Carta para a Juju

(Leticia Eboli)

Juju, 

Nos últimos dias parece que tenho dormido na minha casa e acordado nela só que tomada por móveis e objetos desconhecidos. No centro, um sofá cinza de camurça de sala de espera, cadeiras de escritório de pequenas causas na sala de jantar, luz inquisitória de dermatologista. Eu sei que tenho reagido aos últimos acontecimentos com uma frieza alugada, na qual não me reconheço. 

Ainda bem que “tudo que nós tem é nós” e no meio disso me veio uma memória muito aleatória. Se lembra na viagem da escola para o Hotel Serra Real (do primeiro ou segundo ano?) quando a gente roubou quadro do nosso quarto? Um quadro não, o “Pipelli”, como era assinado. Era um barco mal pintado a beça que jamais estaria navegando em oceano ou rio. Porque levamos logo aquele quadro? Acho que foi para compartilharmos juntas de um ato transgressor. O quadro era só um mero objeto “da vez”. Talvez a Mariana não estivesse errada quando se justificou que casaria com o Marquinhos porque ele era o “da vez”. Que atire a primeira pedra quem nunca foi a “da vez”. Eu fui quando meus pais transaram e me tiveram. Idem com você.

Hoje em dia fico pensando que talvez a gente tenha é salvado o quadro. Ele viveria e morreria ali naquelas paredes de chapisco brancas, vendo centenas de pessoas passarem, assistindo cenas de sexo, choro de criança e bebedeiras aleatórias. Tudo bem que o fator momento é importante, mas a vida ganha contorno na intimidade. 

Nesses mais de trinta anos da nossa amizade, o meu pão com manteiga ganhou açúcar (e colesterol!). Achei engraçado na primeira vez que dormi na sua casa, a gente devia ter uns sete anos. Seus pais, o Joca e você na naturalidade do café da manhã passando manteiga no pão e depois o mergulhando o lado da manteiga no açucareiro. Primeiro fiquei foi é com nojinho. Pelo pão e pelo açucareiro com fósseis. Isso seria reprovado na minha casa como filha, mas é hábito na minha casa como mãe. 

Minha mãe que não me escute mas no lar que construí você – e os seus – estão presentes em muitos gestos. O açúcar na manteiga, o Nescau gelado tomado de colher fazendo barulho, a panqueca de banana amassada com mel dos finais de semana. Hoje é impensável me sentar a mesa e ter uma faca por pessoa e não uma faca por item. Uma para o pão, uma para o queijo, uma para a geleia… Aliás, isso virou mania. Observar que tipo de pessoa aquela é: a que usa uma faca para tudo ou a que tem a faca de acordo com o alimento. Eu nasci num lar de uma faca pra tudo mas a cutelaria desse nosso tantão compartilhado me moldou a ponto de te chamar de irmã. Isso me define profundamente. 

Agora, burra velha, ter que, de uma hora pra outra, aceitar que além do Rafa, existe um tal de Igor. Meu pai quer a todo custo que eu o acolha. É como ter um Pipelli – só que sem a história dele – na sala de jantar. E você melhor do que ninguém vai entender que isso vai bem além dos laços de sangue. To cagando que meu pai tenha pulado a cerca, eu sempre soube, minha mãe sempre soube. As cercas já até davam pezinho pra ele pular. Graças a Deus minha mãe mesmo tardiamente separou os faqueiros. Espero que ela tenha força para conseguir se sentar na cabeceira e que pela primeira vez na vida pense como deseja usar seus talheres.

Outro dia, aprendi essa frase que agora estou bordando como quem tenta costurar a intimidade roubada: “Se só guardamos lembranças dos momentos tristes ou alegres, enlouquecemos, felizmente existem os restos.*” Não será um Pipelli mas ficará bom na sala de jantar. 

Com amor, Cecilia. 

PS1: Você sabe aonde ficou o Pipelli?

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