Luz negra – Yan

A luz branca da lâmpada do quarto, a luz branco-azulada da tela do computador, o branco dos meus olhos provavelmente vermelhos. Meu navegador tinha umas vinte abas abertas, todas sobre Nelson Cavaquinho. Muitas músicas com letras, algumas com cifras, dois documentários mastigados, umas biografias meia-boca, várias fotos em preto e branco e uma colorida: Nelson e Cartola. Nelson quase branco ao lado de Cartola, seu nariz largo e sua cara parda fechada ao lado do sorriso branco de Cartola sob o nariz afinado. Depois achei outra foto colorida, Nelson quase mais que pardo ao lado de Chico Buarque, os dois com grandes sorrisos amarelados. No Spotify, tocava:

Sempre só
Eu vivo procurando alguém
Que sofra como eu também
Mas não consigo achar ninguém

Eu estava escrevendo o terceiro romance de Valdemar Matutino, que já tinha me dado a sombra de dois livros: Na Berma do breu, cujas fontes principais foram os diários de Carolina de Jesus, os poemas de Luz Ribeiro e os contos esquecidos de Lima Barreto, e que recebeu o Jabuti de melhor romance literário; e Vira-tempo, cujas fontes principais foram os véus de Cruz e Souza e Capítulo Quatro, Versículo Três dos Racionais, e que recebeu o Oceanos. Para o terceiro, eu queria usar João Antônio, MV Bill e José Falero. Estava entre os títulos Cerração e Madrugadão. O primeiro, pelo motivo óbvio de que as portas que interessam estão todas fechadas ou se fecham logo depois que as abrimos e passamos por elas, o que dá no mesmo. Já o segundo veio por conta de Cidade dos Homens, o filme, onde o bonde cantava e dava tiros de fuzil no baile, se preparando para retomar o morro da Sinuca depois de um golpe de estado: 

Boladão, pesadão
Tipo Afeganistão
Demorou partir pra guerra, é o bonde
Do Madrugadão

O título parecia fazer mais sentido, porque não era só neblina, era do escuro maciço que eu queria falar: a hora mais escura do dia. No entanto, eu também queria falar da hora mais escura que antecede o amanhecer, aquele momento em que os passarinhos acordam e se prepara o sol para tomar tudo de assalto. E o amanhecer desse tipo, o amanhecer claro e derradeiro, só pode ser antecedido por uma tristeza cristalina como a água ferrosa que saía do cano da pia de minha avó. Minha avó que gostava de Nelson Cavaquinho. Nelson Cavaquinho que bebeu água ferrosa da torneira da Mangueira, iluminou todo o Rio de Janeiro e hoje é quase um ilustre desconhecido. Fui a ele, portanto, e enquanto a música tocava eu não me sentia só.

Nelson tinha muitos amigos, ainda que parecesse solitário. Clarice Lispector disse em uma entrevista que só parecia séria porque estava cansada, na verdade era uma pessoa alegre. Fiquei imaginando uma entrevista em que Nelson Cavaquinho diria que parecia solitário e parecia ter muitos amigos, mas que na verdade tanto fazia o que parecia. Zanzando no Google, encontrei uma matéria da Folha de São Paulo de 2010, 99 anos depois dos nascimento do mestre do samba triste e solitário. O título: “Nelson Cavaquinho preferia a companhia de malandros e prostitutas aos artistas de sua época”. Diz-me com quem andas e te direi quem queres ser, como minha avó nunca disse mas poderia ter dito. Aliás, Nelson foi frequentar mesmo os ambientes de artista badalado só no fim da vida, acredito que para garantir um pé de meia para a esposa e os filhos. Ou para torrar tudo, que seja. Mas saber disso me fez gostar mais dele. Eu, que queimei meu nome de artista de qualquer tipo por querer andar no gosto dos artistas badalados. 

A matéria começa contando sua infância pobre na Tijuca. Filho de uma lavadeira e um tocador de tuba da banda da Polícia Militar, ele próprio entrou para a corporação como soldado da cavalaria. Durante uma de suas rondas conheceu a Mangueira, se enveredou por lá, acordou de ressaca e sem o cavalo. Foi ao quartel e encontrou o bicho, que voltou sozinho e comia sua ração na baia enquanto ria do cavaleiro de saia justa com o sargento. Nelson saiu da força, passou a vender suas composições em troca de trocados. “Contemporâneo de Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Barbo, dizia a matéria, o compositor estava à margem do mundo desses artistas e preferia a companhia de malandros, prostitutas e mendigos. Antes mal acompanhado do que só, diriam alguns; eu digo que boas companhias não precisam do título. Cheguei ao fim da matéria e vi links para notícias mais recentes. Entre elas uma da Ilustríssima, com o título: “Crítico literário afirma ter descoberto a verdadeira identidade de Valdemar Matutino”.

