Geometria moderna

Foi bater os olhos na mulherada e me sentir uma E.T. Cadê as roupas confortáveis que indicavam quem você é na essência? Onde estão as cores ousadas, os tecidos raros, as combinações personalíssimas? O tempo que levei entre a entrada do refeitório e o primeiro garçom com uma bandeja de bebidas não foi suficiente para amaldiçoar todas as influenciadoras que ouvi durante a pandemia. Até pensei em voltar para casa e trocar o vestido carmim de malha por um terninho com blazer. Não deu. Ele já tinha me visto e caminhava em minha direção.

“Lembra do que eu te falei três anos atrás?”

“Que eu era lésbica só porque nunca tinha saído com você?”

“Antes disso.”

“Esqueci.”

“Eu disse: Terezinha, você parece outra mulher com essa roupa.”

“Outra mulher… Você só tinha me visto uma vez, e foi na entrevista de seleção.”

“Mas acabei te contratando, né?”

Gouveia me diz isso em voz baixa, bem perto do meu ouvido. Alto, rosto quadrado, cabelos escuros deixando aparecer as primeiras mechas cinzentas, estilo próximo do cafajeste que até meio que funciona para alguns homens. Ao largar minha mão, exibe seu famoso sorriso padronizado, como faria num encontro de negócios com uma cliente ou fornecedora. Vendo-o se afastar, penso como sobreviveu bem à pandemia. Ele era atraente mesmo quando estava acima do peso. Depois que começou a praticar corrida para emagrecer, arrumou uma amante (eu!) e manteve o casamento com uma mulher de família tradicional. Até a empresa cresceu com as vendas pela internet. E na cama, bem, na cama não é…

“Cara, você aqui, Renatinho?”

“Bico de ocasião. E você?”

“Bom, eu trabalho nesta empresa.”

“Nem desconfiava.”

“Pois é, e agora de corpo presente. A academia tá pagando tão mal assim?”

“Como sempre. Só continuo como personal porque pinta uma aluninha gostosa de vez em quando, né, Terê?”

Nosso diálogo transcorre nos dez segundos entre eu dar um tapinha nas costas de sua camisa branca, ele se virar me reconhecendo, pegar minha taça vazia com um ar divertido, pousar na bandeja e me entregar outra cheia. Seu sorriso não tem nada de profissional. Molho os lábios no gim-tônica e passo por ele com o olhar no horizonte, mas dando um jeito de esfregar meu seio naquele braço malhado. Tento me lembrar se é o que tem a tatuagem de…

“Não acredito! Eu achava que não ia te ver hoje, Zita!”

“Parece que é a noite das coincidências.”

“Você está… tá linda!”

“Obrigado, Jofre.”

Ficamos nos olhando sem falar. Parece que ele nunca tinha me visto – logo eu, que era a única aluna de câmera aberta em suas aulas da faculdade. Agora me vejo refletida nos seus óculos redondos de míope: uma vela de exu que ondula conforme ele me filma da cabeça aos pés. Desde que passamos a nos encontrar, descobri que seus olhos são normais, e não aqueles projetados de peixe de aquário como pareciam no Zoom.

Vejo um grupo de colegas que reconheço das reuniões remotas. Todos pararam de conversar e estão virados na nossa direção.

“Olha…”

“Olha…”

“Não, você primeiro.”

“Escuta, Jofre. Tem uns caras nos olhando daquela mesa.”

“Ah, são meus alunos de inglês. Dou aulas aqui no prédio na hora do almoço. Quero dizer, dava antes da pandemia, depois ficou só online. Agora eles pediram para eu começar de novo no presencial.”

“Sei.”

“Queimei seu filme?”

“Ainda não, se a gente se despedir agora.”

“Tá. Prazer em conhecê-la.” Ele projeta a voz como para ser ouvido pelos funcionários xeretas.

