(Leticia Eboli)
Resolvi nos últimos sábados me aventurar num curso de desenho e pintura, em teoria, para iniciantes. A ementa, como de praxe nos cursos de arte, dizia quase nada de concreto.
“Então turma, esse é o nosso modelo, ele estará aqui na mesma posição, com a mesma roupa em todas as aulas do curso. Cada um escolha um cavalete e marque com a fita adesiva a posição escolhida colocando o nome”. E todos, menos o modelo – estanque no centro – e eu, circularam entre os cavaletes com intimidade com os materiais e os ângulos formando uma roda de conversa muda.
No cantinho do meu bloco A5, não importa o que eu fizesse o rosto do modelo se transformava em uma versão bizantina de Jesus Cristo, embora eles só tivessem em imagem e semelhança a barba rala. Sem perspectiva, resolvi ocupar o papel com uma escrita conduzida pelo fascínio por aquela figura. A do modelo, não de Jesus.
Um rapaz com olho a meio mastro, postura elegante, blusa de marinheiro com decote canoa que deixava escapar uma saboneteira, uma calça caqui slim, um relógio tipo Casio dourado. Desconhecia o seu nome, se escolheria “chicken or pasta”, como havia chegado até ali. Saber qualquer coisa sobre ele parecia um ato transgressor. Não era permitido tirar foto e, embora não dito, interagir com o ser humano. Olho-cérebro-mão fabulavam mais em palavras do que linhas tortas.
Mão direita embaixo do sovaco esquerdo. Pé esquerdo cruzado na frente da perna direita, encostando apenas o peito do pé a frente no chão. Meu rosto olhando para o celular preso com fita adesiva no espelho de corpo todo. Inspirada no modelo, resolvi treinar o ofício no meu quarto.
Na tela do celular um timmer marcando em contagem regressiva quanto faltava para chegar a 30 minutos. Só tinham se passado 300 segundos e um mosquito gordo quando surgiu a primeira notificação de Whatsapp, que pulou a 20 cm do meu nariz. Vi que era minha mãe, achei estranho porque apesar de reclamar de todos os míseros dias que não ligo, ela nunca me procura. Me mantive imóvel. A casa silenciosa. Chico no trabalho, Amora na escola. A luz renascentista de quase noite das 2:30 da tarde de inverno.
Queria testar minha aptidão para o trabalho. Penso que ter brincado de Twister na infância me deu resiliência. A bunda me provocou coçando, depois o nariz ressecado pelo aquecimento competiu querendo espirrar. Tem contribuição de muito pique esconde aí também. Me sentia pronta. Questionava um pouco sobre o propósito por trás dessa profissão. Aos 40, depois de uma vida servindo ao funil de conversão de marketing, resolvi sonhar ser possível ganhar dinheiro e ter uma missão.
Os sites de emprego falam que o modelo vivo ganha entre 20 e 60 dólares a hora na região de Nova York, nos Estados Unidos. Se eu ficasse na média ganharia 40.
Vibra de novo o Whatsapp. Ligação. Pedro, meu irmão. Que inferno, mesmo sozinha em casa, não me era dado o direito de paz. Droga. Devo ter franzido a testa. Recuperei o eixo, deixando minha cabeça novamente voltar aos acontecimentos do que não estava ali.
Definitivamente uma estátua não pode viver da presença alheia, se romperia. Imaginei o Davi, de Michelangelo, me prescrevendo meditação. Não funcionaria, já tentei. Eu não era de pedra, será que sofreria imaginando os outros me analisando? A resposta é sim.
Vibra de novo o celular. Notificação.
“Já falou com a mamãe?” Foi o que consegui ler da mensagem do Pedro.
Ele na Costa Oeste dos Estados Unidos, eu na Leste, ambos a quilômetros de distância do Rio de Janeiro, onde estava a nossa mãe. Igualados na falta de agilidade, ele poderia resolver dessa vez, seja lá o que for. Segui focada nos meus julgamentos. Imaginei a professora falando para uma aluna. “Pense em planos. Repare nas bochechas da modelo, como pode representar essa camada?” Vislumbrei a professora acariciando o ar em gestos de quem aperta um algodão doce murcho, entregue ao tempo. Os carvões e tinta óleo não perdoariam minha bochecha de bulldog, meu bigodinho chinês. Bigodinho chinês. Não posso mais usar essa expressão.
