Sugar Mama de baixo orçamento

por Ale Kalko

Na última vez que você saiu daqui eu fiquei cheia de raiva depois. Raiva porque não sabia que eu tava com tanta saudade de você e porque eu queria ter conseguindo gozar contigo. Eu precisava de pelo menos mais meia hora eu acho, mas aí você teria perdido o teu ônibus. Já era tarde e eu sempre fico com remorso que eu já tô na minha caminha de princesa-do-castelo-de-branquela-privilegiada enquanto você ainda tem mais duas horas de condução, vai botar teu filho na cama e acordar antes das sete pra levar ele pra creche, o que te dá uma média de três horas de sono. Acho incrível que você consiga ser tão ativo e ainda comparecer tão virilmente, dormindo tão pouco. Eu até hoje não sei se você ronca ou se fala sonhando, já que você nunca amanheceu aqui. Nunca deu tempo de perguntar. 

Eu fiquei com raiva porque você não se deu ao trabalho de desamarrar a bota e tirar a calça. Como é que você espera que eu goze assim? O Valdir avisou que você tava subindo mas eu achei que você não vinha mais. Você tinha dito que vinha umas nove e quando o interfone tocou já era quase meia-noite. Eu já tava de pijama. Tive que seguir sozinha. Consegui gozar você já devia estar no segundo ônibus. Eu repassando mentalmente as outras trinta e oito vezes que você veio aqui, tudo o que me dá tesão em você, tudo o que me dá tesão quando a gente transa. 

Eu gosto quando você sapeca a minha bunda como alguém que tira o excesso de água de um maço de tempero. Mas odiei quando eu te disse que eu gostava e você achou que tava arrasando quando emendou dez seguidas, uma atrás da outra. Minha bunda vermelha e eu tendo que explicar que eu gostava de uma sardelada só. Numa determinada hora específica.

Queria que você ficasse mais, mas não posso pagar teu uber sempre, sabe? Dá quase cem reais a corrida e eu quero clarear o dente ainda esse ano. A primeira vez que eu te pedi um carro eu lembro que tava chovendo horrores. Era sábado e você saiu do trabalho depois das 2 da manhã. Considerei uma gentileza já que eu tinha gozado três vezes. Mas depois eu fiquei com algumas questões morais. Se pagar teu uber me colocava num lugar de Suga Mama. Se a partir dali você ia começar a me sujeitar a pequenas extorsões. Tô esperando você devolver aqueles 250 pilas até hoje, aliás.

Eu nunca achei que eu me veria nesse lugar de Suga Mama aos 47 anos. Achei que eu tinha que ser uns vinte anos mais velha pra isso. Tudo bem que eu sou vinte anos mais velha do que você, mas não tenho essa grana toda aí pra essa hashtag, viu. Eu sempre te disse que não queria namorar, que não queria que você se separasse da tua mulher ou largasse teu filho. Não tenho vocação pra madrasta. Minha vida tá bem boa assim. Eu sigo não querendo te namorar, só quero que você me foda.

Você me fode de um jeito bom. Eu não sou uma pessoa magra e isso nunca foi um problema pra mim. Mas tem um jeito que você me pega que não é nos meus excessos de carne. Você me levanta e me come de pé, minhas pernas entrelaçadas no teu corpo. Você me pega na base da bacia. Você fode a minha estrutura óssea. Eu te confesso o medo de cair, você me segura e responde, confia.

Eu só quero que você me foda mas tenho medo disso nunca mais acontecer. Uma vez você chegou mesmo a se despedir. Lembra? Terminando de se vestir no hall, chamando o elevador, fechando o cinto, o pau ainda duro dentro da calça. Você disse que não podia vir mais, que ia largar a noite, voltar pra igreja, terminar a faculdade, passar mais tempo com teu filho. Eu só te disse obrigada por tudo mas você voltou depois, umas dez vezes ainda. Onze com a última que já tem uns três meses.