Atravesso o refeitório procurado um garçom que não seja o Renatinho. Com o canto do olho, percebo que o Gouveia se juntou ao grupo do escritório. Aproveito que estão me secando para fazer um catwalk até o banheiro. No trajeto, leio as faixas grudadas na parede por alguém do RH: “Xô, pandemia!!!”, “Sai fora, vírus!!!”, “Bem-vindos ao novo normal!!!”

Meu rosto surge cansado no espelho sobre a pia. Encontrar meus três casos no mesmo espaço não fez bem para o meu coração. Nem para minhas rugas, que resolvem se aglomerar no espaço antes ocupado por minha testa.

Faço tintim com a taça da minha imagem canhota e bebo quase todo o gim. Quase consigo ouvir a voz da Rebeca, minha colega de apartamento: “Tu vai arranjar problema com três caras ao mesmo tempo. Se quer variar, forma logo um trisal”.

Eu até que estava indo bem com o equilibrismo de horários. Terças e quintas à noite era motel com o Gouveia, que me apanhava de Porsche, mochilinha e uniforme completo de futsal. O Renato, que ainda morava com a mãe, emprestava o apartamento de um amigo para passarmos as tardes mortas da academia de ginástica. Já o Jofre adorava preparar um jantarzinho pra mim às quartas e sábados no casarão que tinha recebido de herança.

“Pra que mudar?”, eu respondia para a Beca. “Assim nunca me falta grana, sexo e comida, que são as três necessidades de toda mulher moderna.”

“Olha lá”, agourava ela. “O destino prega cada peça na gente…”

Um barulho lá fora me desperta do torpor. Alguém resolveu redecorar o ambiente arrastando mesas e cadeiras. Faço gargarejo com o que sobrou na taça e saio para um cenário de guerra. Dois homens estão atracados no meio do salão. Em volta deles, a turba se move abrindo uma clareira à medida que se empurram para lá e para cá.

Abro passagem para descobrir que conheço bem os contendores. Pela disposição no ringue, o Renatinho acaba de derrubar o Gouveia com um pescoção. Meu grito paralisa os lutadores e a plateia também. Entro na roda estendendo os braços para o Gouveia, que se apoia em mim, já pronto para revidar a porrada. Chego bem perto dele, forçando suas mãos para baixo. Fico na ponta dos pés e lhe dou um beijo na boca. Ele hesita, mas acaba correspondendo. Meu batom se mistura com o sangue que flui do seu lábio inferior.

Da plateia ouço uma espécie de gemido quando nos separamos. Ninguém sabe o que pensar daquela louca. Limpo a boca com o indicador e viro o corpo na direção do Renatinho. Ele é mais baixo e mais forte que o outro. Minhas mãos atravessam o rasgo da camisa de garçom. Demoro alguns instantes afagando seu peitoral depilado. Ele arregala os lindos olhos verdes.

Por cima de seu ombro, percebo que o Jofre, a certa distância, me olha espantado. Meu palpite é que ele também teve um papel na briga, ao menos no início. É o que indica seus oclinhos entortados sobre o nariz e o cabelo bagunçado. Ando até ele, dou a mão e atravessamos um mar de camisas brancas e blusinhas cinza e bege, até deixar aquele ambiente pesado. A luta acabou, mas a tensão permanece, vibrando numa frequência nova.

Saímos da empresa de braço dado. Penso que talvez seja hora de arquitetar aquele trisal, com os vértices que aceitarem o arranjo. Ou talvez um quarteto. Quem sabe até um pentágono, se a Rebeca gostar da ideia. Mas isso pode esperar até amanhã, decido. Eu me lembro que hoje é sábado. O destino nem sempre é ingrato com seus súditos. Comento com Jofre que o excesso de bebida me deixou tonta de fome. Enquanto andamos até o estacionamento, recosto a cabeça em seu ombro macio: “Quantos quartos mesmo você disse que tem sua mansão?”

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