Será que aquele rapaz tirava 240 dólares nas aulas da manhã e tarde juntas? Agora tô entendendo porque ele usava fone de ouvido. O único negro numa turma de brancos. Aquele modelo não devia querer escutar tanto white people problem – “Nossa, espátula de plástico é horrível” e elogios falsos “fabulous” “amazings”. Ninguém naquela sala conversava genuinamente, eram pinceladas em tons pastéis.
Vibrou de novo o telefone. Faltavam 9 minutos.
Paciência era um dos requisitos que li nas descrições das vagas. Sou até bem tolerante, minha mãe é que me tira do sério. Tudo bem, ela não estaria na sala.
“Ninguém nunca respeita meu tempo” – falei antes de esboçar um “Ahn que que foi?”
Escutei uma fungada.
“Sofri um golpe”
“Um golpe?”
“Sim, Su, um golpe. Você não está ouvindo bem, filha?”
Aff. Bufei discretamente. “Mas você tá ferida?
“Me ligaram agora perto da hora do banco fechar falando que meu cartão tinha sido clonado. Só que eles sabiam absolutamente tudo sobre mim, tinham os meus dados, os do banco. Falavam direito.”
“É, mãe, os golpistas são bem qualificados atualmente.”
“Perdi 28 mil reais.”
“Oi? 28 mil?”
As fungadas ficaram mais frequentes.
“Mãe, fica calma. Já falou com o banco? Você deve conseguir o dinheiro de volta.”
“Eu tô velha. Ve-lha. Tô frágil. Burra! Gritava minha mãe descontrolada.”
“Mãe, você não é burra, nem tá velha….” Ia completar que frágil ela até tava, que tinha que cuidar da sua cabeça e tudo aquilo que ela já sabia e negava. Mas me limitei a “O banco, o que falou?”
“Deixa atender aqui o Pedro. Um querido, foi falar com o Paulinho, aquele amigo que trabalha no Itaú.”
Tá.
E ela desligou.
Olhei a hora. Já não dava tempo de começar uma nova rodada de trinta minutos. Em vinte sairia para pegar a Amora na escola. Caceta. 28 mil reais. Abri o app da calculadora. 28 mil reais dá 5600 dólares. Ganhando 40 por hora eu precisaria trabalhar 140 horas. Se fossem 6 horas num dia daria 23 dias. Se fizesse esse freela aos sábados seria quase metade dos sábados do ano para ganhar o que esses caras devem ter ganho em sei lá, meia hora talvez. A hora de golpista então custa 11.200 dólares. Se bem que os caras precisam se preparar e tal. Deve ter um longo período de pesquisa, certamente molham a mão de uma galera, mas mesmo assim.
O pensamento imediatamente escapou para a Vera França, a pernambucana que conheci na internet pesquisando sobre a profissão que agora queria chamar de minha. Mais velha que a minha mãe, Vera trabalhava há umas seis décadas como modelo vivo em São Paulo e se mantinha ativa. Foi descoberta na década de 60, quanto se apresentava em um parque de diversões, em Salvador, quando era ainda uma adolescente. Ela era a Tanagra, aquela personagem apresentada como a menor mulher do mundo, onde ficava em um aquário para ser vista pelo efeito de ilusão de ótica. Um estudante de Belas Artes a viu ali e disse que estavam precisando de modelo. Desde então nunca parou de modelar para artistas.
Aqui, as universidades parecem ser as maiores contratantes com requisitos rasos. Tirando ficar parado por um longo período de tempo e estar confortável em posar nua – o que acho que só saberia na hora -, o resto chocaria apenas a geração dos Gen Z. Ser pontual, responsável, saber se comunicar. Saber se comunicar.
Ficar parado enquanto os outros te desenham exige uma habilidade de comunicação? Seria esse o atributo da não comunicação?
