por Américo Paim
Chego sozinha à festa. Ainda é cedo, os amigos não chegaram. É aniversário do gerente Menezes, meu chefe. O escritório todo vem. Preciso me mostrar. Vim para matar: vestido branco favorecendo a morenice, maquiagem discreta, mas bonita, cabelo provocante e perfume ninguém vai ignorar. Estou “o poder”. Entro desfilando confiança e escolho uma mesa estratégica. Cibele vem direto falar comigo. Lacraia fofoqueira… Vixe, tá acabada, parecendo um velocípede dentro dum saco de pano, afff. Tenta puxar papo. Corto logo. Invento um toilette, largo a mocréia lá e dou uma circulada. Está enchendo rápido. Peço uma “mentiroska” no balcão e no primeiro gole tomo um susto. Ovídio aqui? Como sabia? Ih, já me viu…
– E aí, gata, tudo bem?
– Tá fazendo o que aqui?
– É assim que fala com o namorado?
– Tá me seguindo? Hoje é dia livre!
– Foi só coincidência. Conhece o Menezes de onde?
– Meu chefe.
– Oxe, nunca me falou. Vim com meu tio, amigo de infância dele. Acredita?
– Claro que não.
– Eu nem sabia que tu tava aqui, gostosa.
Vem me beijar. Eu desvio e desapareço no meio do povo. Que porre. Dia livre é sagrado e ele sabe. Ovídio é escroto, só que tem borogodó. É malhado, cheiroso. Tenho meus gostos e ele é bom no ofício. Fico de olho nele no salão. Talvez seja verdade que ele não sabia. Acontece que não abro mão do dia livre. Ele que lute na festa. Escaneio o local atrás de alguém interessante. Olho para a mesa de doces e quase me engasgo com uma coxinha de frango: o que ele faz aqui? É reunião de encosto hoje? Dia livre, por favor! Tá difícil entender isso? A barba e o cabelo estão curtos, diferentes, mas é ele mesmo. Aquilo de não parar quieto, o mau gosto para se vestir. Aliás, de onde veio esse visual? Alguma vadia? Eita que se Ovídio perceber, vai dar merda. Porra, já viu. E lá vem… Ele chega e me pega pelo braço, na frente das amigas, bruto que só. Me encosta numa parede. Me dá até um nervoso, porém, logo me recupero. Ele fala grosso.
– Véi, dia livre, né? – ele tá puto.
– O que foi?
– Seu queridinho, o leso do Valtencir, tá aqui.
– Hein? Tá doido?
– Olha ali perto da porta da cozinha.
– Que inesperado.
– Ah, tá. Aquele corno não sabia de nada?
– Lhe garanto. Agora, corno por corno…
– Ei, parou!
– Não vá fazer cena. Vai acabar mal.
– O quê? Tá de brincadeira…
– Ovinho, ele nem sabe de você.
– Porra, véi, dê seus pulos. Manda esse cara vazar.
– Oxe, pirou? A festa né minha não.
– Então vou lá.
– Epa, nada disso. Sabia muito bem quando se meteu comigo.
– Acha que sou idiota?
– Ovinho, tá muito nervoso. Repare, de noite vá lá em casa. Hoje eu faço tudo.
– Tu… tudo? De verdade? Olhe…
– Prometo. É só se comportar aqui.
– Faz o “esqueleto dengoso”?
– Faço.
– E o “cavalo planador”?
– Hum… tá animado, né? Ok, eu deixo.
– Faz “as quatro estações”?
– Não, aí também não. Já falamos disso.
– Porra, por favor…
– Pegar ou largar. Ou então terminamos.
– Não, não. Mas não me corneie aqui.
Nem respondo pra não “dar ozadia”. Volto pra mesa. Gosto desse jeito dele, só que vai ser grudento assim… Valtencir tá numa conversa animada. Fofinho, educado, cuidadoso. É um cavalheiro, um homem bom. Me sinto uma “lady”. Adoro mostrar o pobrezinho. Ele é bem apresentável. Só que a falta de pegada e aquela vírgula no meio das pernas… O mundo não é justo, fico dividida. Alguém propõe um brinde, a cachaça já tá dando liga. Paro de rir com os bêbados porque vejo Ovídio conversando com Valtencir. O que esse cabeça quente dos infernos foi falar? Não demoro a saber. Tencinho me vê e vem.
– Rose, que surpresa você aqui.
– Tencinho, querido, hoje é dia livre, esqueceu?
– Não. É que tava trocando uma ideia ali com um cara que nunca vi na vida.
– Eu vi daqui. Papo demorado, né?
– Pois é. Me disse umas coisas…
– O que é que esse filho da… quer dizer, o rapaz disse?
