Exe

por Américo Paim

Fim de tarde. O espelho não está amigável. Olheiras, cabelo caótico, magreza de maus hábitos, tique de coçar o nariz. Quem estou enganando? No início parecia apenas uma fase ruim atrás da outra, mas a verdade é bem outra: sou um fracasso. Minhas telas não servem nem para espantar insetos. Eles chegam às pencas. Me veem como igual. O lógico é desistir, só que quero ganhar tempo. Vender uns quadros novos e realizar minha exposição. Devaneio e desespero. Vou ao bar perto de casa tomar umas. Um sujeito me aborda. Quer sentar-se comigo. As outras mesas estão ocupadas. Volumoso, pele trincada quase vermelha, orelhas grandes, nariz de coxinha e cheira estranho. Seu olhar é caído e ele tem verrugas. É tão esquisito que autorizo. Seu nome é Zeferino, mas prefere Olho Mole.

Entre bobagens, histórias e informações, o álcool toma as rédeas. Me conta de onde vem: Pedra Velha: “é um lugar onde acontece de tudo, até o que ninguém sabe”. A frase me conecta. Sua fala entre a mentira e a confiança, com um olho brilhoso, animado. Pergunto mais e muitos relatos depois, boa parte deles nada comuns, me empolgo e decido conhecer a cidade. Olho Mole me aconselha.

– Madame Silveirinha. A véia num falha.

– Ela é o quê?

– Sabe tudo do que se foi e o que tá na boca pra rolar.

– Não acredito nessas coisas.

– Tu vai se dar bem, tô lhe dizendo.

Dois dias depois, chego à cidade no início da noite, na pensão de Dona Fervorosa, indicação de Olho Mole. Pelo mesmo motivo vou ao bar do Cabeça Quente, onde “se ouve de tudo e se descobre as coisas”. Uma hora por lá e sei onde encontrar a tal bruxa. No meio da tarde, já estou eu na famosa casa na árvore, onde ela atende. Me recebe na sala pequena e escura. Parece muito velha, é enrugada e dentuça. Fala com soluço ou pigarro, algo assim. Uma mulher negra e magra demais, com um olhar que assusta, de um azul hipnótico, que muda de cor enquanto a gente conversa.

– Tu tem uma aflição, meu fio, mas se ajeita…

– Eu nem falei ainda!

– Quer ser famoso, pintor, artista – fala me ignorando.

– Sim, é isso!

– Tu num leva muito jeito pra coisa, num sabe?

– Não fale assim, dona…

– É madame. E num perco tempo, fio.

– A senhora me desculpe.

– Seu problema se resolve na cancela da Serra.

– Como?

– E custa dinheiro, já digo logo – me mostra um papel amarrotado. Abro e é um susto.

– Pô, Madame…

– Num vai pagar, tome seu rumo.

– Tem mais barato?

O olho dela muda de cor e me dá medo de morrer. Me fuzila em silêncio, depois sorri com a boca de dentes excessivos. Me passa outro papel, vermelho, com valor melhor. Pago e recebo instruções. Entrar na Serra pelo lado sul, seguir a trilha das jabuticabeiras – não comer delas, pode acontecer coisa ruim – até chegar na cancela, no pé da pedra grande chamada Cabeça do Demo (vou entender lá, ela diz). Tomar à direita na Clareira do Piolho de Cobra. Esperar sentado na árvore vermelha caída. Um aviso: ir cedo e não voltar sem a luz do sol – diz isso, o olho fica todo vermelho e gargalha algo que parece vir dos quintos dos infernos.

Dia seguinte, sigo as orientações e chego ao ponto sem sustos. A tal árvore é estranha, quente, como se viva. Sinto sede e engulo medo. Entre ruídos incômodos, penso ouvir algo se arrastando. Me viro e lá está ele. Careca, pele vermelho escura, jovem com jeito maduro. Usa bata branca que se sobra pelo chão. Não vejo seus pés. Braços finos, não frágeis e olhar que me prende. Estou nervoso demais. Ele é direto.

– Então quer ser artista famoso.

– Quero xim.

– Como é?

– Eu quero bastante, é ixo.

– Que jeito é esse de falar? Cada um que me aparece…

– O xenhor me perdoe. É o nervojo.

– Se acalme. Quer ser quem? Que artista?

– É axim? Excolho um e pronto.

– Isso. Me fale, vá. Você consegue.

– Axim de xupetão é mais difíxil.

– Venha cá, fio, vai falar assim o tempo todo é?

– Tô tenxo, releve aí, Xeo Gênio. Daqui a pouco paxa.

– Obrigado, mas gênio ainda não. Sou um jovem aprendiz.

– Mas voxê tá capaxitado? Xabe fazer o xervixo?

