E se…

por Américo Paim

Enfim recebi a minha camisa retrô da Hungria/1954. Ficou bonita, a cor próxima da original, vestindo bem. Feita sob encomenda por pessoal sério. A maioria é assim, mas tem uns caras que existem para ferrar os mais ingênuos, apaixonados por esse tipo de item ou os colecionadores, como eu. Tanto que não consigo esquecer uma péssima experiência de compra recente.

O site oferecia opções interessantes. Escolhi a de Figo, capitão de Portugal na Copa de 2006, com sua seleção terminando em 4º lugar. Material parecia bom, com os patches do torneio, número e nome do jogador. Tinha outras camisas legais, mas, para testar o serviço, comprei uma só e fiquei na expectativa, como sempre se o assunto é Copa. Coisa de paixão, algo que vem de longa data.  

Não foi na Copa de 1970. Tinha quase seis anos e só tenho alguns lampejos de lembranças. O local na sala onde ficava a TV na casa de meus avós em Santo Amaro, cenas avulsas de comemorações. E meu pai tenso no dia da final contra a Itália, pegando o fusquinha e fugindo sozinho para estacionar em algum lugar na estrada para Cachoeira, ouvir música até dar o horário do fim do jogo e só descobrir que éramos tricampeões ao voltar à cidade e ver o povo celebrando nas ruas. Isso ele me contou. Não é uma memória.

A origem mais provável para a paixão vem de 1974, por causa da seleção holandesa, com aquelas camisas cor de laranja, que descobri na Telefunken do vizinho – lá em casa era uma Philco em preto e branco. O time foi vice-campeão, porém, me encantou, mesmo eliminando o Brasil. Isso explica por que coleciono camisas não apenas do Brasil, mas de outras seleções. Como a camisa de Portugal que comprei.

Me informaram para esperar até quinze dias úteis para receber e confesso que logo já tinha me esquecido do prazo. Quando já estávamos cinco ou seis dias além do esperado, fiz contato via WhatsApp.

– A compra foi há mais de 20 dias. Por que não chegou ainda?

– Está presa nos Correios.

– E qual o código de rastreamento?

– Vou lhe enviar.

(nenhuma resposta ou envio do código; dias depois, novo contato)

– O que está acontecendo?

– Olá, amigo. Houve uma greve interna nos Correios.

– Não ouvi nada sobre isso. Tenho recebido outras coisas sem atraso.

(novo silêncio)

Após diversas mensagens minhas sem qualquer retorno, resolvi cancelar o pedido e pedir o dinheiro de volta. A coisa não andou como esperava. Informaram sobre uma falha no site que deu a compra como cancelada: “precisamos recomeçar o processo, entrando no site e refazendo a compra”. Me neguei, claro, mesmo com a orientação de “só fazer após o reembolso do valor pago”. Nada do tal dinheiro. Novas mensagens à toa. Parecia fadado a perder grana e camisa. Só a paixão pelas Copas para me meter numa roubada daquelas. Colecionador há muito tempo, não me conformava em cair naquela cilada.

Enquanto esperava, segui minha sina de pesquisador, com um novo foco, que me fascinava desde sempre: e se aquela bola tivesse entrado, como seria? Lances cruciais na história das Copas que poderiam ter mudado os rumos do futebol em sua época. Era tudo para uma publicação na minha página sobre as Copas na Internet, que geraria uma série de debates já programados. Não pensava em jogos quaisquer. Só na grande final. É que a Copa do Catar me reacendeu isso. A final entre Argentina e França entrou no meu grupo seleto de, agora quatro, jogos, a meu ver definitivos, do “e se”.

O argentino Emiliano Martínez defendeu, cara a cara, como goleiro de handebol, o chute de Randal Kolo Muani, a 20 segundos do fim da prorrogação. Seria o gol do título francês. Não haveria tempo para mais nada. Mudaria o tricampeonato de lado, Messi ficaria sem taça, sem ser o craque da Copa, seria a segunda de Mbappé, o nome do mundial, que ficaria perto de igualar os três títulos de Pelé, citando algumas das principais mudanças, “se” a bola tivesse entrado.

Um mês depois da última conversa, o site voltou me informou novidades: a camisa estava, pasmem, na Receita Federal, já com data marcada para liberação. É que o produto vinha da China: “burocracia deles, trabalho com isso há 17 anos”. Eu deveria ter chutado o pau da barraca ali, mas sonhando com a camisa, entubei a conversa. Novas mensagens e nada, por mais de vinte dias! Enfim se manifestaram, assim: “a camisa está na base de dados dos Correios e devemos receber em vinte dias”. Como assim? E tome zap…

– O seu prazo já estourou, cidadão!

– Eu sei.

– Sim, você sabe e vai resolver como?

– Calma, sei o que estou fazendo.

– Ah, não sabe não.

– Estou indo aos Correios hoje pra tentar retirar.

– Tentar?

– Temos que esperar, amigo.

– Não sou seu amigo e já tô de saco cheio.

Ganhei de volta o silêncio por muito tempo. Aquela situação precisava de arbitragem…

Uma ocasião famosa com juiz foi o terceiro gol da Inglaterra na final contra a Alemanha Ocidental em 1966, no 1º tempo da prorrogação, o jogo ainda 2×2. O atacante Geoff Hurst chutou a bola, que bateu no travessão e caiu sobre ou após a linha. Não havia goal line technology. O juiz consultou o bandeirinha e deu o gol. Os ingleses fariam mais um no último minuto da prorrogação, mas quem venceria se aquele “gol” não valesse? Já pensaram na Alemanha Ocidental sendo bicampeã e disputando o tri em 1970? Seriam quatro bicampeões nas semifinais, algo gigantesco! E a Alemanha já poderia ser penta por agora.

