Tênis tye dye (de Carol Schettini)
Alzira me avisa cedo que não viria trabalhar. Antes que eu pensasse o quanto ela bebeu na sexta e no sábado e no domingo pra precisar emendar a ressaca na segunda, ela completa: “meu marido morreu”. E, antes de eu pensar em bala perdida ou acidente de moto ou coma alcóolico: “sofreu um enfarto”. Não sei se por remorso ou perturbação, logo depois do almoço sigo sozinha para o início do velório. Implorei, quase de joelhos, para Otto, meu marido ir comigo, “por favor, por favor, por favor”, “não”, “por favor, eu te pago”, apelei, sabendo o quanto é mercenário. Não só não concordou como foi embora cantando Simonal “nem vem que não tem”.
Chego sozinha na capela e a irmã de Alzira me cumprimenta usando meu casaquinho de crochê, feito ponto por ponto pela minha avó Carlota antes dela se esquecer de mim, da minha mãe, das cores. Alzira chorosa me abraça e sinto um cheiro forte de flores, civeta, almíscar, âmbar, sândalo, musgo, baunilha, vetiver e patchouli. “Ah, Lele, ele era tão novo, tão novo”. Pra ela, eu sou Lele e Otto é o doutor Otto. Me empurra pro lado do morto, eu sem entender como os cravos no caixão sopram no meu nariz Chanel n. 5. E ali, deitado, com a cara mais de 171 do mundo, um homem meio jovem meio velho, meio tatuado, meio debochado, de camiseta do Fluminense, calça jeans e tênis preto. Tênis preto com um pinguinho de água sanitária no pé direito. Bem em cima. Do lado do início do cadarço. “A gente vai enterrar só amanhã”, Alzira me diz enquanto eu foco no pontinho branco no pé do morto. “Por causa da mãe dele”.
Finjo um mal estar “estou tonta” e corro pra casa atrás de Otto. Ligo e ele diz estar numa reunião e depois vai ao dentista e à academia. “É uma emergência. Volta pra casa urgente”. Ele, claro, não volta. Demora horas. “E aí, foi bom o enterro?””Foi uma prévia. O enterro mesmo vai ser só amanhã por causa da mãe e tal.”.
Todo descontraído, me abraça: “qual era a urgência urgentíssima?”
“Otto, a irmã da Alzira vestia o meu casaquinho de crochê”. “E daí?””Minha vozinha com seus dedinhos de pele fina trançaram a linha na agulha prateada.””Lele, você nunca usou. Sua avó ficaria feliz por agasalhar alguém. Ela era toda amor ao próximo”, e ainda remenda: “você tem roupa demais. Olha o tanto de casaquinho de velhinha no seu armário. Deve ter mais de quinze”.
Esquento a janta, e, no meio do jogo de futebol, falo: “pior era o pé do morto”. “O que tem o pé do morto? Tava com uma meia de tricô feita pela sua tia do interior da vila do quizumba?””De Tênis. Com um pontinho de água sanitária na lona preta”.
Ele não diz nada. Toma um gole de cerveja. Eu não digo nada. Coloco uma mão de pipoca dentro da boca e fico olhando para a televisão, com um risinho de canto. Ele corre dentro do quarto: “cadê o meu tênis que trouxe da última viagem?”; “Qual? Você tem tantos. Deve ter mais de quinze”.
“Lele, cadê o tênis que tinha uma manchinha no alto do pé e você disse que parecia tye dye?” Olho pra ele e abrindo as mãos no alto da cabeça: “no pé do morto, meu bem”.
Matraco: “Pior. Desde que cheguei, não posso fechar os olhos. Imagino você andando sem pés ou morto descalço. Estou perturbada com tanta assombração de uma vez só”.
“Eita, benze aí”. Ele bate em figa três vezes na madeira, beija o escapulário e faz o sinal da cruz. Tudo junto. “Sei não, Otto, enterrar alguém com uma coisa sua sem ser dada de propósito é puro mau agouro.”
Sento fingindo relaxada no sofá, tomo um gole da sua cerveja. “Ainda bem que o meu casaquinho tava na viva, né? Amanhã posso pedir emprestado pra copiar o ponto ou falar que sumiu e a Alzira vai achar escondido atrás de algum sofá”.
“Ela vai continuar trabalhando aqui?”,”Ela e seu encosto, calçado com seu tênis preto com uma bolinha branca.” Descanso a garrafa de cerveja na mesinha da frente. “Uma bolinha tão pequenininha, Otto. Uma bobagem você ter implicado por causa de um petit poá”.
Otto não quer mesmo Alzira de volta. Falo pra ele que fica chato mandar ela embora assim do nada. Ela pode desconfiar de mim. “E se a gente falar que se mudou?”, ele sugere. “Boa ideia. A gente pode passar um mês num hotel. Aí se ela aparecer aqui, o porteiro não vai saber por onde a gente está. Precisamos sair de madrugada quando não tem ninguém na portaria”. Planos precisam de detalhes para darem certo. O problema, na verdade, é outro. “De todo jeito, eu que não queria alguém sendo enterrado com algo meu. Ui!”, digo e volto os olhos pro jogo, como quem não quer nada.
“Olha, Otto, gol do seu time. Ufa que aquele dorzinha no seu peito era nada.”
“Caraca, Lele, poxa!”,”Que foi?””Tá me impressionando”, “Fiz nada”, “O que eu faço?”, “Você tem tempo pra tomar uma atitude, né? Ele vai ser enterrado só amanhã”,”E daí, Lele? E daí?”,”Parece tão simples pra mim.”,”Simples, que porra de simples?” “Vai lá, troca o tênis, fim. Não esquece de pegar meu casaquinho”.
Homem é complexo, não faz nada se a gente não dá a mão. Fui com Otto comprar um tênis novo no supermercado 24h, um largo, caso o pé de morto estivesse inchado. No cemitério, fico no carro. Apesar de morta de medo, entrar junto ia dar na pinta e, se desse algo errado, eu podia jurar que não sabia de nada. Não sei quem Otto subornou, mas bons minutos depois, ele volta com o tênis e o casaquinho.
“Pronto, Lele, bora”,”Tá doido? Acha que vou levar esse tênis de morto pra casa?” O Otto tem horas que não pensa. “Para ali, joga no lixo, joga vai” “E o casaquinho?””O casaquinho vou lavar, né? Foi a vó quem fez.”
Otto para o carro na ponte desova o tênis no rio. Quase tudo resolvido. “Outra coisa, reservei o hotel. Chegando em casa, a gente arruma uma malinha e vaza. Vou falar pra Alzira que nos mudamos.” Nossa, como sou prática.