– Ah, fique na paz. O senhor já é meu terceiro.

– Ixo não parexe muito, né?

– Me diga, entende disso? Então me deixe trabalhar. Qual é o artista, homem?

– Tô tão nervojo que o nome tá fugindo. É aquele holandêx.

– Vou lhe dar uma força – disse e mostrou um pequeno livro com Van Gogh na capa.

– É exe! – disse eu, num grito espontâneo.

Somos envolvidos por uma névoa vermelha. Meu corpo dói em pontadas e pressões. Caio no chão feito feto. O céu clareia de novo. Minhas mãos estão envelhecidas. Percebo uma barbicha e sobrancelhas cabeludas. O nariz pontudo. As orelhas, que alívio, estão as duas lá. Ele me dá um espelho e me fita com ar de visível orgulho. Diante da imagem, grito:

– Mas não é esse!

– Oxe, é esse sim.

– Claro que não!

– Rapaz, deixe de reclamação. Você mesmo falou.

– Falei “é esse”!

– Olha só, agora até acabou o nervoso. Tá falando direito.

– Ué, é mesmo.

– E já em português. É um bônus do produto. Somos diferenciados.

– Me poupe. Eu falei Van Gogh e você me transformou em outra pessoa.

– Não foi bem assim. Você falou holandês e depois disse “Escher”.

– Oi? Eu falei “É esse”.

– Tava nervosinho, recorde aí. Foi “Exe”. Eu aproximei.

– Não foi um É, foi um Ê!

– Hum, podemos aperfeiçoar em outra oportunidade.

– Como assim? Paguei pelo serviço e virei um artista gráfico?

– Olhe, detalhes técnicos não estão no pacote. É pelo nome. Falou, virou.

– Que absurdo!

– Repare. Veio artista, falando certinho, sem aquele mimimi e já traduzido.

– E daí? Vim errado. Escher nem fez tanta fama e dinheiro!

– Também com esse temperamento aí…

– Como?

– Muito esquentadinho você…

– Isso é outra coisa. Como vou saber se ele era assim? Tô me achando bem eu, aliás.

– Nada que um update de versão não resolva no futuro. Agora, me dê licença…

– Vai me deixar?

– Já entreguei o pedido. Quer beijinho também?

– Pelo menos me dê papel e lápis para testar meu talento.

Ele reforça para eu sair dali com a luz do sol. Para voltar a ser eu, preciso retornar ao mesmo lugar, em três dias. “E se eu faltar?”. Ele dá um risinho igual ao da véia vidente. Dano a desenhar bonito, mas só aqueles labirintos infinitos de Escher. Olho em volta e nada das cores impressionistas que eu queria. Só vejo simetrias geométricas e padrões repetitivos! Crio uns três ali mesmo. Gosto e até me animo.

Volto a Pedra Velha. Não me deixam entrar na pensão porque não fui eu quem alugou o quarto. Quer dizer, fui eu, não Escher! Pego outro. Me tranco lá e reflito: preciso produzir e vender tudo em três dias. Ao final do primeiro dia, tenho uns trinta trabalhos. No segundo me dedico às vendas, consigo pouco e as pessoas me encaram por causa do visual estranho. No Cabeça Quente tomo cerveja holandesa, mas entro em debate de futebol, que não suporto, sobre a rivalidade Brasil e Holanda. Tento explicar sobre o meu trabalho genial, porém, não há nada meu na Internet. Se eu estou ali, vivinho? Dá um nó na minha cabeça. Prisioneiro em mim mesmo. Feito minhas gravuras tridimensionais em folha de papel, um plano bidimensional. Só eu sei de mim e eu mesmo não existo! Ainda acompanho calado uma busca policial em toda a região, atrás de um turista de São Paulo desaparecido!

O terceiro dia vem com a criação de uma das minhas obras mais famosas: “Autorretrato em esfera espelhada”. A sorte me sorri no fim de tarde da praça, véspera do retorno à Serra. Uma mulher, amante das artes, se encanta com a peça, mesmo com impressão de já tê-la visto. Paga muito bem, o que garante a volta a São Paulo e uns meses. Chance de tentar de novo. Vai que sobra talento de Escher em mim?

No dia seguinte, na hora certa, chego ao local da transformação. Ninguém aparece, só a fumaça vermelha. Quando acaba, o espelho é amigável: eu de novo. O verdadeiro, não uma ilusão de ótica de Escher. Passada a empolgação, reparo que não estou no mesmo lugar. Aquele aprendiz filho da puta! Deve ser outro defeito do produto! Ando o dia todo e onde acho que é saída, é entrada. Subida é descida. Final é começo. Escher está em mim, de verdade. Só que logo vai escurecer…

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