Durante o curso, na última o modelo faltou. Inicialmente pra mim tanto fazia, eu seguia em rabiscos a lápis, já a galera que planejou terminar seus óleos detalhados resmungou. A modelo-viva-substituta me fez dar valor ao rapaz. Ele tinha a capacidade de não se comunicar com ninguém. Tocava o alarme a cada vinte minutos ou meia hora – quando tinham pequenos intervalos – e ele se colocava exatamente na mesma posição da primeira aula. Nesses dias, a discrição dele não deixou transbordar para nenhuma tela o que estava fora do corpo. Ele lia durante as pausas livros que não vi o título, desenhava em folhas cobertas de prancheta e ouvia o tempo todo sons de silêncio. Nada passou.
Quando ele faltou, uma moça entrou com a roupa confusa de um jeito ruim. O moletom entreaberto que nunca voltava pro mesmo lugar. O olhar que interagia com os acontecimentos aqui e ali na roda da sala de aula entre risos de canto de boca e reclamações ao vento.
A presença dele era atenta. A dela, alerta.
“Oi, Pedro. E aí, irmão?”
“Ah, cara, foi o golpe mais tosco do mundo. E ela ainda deu muita sorte!”
“É, pelo menos não foi sei lá um assalto, que se machucou.”
“Tô falando disso não. Ela não te contou que depois teve um outro valor de 108 mil que ela fez TED mas que o TED voltou?”
“Meu Deus. Nossa mãe tá velha. Todo dia no grupo de família tem alguém mandando esses TikTok de “Golpe”.
“Pois é”
“O Paulinho ajudou?”
“Não. Quer dizer, TED o banco não pode fazer nada depois.”
“Talvez seja bom pra ela entender que dinheiro vem e vai. Fica ela aí sempre sofrendo com as despesas, se privando de viver”
“É…”
Acho que ele concordava comigo em relação à ideia mas de fato não fui boa no timing.
“Pedro, quando você morava em São Paulo você fez aula de modelo vivo com a Vera Cruz?
“Que que você tá falando, Su? Faço menor ideia de quem seja. O que a gente vai fazer sobre o golpe, hein?”
“O que tem para ser feito? Não vejo nada a ser feito.”
“A mamãe tá me preocupando, vivendo em outra esfera, não escuta, não sabe mais conversar.”
“Isso já me preocupa há muito tempo…”
Silêncio. Ele pescou a minha alfinetada.
Abri o computador ia pesquisar “o que fazer em caso de golpe com TED” mas as abas abertas com a Vera França me atravessaram.
O cursor passava em cima do trecho da matéria: E mesmo aos 73 anos, Vera revelou que ainda não sabe o sentido da vida, mas afirma que não alcançou seu objetivo final, que é viver em paz.
“Su? Você tá aí?”
“Tô, é que tô no meio de uma pesquisa. Te falei que aqui dá pra ganhar a vida sendo modelo vivo? Tô aqui pesquisando e apaixonada por uma senhora, mais velha que a mamãe, que é modelo vivo”.
“Ahnn tá… Tanto faz, deixa pra lá então.”
“Mas como que foi o golpe mesmo, to pensando aqui que até agora não entendi”.
“Um cara ligou pra mamãe se passando por funcionário da MasterCard, dizendo que o cartão tinha sido clonado numa compra de 28 mil reais. Pra reverter ela precisava fazer um TED exatamente no mesmo valor para uma conta.”
“Caraca, que bizarro, e a mamãe caiu nisso.”
“Ahãn. Ela é bem o público desses golpes né. Tem dinheiro e vive apavorada.”
“A mamãe anda bem descolada do mundo”
E segui lendo a matéria. A minha missão é de ajudar meus netos e pousar ainda pras pessoas que gostam de me usar como artista. Isso é que eu gosto. É uma missão e eu quero terminar ela posando mesmo. Nem que seja uma pose não tão retorcida, mas a pose natural, a pose da vida.
A pose da vida.
A frase da Vera me atravessou com sua integridade bonita. Aquela senhora vivia com o corpo em jogo, conectada ao tempo. Ouvidos que escutam sem ter que agir de imediato. Um agir que sabia trafegar na quietude. Uma quietude atenta e não alerta.
A Vera não teria caído no golpe. Falei em silêncio enquanto o corpo, esse fazia a chamada misteriosamente cair.