Outra bem relevante, dessa vez sem o juiz, foi em 1978, Argentina e Holanda na final. Rob Rensenbrink, lançado na pequena área argentina, a mais de 45 minutos do 2º tempo regulamentar, o jogo em 1×1, chutou na trave o título mundial, inédito para os dois países. Na prorrogação, a Argentina faria dois gols e levantaria a taça. Aquele gol faria do holandês o craque e o artilheiro da Copa, glórias que ficaram com Mario Kempes, que virou até nome de estádio. O gol teria feito aumentar muito a pressão sobre Diego Maradona nos mundiais seguintes, ele que não foi àquela Copa por ter 17 anos e o técnico César Luis Menotti achar que era muita coisa para um jogador tão jovem.

O que já estava velho era a compra da minha camisa. Mais de três meses depois da última conversa, após série de mensagens e e-mails sem retorno, a empresa se manifestou. Para dizer mais do mesmo. Base de dados, Receita Federal etc. A novidade era advogado e despachante aduaneiro envolvidos: “temos 58 pacotes retidos”. Pensei nos outros 57 otários… Sem paciência, encerrei mensagens de zap e pedi ajuda a um amigo advogado. Passei a enviar e-mails solicitando a devolução imediata do dinheiro. Coloquei prazos, sem resposta. Malandros profissionais. Inacreditável foi a primeira resposta, quase um mês depois: “fique tranquilo que sua encomenda será entregue”. Eu era um anão lutando contra um gigante.

Bem parecido com a minha favorita situação de “se” das Copas. A da final Alemanha Ocidental e Hungria, na Copa de 1954. A 41 minutos do 2º tempo, Ferenc Puskás, a lenda, empata o jogo, que estava 3×2 para os alemães. O gol é anulado por impedimento, duvidoso. Pesquisei muito atrás de imagens da evidência definitiva: a posição dele no momento do lançamento, o que define o impedimento. Sem sucesso. Relatos e reportagens mostravam o assunto longe da unanimidade. Um empate ali seria prorrogação ou até outro jogo. Na época não existia a decisão por pênaltis. A seleção alemã suportaria mais naquele incrível jogo, batizado de “O milagre de Berna”? A Hungria era um time superior, dos maiores da história, os “Mágicos Magiares”, o “Golden Team”. Só não é o maior por causa dessa derrota imprevisível no jogo mais importante de sua incrível trajetória, desde que começou a ser montado, em 1950.

A Hungria, invicta há quase quatro anos, era campeã olímpica de 1952 e dentro da Copa venceu os campeões (Uruguai) e os vice-campeões (Brasil) da Copa anterior, além da mesma Alemanha Ocidental na fase de grupos, por 8×3. Tinha o melhor do mundo, Puskás. Os alemães, reintegrados à FIFA após o banimento por causa da 2ª Guerra, não haviam enfrentado nenhuma seleção forte na Copa, muito menos feito qualquer coisa memorável.

Se a Hungria fosse campeã, seria a melhor seleção da história e talvez a Alemanha demorasse para ser a potência das Copas em que se tornou a partir dessa conquista. A mística dos germânicos sempre foi o jogo de equipe. Sem Berna teria sido assim? Tem mais. Puskás jogava com a 10. Ele teria estabelecido a aura em volta dessa camisa e não Pelé, que usou a 10 por acaso na distribuição das camisas na Copa de 1958. Com certeza seria a camisa entregue a Didi, maestro daquela seleção do primeiro título do Brasil. E o mundo se assombraria tanto com o Rei? Ou menos, por causa do impacto da Hungria e de seu camisa 10? O futebol húngaro não cairia em ostracismo, o que veio a partir dos anos 1990. A camisa grená da Hungria seria ainda mais procurada nos sites de camisas retrô. Tudo por um gol anulado. Gostava de pensar nisso.

E de não pensar no desfecho da história da camisa de Portugal. Só se resolveu quando meu advogado enviou mensagens com aquele jurudiquês. Assustou o suficiente para eles me devolverem o dinheiro (ainda que sem correção) e encerrarmos a pendenga. Nada teria acontecido se a Hungria tivesse sido campeã, eu creio. E se eu encontrasse um vídeo daquele impedimento estranho? Foi a primeira vice-campeã lembrada para sempre. Então, talvez a seleção de Portugal sequer viesse a ser relevante. Ou valesse uma compra de camisa retrô.

Para checar:

Defesa de Emiliano Martínez (Argentina) 2022 – https://www.youtube.com/watch?v=zhEWqfP6V_w

Chute de Geoff Hurst (Inglaterra) 1966 – https://www.youtube.com/watch?v=Tqh_RLQHn2c

Chute de Rob Rensenbrink (Holanda) 1978 – https://www.youtube.com/watch?v=N1lIy6dzEwg

Gol anulado de Puskás (Hungria) 1954 – https://www.youtube.com/watch?v=ulxTJT1OZdM        

O “Golden Team” (foto de 1953):

De pé: Gyula Lóránt (defensor), Jenő Buzánszky (lateral), Nándor Hidegkuti (meia atacante), 

             Sándor Kocsis (meia atacante), József Zakariás (defensor), Zoltán Czibor  (ponta), 

             József Bozsik (meia), László Budai (ponta)

Agachados: Mihály Lantos (lateral), Ferenc Puskás (meia atacante), Gyula Grosics (goleiro)

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