O mais importante, talvez, fosse conseguir chorar antes que tudo acabasse. Helena se olhou no espelho do banheiro por longos minutos sem piscar. Ela viu: seu rosto nada inchado, até um pouco seco; a pinta marrom escura sob seu lábio marrom claro, que tremia; e seus olhos vermelhos e ressecados pelos longos minutos sem piscar. Ela não viu nenhuma lágrima.
“Você pode entrar pra dar uma olhada nela?”.
“Claro, seu Rui”.
Ao perceber a maçaneta girando, Helena se adiantou, abriu a porta e saiu do banheiro. Rui, seu pai, tinha o rosto totalmente inchado, a careca fosca e duas grandes bolsas roxas sob os olhos borrando a pele branca quase rosa. Silene, sua ficante-quase-fixa, tinha um pano branco na cabeça, a ponta dos dreads para fora do pano e o preto retinto da pele destacado pelo branco do pano, mas desbotado pela falta de sono. Os dois se retraíram ao ver Helena. Silene soltou a maçaneta. Rui passou a mão na careca como quem tira a franja dos olhos.
“Ela chegou, filha”, disse Rui.
“Oi, bebê”, disse Silene, e a abraçou.
Helena sentiu o cheiro insuportavelmente bom da mistura de cigarro com roupa limpa e se soltou do abraço. No salão em frente à capela, muitas pessoas de preto, algumas de branco e duas grandes coroas de flores. Uma delas dizia: “Saudades eternas de sua família”, presente de um primo que não aparecia há vinte anos. A outra dizia: “Gratidão eterna à nossa mestra querida”, presente de um grupo de alunos formados e ausentes há mais de trinta anos. Helena recebeu os abraços de algumas pessoas e entrou na capela com Rui, que fechou a porta.
Sobre a mesa havia um caixão. Helena encostou a cintura na borda da mesa. Ela viu: uma coberta de flores até a cintura; um rosto de mulher totalmente inchado, como se fosse uma grande bolha d’água; uma pinta marrom escura sob o lábio marrom escuro, imóvel; e dois olhos fechados, sem piscar. Rui filmava o caixão e pela tela do celular Helena viu Vinícius, seu irmão, com o rosto inchado e a pele marrom clara desbotada pela falta de sono e de sol e de vôos diretos da China para o Brasil.
“O que fizeram com seu nariz, mãe?”, Vinícius disse. Sua voz chiava pelo choro e pelo mau sinal do wi-fi da capela.
Rui ainda não tinha comprado um plano de dados maior, seu 3G nunca durava até o fim do mês e era o fim do mês. Helena olhou para dentro do caixão e constatou que o nariz da mãe estava amassado. Era um nariz largo para os lados, com um osso bem pequeno, mas de pontinha redonda em arrebite. Porém a ponta estava achatada, como se a maquiadora tivesse apertado para baixo com força. Helena viu Rui puxar um papel higiênico do bolso do paletó e assoar o nariz, Vinícius soltou um chiado parecido pelo celular. Os dois choravam e os olhos de Helena, sem nenhuma lágrima, se pregaram no relógio em forma de cruz na parede da capela.
“Eles atrasaram pra trazer. A administração mandou acelerar”, Helena disse e abriu a porta da capela.
Entre parentes e ex-alunos ausentes há anos, apareceu Edmilson, um homem barrigudo de pele marrom clara e bigode, o chefe de sua mãe. Ele tinha o rosto tão inchado quanto em qualquer outro dia. Deu um abraço frouxo e leve em Helena e outro pesado em Rui, um aperto de barrigão contra barriguinha.
“Sempre foi você, Rui”, Edmilson disse. “No final das contas, sempre foi você. Eu nunca fiz nada direito”.
“Que isso, Milsinho”, Rui disse, muito sério. “Ela sempre jogou na minha cara como você era bom, como nunca reclamou de mijar sentado. Eu que sempre fui um porco”.
Helena viu Rui disfarçando o orgulho e Edmilson exagerando a vergonha, os dois com um tom forçoso de amizade nos gestos e um brilho sincero de culpa nos olhos. Ela revirou seus próprios olhos, saiu da capela e encontrou os de Silene. As duas foram para o lado de fora do salão cheio de pessoas de rostos inchados. Silene pegou o isqueiro e suas mãos tremiam. Helena arrancou o isqueiro das mãos de Silene, acendeu o cigarro dela e depois o seu.
“Olha, obrigada por vir, de verdade”, Helena disse. “Mas não precisava”.
“Bebê, eu sinto muito mesmo. Pela sua mãe, mas por tudo também”, Silene disse.
Os olhos de Silene estavam molhados e vermelhos e a pele preta retinta desbotada pelas duas noites sem dormir. Duas noites antes, elas discutiram porque Helena gostava de transar ouvindo funk e Silene disse que “ouvir senta-senta enquanto lambe buceta é coisa de hétera enrustida”. A briga durou duas horas e Helena não atendeu as várias ligações da mãe, que esvaziou duas caixas de tarja-preta e morreu dez minutos depois do fim da briga.
