ah, meu filho, né não.

– Claro que sim. Se não fosse assim, você podia ser igual.

– É o quê? Nunca!

– Ah, tá. Sua genética foi favorável, só isso.

– Tem nada a ver. É uma decisão sua.

– Como assim? Você já nasce com essa tendência.

– Que horror! Claro que não.

– Tu precisa se informar como eu fiz.

– Olhe, se me mostrar alguma coisa que prove isso, eu topo morar com você.

– Mole, mole. Olhe aqui – mostrei um artigo no Google e ela fez uma cara estranha.

– Cê tá brincando comigo?

– Eu não, pô. Tá vendo aí? É só operar e a orelha fica boa.

– Cê num tá entendendo nada.

– Oxe, como não?

– Eu tô falando da sua mania de tirar meleca do nariz o tempo todo! Eca!

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