As figurinhas de bom dia não valem, Charlene. Você me manda uma xícara de café fumegante e eu te respondo com um sol que sorri. Assim não funciona e por isso a carta. Quando me convidar, vou fazer uma visita pra conversar de verdade. Me diga, você tem caminhado nas alamedas do condomínio? Lembro de quando comprou o terreno e contou que a área arborizada ao redor das casas era tão grande quanto um Ibirapuera. Arrisco dizer que não só continua caminhando, como as pessoas selecionadas da sua vizinhança a incentivam. Deve estar praticando todos os dias. Por aqui, você ia, mas achava desagradável se misturar aos frequentadores do parque.
Segunda-feira estive lá e vi a senhorinha do corpo curvado. Ela, como sempre, estava com a cuidadora das unhas enormes e dos cílios postiços. Ao contrário do que você comentava, as duas não agiam como pessoas que fingem interesse uma na outra. Elas estavam envolvidas de verdade com um vídeo pelo celular e riam alto. Olhar para a dupla ainda me faz pensar se um dia vamos precisar de uma acompanhante profissional para sair de casa. Se por um lado, as duas mulheres pareciam afinadas, por outro, o homem de suspensório e a esposa de chapéu permanecem fazendo as dez voltas calados. Você se lembra deles? Não mudaram em nada e ainda prefiro pensar que não se falam porque escolheram conservar o fôlego e a concentração nos passos.
Os trabalhadores na hora do almoço continuam dormindo nos bancos e têm alguns que deram de levar uma rede de um material bem leve para amarrar entre as árvores. São uns três ou quatro e provocam um efeito bonito na área mais aberta dos eucaliptos. Se você visse a cena, tenho certeza de que ia reclamar na administração.
Na terça, choveu a manhã toda e não arrisquei sujar meus pés no barro. À tarde, quando o tempo abriu, fiz umas voltas mais curtas na área cimentada e vi de longe um escritor, o filho e a esposa. As redes sociais fazem isso. Só o reconheci porque sigo a página dele no Instagram e então fiquei pensando que a gente, sem ter um tiquinho de fama, pode também ser reconhecida. Vai saber, não é? Quando algumas pessoas estranhas me olham, tenho a sensação de que elas já me viram e daí acho que só pode ser de um lugar virtual. Por falar nisso, você vai ser avó. E é de menina! Vi o post do chá revelação que sua nora fez e você compartilhou. Foi uma bela festa. Parabéns! Vi até que você dançou. Achou uma academia na cidade ou tem dentro do condomínio? Pra mim, a dança só serviu para nos conhecermos. Você leva jeito, eu não. Serviu pra também conhecermos o César. Desculpe a lembrança ruim.
Por causa da chuva, vi um pai com duas crianças de galochas. O moço era muito alto e magro e lembrava seu filho. A botinha de borracha do mais velho tinha barbatanas, a do mais novo, orelhas. Não fique brava, mas fico imaginando a sua futura netinha querendo usar uma dessas e você tentando convencê-la de que galochas de tubarão ou com orelhas não são coisas pra meninas.
Por lá, tenho visto sempre uma mulher que parece a Paula e até hoje não consigo definir se é ela mesmo. Usa uma viseira de aba larga que tapa os olhos e faz sombra no nariz. Você consegue confirmar se ela voltou da Nova Zelândia? A viseira esconde os olhos para quem a olha, mas permite que observe cada um ao seu redor. O que me faz pensar ser a Paula é o corpo grande e largo, as saias rodadas com tênis e um jeito duro de pisar. Ela um dia chegou perto de mim como se quisesse confirmar quem eu era. Estava distraída, concentrada na música nos meus fones e quando a notei, ele se afastou rápido. Se não é a Paula, é uma mulher com alguma mistério, mas se for ela mesma já me reconheceu de outros dias e só não me cumprimenta porque quer evitar o assunto César, desculpe- me falar dele se novo. Paula deve sentir vergonha do irmão explorador de viúvas.
Fique sossegada, Charlene. Se for ela, nem vou perguntar sobre o César. Logo agora que você já está recuperada e longe das canalhices deste homem. Estou enganada? Você me garantiu que ele não foi o motivo de se mudar, mas se o aproveitador souber desta tua casa enorme, vai inventar algum drama barato e pedir reconciliação pra te tirar mais dinheiro, não vai? Cuide para que ele não saiba. Melhor não exibir os teus luxos nas redes. Só mesmo se você o quiser de volta. Desculpa me intrometer, mas você sabe como sou sincera. E sei muito bem que exceção da parte referente a ele, nada aqui nesta carta deve te interessar.
Ainda tem vontade de vir para São Paulo? Se tiver, vou reforçar o convite que fiz na nossa despedida. Venha e fique na minha casa. Não é uma mansão como a sua, mas tenho lá meu escritório que serve também como quarto de hóspedes. Daí, até aceito ver aqueles musicais chatos nos teatros e as exposições imersivas igualmente horríveis. Como vê, estou ficando mais tolerante. Acho até que tenho atraído passarinhos. As pombas não contam, mas os sabiás do parque já não têm medo de mim e esperam eu chegar bem pertinho para voar e fugir. Estou pensando em praticar ioga e meditação com aquele grupo que faz aulas aos sábados.
Outro dia, não era um sábado, um moço a que vou chamar de havaiano, abriu um tapetinho no gramado entre as árvores e acendeu um incenso para meditar. Na verdade, acendeu primeiro uma vela e depois um incenso. Ele prendia os cabelos longos num coque no alto da cabeça com um par de varetas e tirou a camisa para o ritual. Numa linha enviesada a ele, num banco antes da primeira curva da pista, uma jovem lia um livro de capa vermelha com o título Ho’oponopono. Talvez por alguma associação com a palavra, achei que o moço de olhos meio puxados era um havaiano. O cheiro do incenso ia longe e era muito bom. Senti até que eu pegava uma brisa de meditação. Desculpe. Desculpe. Você nem quer saber destas coisas. Eu achava que a ho’ponopono era uma espécie de namastê, mas não é nem cumprimento nem despedida é só uma técnica para praticar o perdão. Se você achar bonito e interessante para seu inferno de vida com o César, perdoe a pessoa, mas bem de longe. Só em pensamento já está bom demais, não é?
A moça do livro intercalava a leitura em voz alta com consultas ao celular. Ela mantinha as pernas cruzadas e mexia muito um dos pés num ritmo nervoso que não combinava com o tema do livro. Quando a gente caminhava, o parque não tinha assim tanta gente da paz e das boas vibrações. Você e o César iam detestar. O César, que cultivava costeletas odiava os homens de coque. Isso era você que dizia.
Chega deste assunto desagradável. César é passado, você está numa outra cidade, a Paula, se for a Paula, nem vai me procurar pra falar dele. Escrevi mesmo pra saber de você e contar umas notícias bobas. Espero o seu convite pra conhecer sua nova casa e espero também que isto aconteça antes de virarmos senhoras curvadas como a nossa velhinha. Vi ontem que ela está usando cílios postiços e unhas de gel igualzinho à cuidadora.
Gratidão.
Um beijo e fique em paz!
Namastê.
Cátia