A primeira vez que você veio aqui você e a mãe do teu filho tavam separados mas moravam na mesma casa. Eu lembro que depois da gente ter transado eu te perguntei se vocês ainda tinham alguma coisa e você soltou um “é complicado”. Eu tava seguindo à risca a minha decisão de livramento kármico de não me envolver com pessoas comprometidas mesmo que não-monos ou em relacionamento aberto. Ter transado contigo furava o meu esquema. Fiquei com uma raiva/espírito de sororidade porque você tava ali me comendo e soltando um “é complicado” mas quem tava em casa com a cria e provavelmente lavando tuas cuecas era ela. Mas aí eu descobri que você não usava cuecas, coisa da tua vó bruxa que falou pra você não usar cueca pra mulher não fazer feitiço de amor. 

Tô passando mal de saudade. Meu status de relacionamento é marília-mendonça-no-repeat. Se eu tivesse uma cueca tua aqui você tava lascado. Esses dias nem fui trabalhar. Botei a culpa na bivalente que ainda nem tomei. Sem força pra sair da cama igual. Cogitando espalhar cartazes nos postes do Terminal Bandeira tipo calopsita-perdida-criança-doente-recompensa pra ver se te comove. Tem dois meses que você me escreveu pedindo os 250, falou que devolvia na semana seguinte. Eu até achei que era algum golpe de conta clonada, mas você mandou uma foto tua sentadinho na carteira da faculdade e eu fiz o pix. Não quero o dinheiro de volta não. Quero você. Quer? Eu te dou 500. Deixo pra retocar a raiz no mês que vem.

Fiquei voltando no teu instagram pra ver tuas fotos. Pra lembrar do cheiro da tua pele. Pra ver como eram os teus dedos fora dos meus buracos, teus dedos livres do meu gosto, teus dedos livres dos meus dentes enquanto você mete em mim por trás. Você tá indo na missa? Tá estudando direitinho? Tá trabalhando onde? Tá comendo a tua mulher agora? Rolei tudo até chegar em 2015. Já decorei todas as tuas fotos. Você postou uma acompanhado. Abraçado com uma mulher. A mulher que aparece ali é “ela”? Imaginava diferente. Aliás nunca tinha pensado nela. Vocês dois no Guarujá. Vocês voltaram mesmo, né? Você me pediu 250 pra levar ela pro Guarujá? Ela é grandona, né? Cavalona. Parece braba. Tem cara de quem senta fácil a mão na minha cara se desconfia quem sou. O que eu fiz. O que a gente já fez. Aquela unha de gel se pega no olho, ui! Eu uso lente, não esqueça.

 Aí… como alguém que sabe que não deve. Eu faço. Como alguém que vê um acidente na estrada e não consegue desviar o olhar. Eu não me seuguro. Como alguém que vê o click-bait do tumor com dente e cabelo e sabe que o que vai encontrar é horrível mas quer ver como é mesmo assim. Eu não resisto. É mais forte do que eu. Eu clico na foto. Clico na tag e vou pra conta da mãe do teu filho. 

Meu olho passa na diagonal do feed intercalando momentos brilhantes no trabalho, com o filho de vocês, com vocês no Guarujá. O sol tá te fazendo bem. Tem uma foto tua encostado numa pedra. A água cobrindo metade do teu peito. Uns dreads novos presos pra cima. Como você tá bonito. Me dá um comichão na hora. Eu não tô com ciúme dela, tô mais com tesão de você nessa foto e indignada de constatar que isso me configura um tio-babão-com-tesão-na-novinha-desnuda.

Eu não tô com ciúme da tua mulher mas ela é muito mais genial do que imaginei. Semana passada eu descobri que você deixou de me seguir e me bloqueou da tua conta. Só me restou a conta aberta da mãe do teu filho. Volto sempre pra te procurar nos reflexos, pra ver se deixei você passar pequenininho na figuração das fotos em que você não está primeiro plano. Mas esses dias eu me descuidei. Fui dar um zoom e acabei dando um like. Fui desfazer e acabei seguindo. Ela me seguiu de volta. Tem visto meus stories e até já me mandou um foguinho.

EU NÃO SEI O QUE FAZER.

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