Pensei que Nelson gostava de contar a história do cavalo rindo para ele porque, na verdade, tinha entendido a risada como um presságio da sua solidão. Ou ainda, um presságio e uma praga, um escárnio do bicho por ter sido abandonado. E Nelson conheceu e reconheceu o abandono, praticando e praticado por ele. Por isso, quando encontrei a matéria da Ilustríssima, fiquei triste. Fiquei na verdade muito bravo, revoltado, emputecido; isso me deixou triste, porque pensei que Nelson só ficaria triste com uma coisas dessas, uma tristeza profunda, discreta, inconfundível e classuda. E eu com aquela raiva bruta e besta dos que se pensam sofredores apenas por circunstância, jamais por vocação. O que Nelson pensaria de mim, eu pensava e ouvia a canção:

Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
E estou chegando ao fim

A matéria dizia: “Manoel Maranhão é o maior sucesso de crítica e público da literatura brasileira na atualidade. Tem apenas dois livros publicados, que já receberam prêmios de relevância nacional e internacional. Não à toa, pois conduz uma linguagem ora contida, ora incendiária, e se mostrou capaz de extrair beleza dos cantos mais obscuros da vida. O adjetivo ultrapassa sua escrita e define sua vida: o autor nunca revelou o rosto e concede escassas entrevistas apenas por e-mail. De acordo com o renomado crítico literário e escritor Theodoro Piva, o mistério chegou ao fim. ‘Os romances Na berma do breu e Vira-tempo’, diz Piva, ‘foram escritos pelo maranhense Joaquim Costa”‘.

Além de inventar uma falsa identidade verdadeira para o meu pseudônimo, o filho da puta ainda fez duas rimas escrotas: Joaquim com Manoel, coisa brega mas que eu mesmo faria, e teve a pachorra de encontrar alguém do Maranhão para foder com meu sobrenome e o meu juízo. Li a notícia e fiquei puto, muito puto. Passei noites sem dormir e mandei e-mails mais putos ainda para a santa da minha editora, Mariana Moutinho.

“Cara Mariana,
obrigado pelo contato. Estranhei a pouca demora em me procurar. Afinal, se a Companhia se deu ao luxo de não inscrever seus autores no Prêmio São Paulo, pode passar mais tempo sem um comunicado oficial contra essa palhaçada de matéria”.

E aí baixei o nível legal, de xingar o dono da editora de judeu mercenário a ameaças de romper contrato, não entregar meu terceiro livro e queimar a pequena fortuna que me deram em adiantamento. O pronunciamento oficial veio e Piva conseguiu o que queria. Seguiu afirmando que o tinha encontrado o verdadeiro Valdemar Matutino, ao mesmo tempo que lançou um livro novo e garantiu seu retorno aos holofotes. Ainda teve culhão de marcar uma coletiva de imprensa com o laranja, que eu assisti pelo YouTube.

Era um pardinho magro e mirrado, provavelmente da mesma idade que eu e provavelmente parecido com o que eu era antes de parar de escrever como Manoel Maranhão. Envelheci uns vinte anos desde que comecei a escrever como Valdemar Matutino há cinco anos atrás, mas me olhava no espelho, olhava para os prêmios, olhava minha o saldo da minha conta e achava graça. Quando vi a cara do pardinho deslumbrado e jovem que o Piva escolheu para roubar meus créditos, o pardinho que ele provavelmente estava chupando consensualmente, vi o pardinho que eu poderia deslumbrado e jovem que eu poderia ser se o Piva não tivesse me chupado sem minha permissão. Fui ao espelho, vi minha cara triste. E os versos tristes e invencíveis de Nelson voltaram à minha cabeça:

A luz negra de um destino cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde estou desempenhando o papel
De palhaço do amor

O relacionamento com Cartola foi fundamental para Nelson conseguir reconhecimento, mesmo que só na casa dos sessenta anos. E os dois foram amigos até a morte, coisa de irmão-camarada mesmo, é o que gosto de pensar. Mas, para fugir da vontade de matar o Piva e o tal do Joaquim Costa, o pardinho laranja dele, fui assistir a um documentário de 1980. Numa mesa no bar Zicartola, Nelson, dona Zica, Carlos Cachaça e outros bambas tocavam sucessos da Mangueira. Ao fim de uma música, dona Zica contou, rindo de se acabar,  do dia que Cartola descobriu que Nelson tinha vendido um samba em parceria dos dois para uma gravadora. Como o dinheiro (e os créditos) viraram fumaça e cachaça, Cartola decidiu encerrar a parceria nas composições para preservar a amizade. Dona Zica contou isso na frente da câmera, na frente dos bambas e riu. E Nelson, com a mesma cara triste com que era acusado de traição ou com que ia ao bar, disse:
“É, o Cartola era muito correto. Muito correto”.