– Das coisas que ele faz na cama com a namorada, vê se pode…
– E daí?
– É que a descrição parecia muito com você, Rose.
– Oxe, eu sou exclusiva?
– Né isso, não. Falou de um sinal no umbigo, de umas posições que você reclama que eu não faço.
– Cê tá desconfiando de mim?
– Não, repare bem. Eu sei que você tem outro e até já aceitei.
– Então não me aborreça com bobagem.
– Mas o outro não era o testudo?
– O nome dele é Adroaldo. Nem combina com você falar mal do moço.
– É aquele feio, da cabeça grande, né?
– Tudo ali é grande, fio. Vai querer falar disso mesmo?
– Não peraí, peraí… Ô, Rose, para com isso, a gente só tá conversando.
– Então contenha-se.
– Tá bom. É que você sempre diz que ninguém é como eu, que eu lhe trato bem.
– Eu gosto muito de você. Me sinto uma dama.
– Lhe levo pro teatro, por cinema. Não acha que deveria ficar só comigo?
– De jeito nenhum. Não gosto assim. Não tá satisfeito, melhor puxar o carro…
– Não, não, tá bom. E esse cara contando vantagem?
– Eu lá vou saber quem é? Me deixe, viu?
Saio dali retada. Deixo Tencinho no vácuo. Tenho pensamentos homicidas sobre Ovídio. Mexendo nas regras do jogo? Peço uma vodca no bar. E outra. Dou mais uma volta. Aqui tá cheio de homem bonito e eu me estressando com esses dois. Encontro as amigas, que me contam suas histórias, uma putaria só, safadinhas. O que elas querem saber mesmo é das minhas transas, sou a referência. Menezes pega o microfone. Agradece e tal e coisa. Anuncia: o escritório tem um novo sócio. Chama a pessoa e eu cuspo a vodca toda: é Adroaldo. Uau, hora de incrementar a relação. Começamos há pouco tempo. Ele é feio, não dá pra esconder isso, mas é gostoso. Nem cavalheiro, nem tarado, só que tem grana e eu não vou perder essa boquinha. Preciso saber mais. Pego outra vodca. Vou a ele, que se surpreende.
– Rosália… O que faz aqui? Não é dia livre?
– Tudo bem, Dinho? É sim. É que eu trabalho no seu novo escritório.
– Olha só… Isso devia facilitar as coisas.
– Foi o que pensei, tesudo – eu já bem saidinha.
– Pena que não vai rolar. Vi Ovídio aqui. Você acha que eu sou otário?
– Não faço ideia porque ele veio.
– Me engana que eu gosto.
– Sério. Vamos comemorar lá em casa?
– Vai me ganhar com sexo? Só faço o que eu quero.
– Eu sei, mandão. Venha, vou lhe mostrar o que é bom – eu já bem alegrinha.
– Só vou com uma condição.
– Fale, fale tudo.
Ele não responde porque os outros dois aparecem juntos e cheios de razão. Os três se olham e logo entendem a situação. Não estou em condições de pensar e muito menos me desculpar. Vou para o acordo.
– Vocês sabiam desde o início.
– Porra, três é foda, Rose! Sou corno duplo! – brada Ovinho.
– Um absurdo, Rosália – fala Tencinho.
– Você é bem vadia – completa Dinho.
– Foi mal, não se fala mais nisso, então.
– Ué, vai deixar a gente na mão?
– Oxe, se nenhum dos três resolve? Só se juntasse tudo em um só.
Eles silenciam. Dinho chama os outros à parte. Conversam, às vezes olham para mim. Fico curiosa, impaciente. Voltam com um sorriso malicioso.
– Então, Rosália, você quer os três? – começa Dinho.
– Sim.
– OK, mas tem uma proposta pro dia livre – diz Tencinho, cara safada, que nunca teve.
– Não estou gostando desse tom…
– Dois dias de cada e um dia livre por semana. Topa?
– Já tá assim, né?
– Com uma mudança: um dia livre no mês cê vai com os três.
– Pra onde? Não entendi.
– Ora, Rose – ri Ovinho.
– Juro que não.
– É isso ou lhe entregamos pro Menezes – ele continua.
– Ele é muito conservador – fala Dinho.
– Não vai tolerar – fecha Tencinho.
– Tu vai rodar… – ameaça Ovinho
Ele mesmo fala no meu ouvido o que eles querem. Eu tento rebater e ele insiste. Me afasto assustada. Eles estão num misto de riso e expectativa. Desesperada com o que ouvi, falo bem alto:
– Nem fodendo: “O bom, o mau e o feio” eu não faço!