“Pelo amor de deus, porra. Só pode ser sacanagem”, Helena disse e esmagou o cigarro no chão.
Um garoto comprido e magricelo cruzou o portão do cemitério. Ele chegou em frente às duas, abaixou a cabeça ao ver Helena e entrou apressado no salão.
“É ele?”, Silene perguntou. “Mas ele é tão novinho”.
“Claro, porra, ela não era professora universitária”, Silene disse e apertou as pálpebras para aliviar a secura dos olhos. “Eu não aguento um barraco agora. Puta que pariu”.
Helena pediu para Silene ver o clima no salão. Silene foi, voltou e disse:
“O barrigudo de bigode tá puto, dando um esporro no menino. Chamou de moleque desalmado e tudo”.
O garoto comprido e magricelo saiu do salão chorando.
“Ei, você tá indo embora?”, Silene disse.
“O diretor disse que eu não sou bem vindo”, ele disse, enxugou o rosto e fungou o nariz.
“Como se ele fosse”, Helena disse e cuspiu uma placa de catarro amarelo com manchas pretas. “Se você quiser ficar, você fica. Seus pais sabem que você tá aqui?”.
“Eu tenho dezoito anos”, ele disse engrossando a voz e fungando.
“Então pronto, foda-se a dor de cotovelo dele. Qual é o seu nome?’, Helena perguntou.
“Pedro”, Pedro disse. “Dor de cotovelo? O diretor?”.
Helena agarrou o braço dele e o arrastou pelo salão até a capela. Rui e Edmilson conversavam ao pé do caixão.
“Depois que o rabecão foi embora, eu fui mijar”, Rui disse. “Fiz em pé, pela primeira vez desde o divórcio. Mas aí eu vi umas gotas de mijo seco no vaso”.
O queixo de Edmilson ainda não tinha terminado de cair quando Helena chegou e colocou Pedro em frente ao caixão. Ele continuou a chorar, a tremer e a fungar o nariz. Seu rosto seco inchou na hora e a penugem do bigodinho se encheu de catarro.
“Você não decide quem fica ou não fica, entendeu?”, Helena disse. “Já não tá bom denunciar ela pra Secretaria?”.
Os parentes e os ex-alunos ausentes há muitos anos cochicharam e arregalaram os olhos, alguns molhados e outros secos. A cabeça de Edmilson procurou um buraco. A cabeça de Rui girou muitas vezes, de Edmilson para Pedro, de Pedro para Edmilson. Helena foi chamada na sala da administração e se sentou em frente à gerente de pele branca quase verde, provavelmente pelos muitos anos cobrando uma nota preta para enterrar cadáveres pálidos.
“O valor é esse aqui. Mas já foi quitado pelo senhor Edmilson, foi uma cena muito emocionante,” a gerente disse. “Você só precisa assinar os documentos e finalizar a cerimônia. O outro corpo já chegou”.
Na capela, o coveiro já a esperava para fechar o caixão. Rui chorava e olhava chocado para Pedro, pois tinha acabado de descobrir sua existência. Edmilson olhava chocado para Rui, pois tinha acabado de descobrir que ele estava tentando retomar o casamento até dois dias atrás. Pedro olhava com uma calma triste para dentro do caixão. Helena entrou, encostou a cintura na mesa e beijou a testa da mãe. Sentiu o cheiro insuportavelmente bom da mistura de cigarro com roupa limpa e se esforçou para conseguir chorar, pois tudo estava acabando e ela era a filha mulher, ela tinha de chorar. Com os olhos sempre secos, Helena agradeceu a presença de todos e disse que iriam se despedir com a canção favorita de sua mãe. Silene deu o play numa pequena JBL:
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
Os parentes e ex-alunos cheios de ausência e saudade jogavam flores dentro do caixão, davam adeus e choravam. Silene chorava. Edmilson chorava. O coveiro chegou a dar uma fungadinha. Rui, chorando e inchado de ciúme, cochichava alguma coisa e sacudia o braço de Pedro, que chorava. Helena fechou os olhos e tentou abrir os ouvidos apenas para a canção:
Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
“Porra, Edmilson”, Rui gritou em voz baixa. “Ela deixava esse merdinha mijar em pé”.
“Seu moleque desalmado”, Edmilson gritou em voz alta. Rui e Edmilson agarraram Pedro.
Helena tacou a JBL na parede, que parou de tocar antes do fim da canção. Ela chutou as coroas de flores, xingou e expulsou os dois homens e o garoto, os parentes e ex-alunos ausentes há muitos anos, Silene e até o coveiro. Sozinha, tremendo e respirando fundo, ela abriu os olhos da mãe e conseguiu soltar uma lágrima. Helena enxugou a lágrima, fechou os olhos da mãe e chamou o coveiro de volta para fechar o caixão.
