Coruja não dorme

Queridinha Laura, Laurinha do meu coração

Adorei receber sua primeira cartinha. A gente aqui não tem muita coisa para fazer, por isso fica pensando na vida o tempo todo. E por isso é muito bom receber carta. Mas bom mesmo é receber cartinha de você e saber que você já está sabendo ler e escrever direitinho. Eu ainda tenho que quebrar a cabeça para escrever. Nunca acostumei a segurar o lápis direito. É por isso que pedi para o Bacharel me ajudar. Eu falo e ele vai escrevendo. Ele não é bacharel de verdade como aqueles do fórum, parece mais um professor de oclinhos redondo. Mas ele sabe fazer letra bonita, com esses floreios e perninhas que você está vendo. O Bacharel é meu peixe, até riu do que eu disse.

A bonequinha que te mandei é feinha mesmo, né? É que a gente não pode usar faca nem tesoura que os funças não deixam. O Bacharel está dizendo que você não sabe o que é funça. Claro que não, que cabeça a minha. São os homens que tomam conta daqui. Mas eu ia dizendo que a mamulenga ficou troncha mesmo. Se não quiser brincar com ela, dá para o cachorro morder, ele vai gostar. A Barbie eu vou comprar na loja quando sair daqui. Depois te conto isso.

Bom, não tema mais o molhado de que você fala. Um irmão aqui arrumou um cano não sei onde, catou uns panos velhos e deu seu jeito. Ele tem de nome Onofre e era encanador antes de vir pra cá. Ele é braço meu. Eu devia ter feito o Senai para também ser encanador ou eletricista, mas seu avô não deixou. Ele dizia que eu tinha de pegar na enxada e a escola punha minhoca na cabeça da gente. O velho era bem bravo quando queria ser. Agora as coisas são mais modernas. Sem estudo eu acho que nem se o sujeito quiser ganhar a vida de ladrão ele vinga. Eu acho que a escola é boa, mas não para mim, para você. Por isso que você precisa ir na escola direitinho, sem faltar. Mesmo que os coleguinhas manguem. Nessa hora, mostra a língua para eles.

Aqui só não melhorou a história do penico. A gente usa ele pra não ter de ir no boi de noite. Ah, boi aqui não é que nem o boi lá do curral perto da nossa casa, não, é outro. Como coruja aqui não é aquela que a gente ouvia de noite trepada na cerca e você ficava com medo, lembra? Mas os corujas daqui também ficam acordados de noite, só esperando a vaga na esteira para dormir de dia.Outra coisa que não melhora é a comida. Fiquei contente de saber que você está comendo verdura e tudo. É ruim, eu sei. É ruim mas é bom. Achei engraçado você falar de bacon e eu aqui comendo lavagem de porco. Você já aprendeu na escola que o bacon vem do porco? Então. E não se preocupa com essa coisa de emagrecer, não. Quando a gente morar junto de novo, você vai poder comer o que quiser. Eu vou fazer x-bacon, x-com-tudo. E você é você do jeito que você é, sua mãe era sua mãe, que Deus tenha ela em bom lugar. Ela era magrinha porque a gente não tinha muito para encher o bucho na época, vivia no corre. Antes de você aparecer, a gente não parava num lugar.

O vestidinho de Laurinha,
é de três babadinhos,
todos bordadinhos.
Se não formos depressinha,
Acabou-se o vestidinho
Todo bordado e floridinho!

Lembrei agora desse versinho que sua mãe cantava para você, lembra? Ela estudou para ser professora, acho que aprendeu no liceu. Ou era a letra de um cordel de feira, não sei. Saudade dela.

Você falou para eu não brigar aqui dentro. Não fica preocupada porque tudo melhorou desde a outra vez que o tio Valtinho me visitou. Agora não tem mais inimigos por perto. O presidente de agora gosta muito de mim. Eu sou braço dele. E o Presidente é a pessoa que manda aqui. Mais importante do que ele, só o juiz e o advogado e o xerife. Ele manda dentro e fora daqui. E tem um monte de irmão dele que agora vai ser meu também, aqui e na rua. Eu vou fazer parte da irmandade, como eles falam. Isso vai ser muito bom para mim e para você também. Você vai ver já, já.

Esta aqui deve ser a primeira e a última cartinha que você recebe de mim. Primeiro porque o Presidente prometeu que vai me dar um celular novo. E depois que tem umas coisas acontecendo que – vou parar de falar, você vai saber daqui em pouco. Agora o Bacharel vai ter de terminar porque está dando a hora de apagar a luz. Vai ficar tudo um breu, que nem na casa que a gente morava, só que sem lua. Mas não quero que você se preocupe comigo, eu sou que nem a coruja que não dorme. E, se calha de dormir, fica com um olho aberto.

Logo, logo, você a gente vai se ver, de um jeito ou de outro. Vou pedir para o tio Valtinho te entregar esta cartinha e dar um beijinho na sua bochecha lindinha.

Seu papai

p.s. acho que é assim que se dis
so eu que to escreveno agora no escuro discupe a letra ruin
vo pedi pro tiu valtinho nada nao
eli vai fica aqui cumigo pra eu fica de olho
ce num vai ve eli nunca mais
o onofre mais eu pegamo e tiramo a ropa deli
quem te entrego a carta foi o prezidente que ti falei
voce vai sabe que é eli purque eli vai ta coas mesma ropa do valtinho
viu como elis dois si pareci?

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