Pelo empate

por Américo Paim

Era a segunda despedida de solteiro de Rebouças. Sim, o cara teve duas. Na primeira, em um clube, eu estava viajando, uma semana atrás. Ele aí marcou outra, no seu apartamento. Batizou de “Véspera do apocalipse”. A bagaça seria grande: dançarinas, bebida, comida, vídeos de todo tipo, som de bate-estaca.

Cheguei cedo, claro. Ele tirou os móveis da sala, que virou pista de dança. O apê cresceu. As turmas da escola, da faculdade e do baba, colegas do trabalho e alguns de seus milhares de primos, todo mundo lá.  Rebouças todo animado, a mesma figura de sempre: alto, desengonçado, agora com cabelo Peaky Blinders e mais fortinho do que no tempo da escola, com apelido de “alfinete”. Me contou tudo sobre a primeira farra. Ficou tão doido que só acordou na noite do dia seguinte, sem lembrar das coisas. Porém, porque nomeou Arlindo, que não bebe e nunca exagera, seu guardião, garantiu não fazer nenhuma bobagem que arruinasse seu casamento antes mesmo do “sim”.

Quando o último convidado chegou, eu já estava de boa. Não bêbado, mas corajoso, eu diria. As meninas dançando e as rodas de conversa em todo lugar. Foi em uma delas que aconteceu o que eu jamais poderia esperar ou prever.

Cirinho, amigo da faculdade, me chamou para resolver uma situação. Havia cinco caras na roda, falando de futebol. Era sobre um gol, um resultado e um título: campeão universitário. Confirmei quem fez o gol e que o outro time jogava pelo empate para ser campeão. Eu estava no time que perdeu de 1×0. Nunca esqueci aquele jogo. Daí a conversa evoluiu com tretas sobre torcedor “raiz”, do estádio ou “Nutella”, da Internet. Um sujeito que eu nunca tinha visto, risonho, com uma cara quadrada e a barba fechadona, se exaltou e abriu a camisa, descobrindo a tatuagem do escudo do seu clube, do lado esquerdo do peito. A zoeira foi geral. Só que ao fazer aquilo, ele mostrou mais: o que estava pendurado em seu pescoço. Eu não podia crer no que via: aquela corrente era minha! Eu tinha certeza. Como aquilo era possível? Ela estava perdida, há muitos anos.

Se deu quando eu namorava Belinha. Um ano do namoro, os dois com dezoito, apaixonados. Nessa época, meu avô me deu um mimo porque passei no vestibular. O velho era meu parceiro. Me deu a primeira bola, o primeiro par de chuteiras. Me levava pro estádio. Ele vivia com a gente depois que a vó tinha morrido, cinco anos antes. Me chamou no quarto dele me deu uma caixa pequena de papelão. Era uma corrente com elos firmes e uma medalha, um crucifixo colocado sobre uma meia cana, tudo de prata. Ele mandou derreter joias dele e da vó. Atrás da cruz, usando um espelho ele me mostrou um “R” em baixo relevo. Era a minha inicial, de Reinaldo, mesmo nome dele. Um ano depois, ele morreu de pneumonia. Fiquei arrasado. O presente virou nosso elo, como se o velho ainda estivesse por ali. Usava sem parar.

Meses depois, estava com Belinha em uma barraca de praia. Chamei para um mergulho e ela não quis. Não queria se queimar mais no sol nem estragar o cabelo. Como sempre fazia, tirei a corrente, com medo de perder no mar. Ela adorava meu talismã. Deixei a seus cuidados. Quando voltei, nada dela ou das minhas coisas. Antes que eu surtasse, ela apareceu, chorando. O roubo aconteceu enquanto ela foi ao banheiro. Só deixaram os documentos. Perdi a cabeça e falei muita besteira para ela, na frente de todo mundo. Cena lamentável. E continuei surtando com o dono do local. Que espelunca era aquela? Como assim só a nossa mesa? Ele sugeriu que era a mais próxima da saída para a rua e que fizesse o BO para a polícia encontrar o ladrão. Poderia ser gente da região. Registrei e acompanhei por um tempo, até desistir e reconhecer a perda, sem esperança. O relacionamento com Belinha acabou ali mesmo, apesar dos meus inúmeros pedidos de desculpas. Eu fiquei mal. Tinha feito um gol contra. Agora estava 2×0. Achava que ela era a mulher certa para mim. Me custou mais de ano para superar. Me formei e aceitei um trabalho fora da cidade. Nunca mais vi Belinha. Vieram outras criaturas no processo de “cura”, mas não funcionou para esquecê-la.

Como a corrente foi parar com aquele cara, eu já nem me importava. Só queria tomar de volta o que era meu. Peça única. Não se vendia em loja. Sem chance de confundir. Comprou com receptador? Era ele o ladrão? Não parecia e nem fazia diferença. Foquei em como tirar aquilo dele. Observei sua conduta na festa. Vigiei de longe. Ainda tinha tempo, ninguém iria embora tão cedo. Esperei paciente a cachaça fazer a sua parte. Aí me meti nas conversas em que ele estava. Não demorou e ele já me via como amigo novo, desses de cachaçada. Enquanto fingia beber, enchia o copo do cidadão. Fiquei esperto para ninguém notar e maldar meus movimentos. Só pensava na chance. Não ouvia a música. Não via as meninas dançando. Só olhava o pescoço ladrão.

Demorou até ele ficar no ponto. Afastei o cara dos grupos, até ficarmos só os dois. Ele estava na boca da perda total. Aproveitei o barulho da galera vendo uma dança do ventre, e o levei até o banheiro da área de serviço, longe de todos. Lá, antes que ele vomitasse, fiz que tirasse camisa, relógio e… a corrente. Sentei o cabra no vaso sanitário. Ele ainda falou muita merda, mas enfim dormiu ali mesmo. Peguei o que queria, larguei ele lá, me despedi do Rebouças com uma desculpa plausível que já nem me lembro e vazei. Em casa, conferi. Tudo íntegro. Lá estava o meu “R”. Tomei mais uma cerveja, com um brinde ao velho e diminuí a contagem. Agora estava 1×2.

Nos dias que se seguiram, ninguém falou, não fui procurado para nada. Chegou o casamento. Eu não deveria ir com a corrente, mas fui e deixei fácil de ver. Confiante. Se o ladrão aparecesse, eu não entregaria sem luta. Cheguei à igreja, só que não entrei. Estava cedo. Pouco depois, o cara apareceu. Não me reconheceu ou nem olhou para mim. Um alívio. Entendi que a cachaça foi mesmo absurda. Ia entrar, mas reparei a mulher que estava com ele. Era bonita e não só isso. Eu conhecia aquele sinal no pé da orelha e o nariz insinuante. Tudo se confirmou com o movimento de cabeça para o lado, ao sorrir. Era ela, Belinha. Que coincidência triste. A aliança na mão esquerda me doeu. Ela me olhou por segundos e logo viu a corrente, onde fixou o olhar. Sua expressão mudou. Olhos e boca se abriram em espanto claro. Um misto de aflição com incredulidade. Eu achei que era por me ver. Não era. Entre decepcionado e pasmo, me deu um estalo, voltei àquela praia e compreendi. Ela notou e puxou seu marido rápido para dentro da igreja. Ela foi a mulher que eu quis a vida toda, até aquele instante. Era para me sentir ainda mais derrotado, porém, foi um livramento, como diria meu avô. Encarei como 2×2. Nesse caso, considerei que jogava pelo empate.

Deixe um comentário