Fiquei triste de saber disso. Não com  Nelson, claro, mas comigo. Não bastava ser dono do maior lirismo do século vinte, não bastava ser o maior pardo brasileiro desde Lima Barreto, eu queria que ele fosse também honesto. Uma honestidade branquinha que o Piva não tinha, mas que Nelson deveria ter, que eu deveria ter. Nessa hora eu senti falta da Mãe Márcia para fazer um trabalho de amarração, ou da imagem de Seu Tranca-Rua, para pedir uma sangria aos inimigos. Mas Mãe Márcia me despachou para sempre do terreiro e a imagem de Seu Tranca-Rua eu despachei numa encruza retalhada na minha memória antes de ganhar o Jabuti. Então, sem fé ou medo, sem descrença ou escrúpulo, eu disse:

“Ei, Valdemar, estão roubando teu nome”.

Disse essas palavras para o vento e saí sem esperar resposta. Peguei um Uber do meu apartamento chique no centro e fui para o bairro da república onde morei até assinar o contrato com a Companhia. Entrei bar do seu Bira e tudo estava igual. Passei pela roda de samba com dois brancos, um preto e muitos pardos. Passei pel’O Gabriela, uma preta sambante de quase dois metros de altura com um vestido curto e os peitos quase tão pontudos quanto o gogó. Parei no balcão e vi seu Bira, baixo, pardo e barrigudo. A única diferença é que ele estava totalmente careca e não me chamou de meu filho, só de meu amigo. Deve ter achado que tínhamos a mesma idade. Depois dos cariris e dos vermutes eu achava o mesmo, achava que tínhamos nascido e crescidos juntos, irmãos-camaradas como Nelson e Cartola. E talvez pela emoção de encontrar alguém assim, não prestei atenção na voz que se colocou na minha cabeça e disse:

“Meu nome é só seu de novo”.

Era a mesma voz que ouvi quando quase me escureci cinco anos antes. A mesma voz que se apresentou como Valdemar Matutino e me fez ganhar o Jabuti e o Oceanos, a mesma voz que me prometeu o Camões, a mesma voz que ouvi cinco anos antes de ganhar prêmios e envelhecer vinte anos. Mas o cariri e o vermute me falaram para ouvir a voz d’O Gabriela, que cantava com voz de baixo outra canção de Nelson Cavaquinho, a única canção capaz de me colocar para cima:

Quem diz, não mente
Na mão de um fraco
Sempre morre um valente

Quando a música acabou eu assobiei e bati palmas emocionado, certo de que tinha ouvido uma das coisas mais lindas da minha vida. Mas a coisa ficou feia porque seu Bira achou que eu estava de olho n’O Gabriela. Eu ainda tentei dizer, “calma, meu irmão-camarada, isso é coisa que colocam na sua cabeça”, mas não deu tempo de desviar da garrafa de vermute que me acertou na testa. Acordei numa UPA com um curativo na testa. Voltei para casa de Uber, pensando no riso do cavalo de Nelson Cavaquinho: era despeito ou bênção?; era maldição ou admiração? Deitei no sofá e dormi o sono que uma cabeça que passou por cavalgaduras e garrafadas de vermute precisa.

Acordei, abri o aplicativo da Folha de São Paulo no celular e vi a notícia: “Suposto Valdemar Matutino é assassinado em livraria”. Na foto, um pardinho jovem e deslumbrado que pensou poder ser realizado com a literatura. Parece que foi assaltado, levou um tiro no peito e tentou se proteger com um livro do Paulo Coelho. Mas o atirador era um arqueiro zen, um mago com bala na agulha, ou outra coisa oriental que os brancos gostam. Morreu mais um pardinho, coisa que os brancos gostam, pensei. Mas antes ele do que eu, eu pensei, gostei, ri e ouvi no meu próprio riso o riso de um cavalo.

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