– Prometo não usar mais nenhum diminutivo. Nenhunzinho – Carina digita quebrando a promessa na altura do vigésimo quarto caractere.
– Faz isso não. É fofo. Mas me diz? Onde tu tás? – Pedro responde bem no tom que ela queria. Sabido Pedro.
– Esperando meu pão com requeijão, na padaria. Na Baronesa da Baronesa, sabe?
– Sei e amo. Teu requeijão é na entrada ou na saída? Acabei de pedir um café aqui.
– Na entrada como tem que ser. Tu vai pedir um pãozinho também?
– Posso até pedir, mas acho que não vai ter não. Tô no LHR.
– Oxe, e onde é isso?
– Hehehe no aeroporto de Londres. Esperando meu voo. Embarco em meia hora.
– Mas tu não ia voltar da reunião ontem? Ou eu que me confundi aqui? Pensei que era em Singapura.
– Era. Loucura da empresa. Tive que mudar tudo. Vim pra Londres ontem, fiz uma entrevista no hotel, e agora tenho trabalho em Lisboa. Acho que fecho o mês assim no meio do mundo.
– Que engraçado, aqui no aplicativo diz que tu tá a menos de 1km de mim.
Pedro vai dizer que deixou o aplicativo logado em quase todos os telefones e um deles sempre fica no apartamento de São Paulo, o outro no escritório e outro na casa de Gonçalves, listará no mínimo umas cinco localizações. Talvez Carina pense que não dá pra confiar muito em alguém que tem cinco telefones. Mas isso quando chegar a mensagem, ainda não chegou. O digitando lá, há quase dois minutos. No balcão de doces, a bandeja de brigadeiros chama Carina. Um olho no brigadeiro e outro no digitando. Os dois cansam e pousam num moço na outra ponta do balcão. Ela perto da porta, ele perto da chapa. Joca, era Joca o nome do moço, também digita. Rápido feito um adolescente, todos os dedos no teclado. Talvez seja mesmo um, se não um adolescente, alguém que trabalha em home office, dado o cabelo amassado e a marca de travesseiro na bochecha às 10h da manhã de um dia útil. Ele faz um intervalo. Lê o que escreveu. Aperta o send da ponta dele, e a notificação apita na ponta de Carina. Ela ri da coincidência.
– Tu podia pegar 4 brigadeiros pra mim, por favor? – Diz pra primeira pessoa que olha pra ela de dentro do balcão.
– Pra agora ou pra levar?
– Pra agora.
Joca parece tenso mas sem pressa, também esperando por uma resposta, será? Balança a perna apoiada no suporte do banco alto. O balanço faz uma mecha de cabelo que aponta pra cima balançar junto. A empada mordida numa mão, o telefone na outra, o moletom cheio de farelo, um caroço de azeitona no prato. É em tudo diferente de Pedro, com quem Carina vem conversando há quase um mês. Pedro atarefado até nas fotos de agora. Carina tomou a agenda de meio de mundo por charme, ele percebeu. Se aperreou um pouquinho. Mas tu entendeu que eu não sou dono da empresa, né?, perguntou lá pelo segundo dia. Carina não tá nem aí pra quem é dono do que, é essa coisa de gente trabalhadora que pega, gente que acorda cedo, sem preguiça de viver, coisa linda. Fora que deve juntar um tanto de milha. Fez de conta que não leu a conversa dos cinco telefones e enfiou um brigadeiro na história pra tentar sumir com o desconforto.
– Pedi 4 brigadeiros aqui. Duvido que tenha brigadeiro no LHR.
Joca da empada ri como quem pisca.
– Baronesa da Baronesa, 2, LHR, 0. Come por ti e por mim 😉 – Pedro responde piscando. E ontem? Saiu?
– Nada. Mas reassisti Closer, não tiro essa da cabeça – Carina manda o link da música tema do filme.
Joca do moletom tira o fone no bolso. Afasta o cabelo, encaixa o fone na orelha. Escuta um pouquinho, alcança o guardanapo e enxuga o que dali, de onde Carina observa, parece uma lágrima.
– Essa música me põe comovido – Pedro devolve.
– Pedro.
– Oi?
– Tu já terminou teu café?
– Terminando agora, por que?
Joca do cabelo amassado dá o último gole do café, limpa a boca com aquele guardanapo que não limpa nada, afasta o prato e passa a língua nos dentes.
– Pedro.
– Oi?
– Nada não.
– Diz, pode dizer.
– Tu é de verdade, Pedro? Tu tá gostando mesmo de conversar comigo?
Joca das pernas nervosas olha pro telefone, dá um beijinho na tela, digita.
– Claro que sou, claro que tô, por mim te dava um beijo agora. Posso?
Joca do home office posiciona o telefone na frente do rosto, checa os dentes, abaixa a mecha desobediente de cabelo, toca a tela, espera resposta. Carina recebe uma chamada de vídeo. É Pedro. A veia do pescoço pulsa como quem está prestes a rasgar a pele. A de todo mundo. Ela aperta o verde, fecha o olho com força. Joca faz que não com a cabeça, desliga, ri, põe o telefone no bolso. Se Carina tivesse visto, tinha guardado o dela também. Não viu. Não viu, mas ouviu de olho ainda fechado Pedro dizer fazendo sotaque britânico.
– Hello, stranger.

